Décima mishná do capítulo: depois de várias mishnayot dedicadas a exceções e casos limítrofes, esta finalmente descreve o cenário-padrão e positivo — quem efetivamente traz e recita sem qualquer ressalva — reunindo os elementos já estabelecidos (tempo correto, sete espécies, qualquer geografia da Terra de Israel incluindo o Transjordânia) e introduzindo a disputa de Rabi Yosé Haglilí sobre este último ponto
E estes trazem e recitam: de Atzeret até a Festa, das sete espécies, de frutos que crescem nos montes, de tâmaras que crescem nos vales, e de azeites de óleo, do outro lado do Jordão (reunindo, de modo positivo, todos os elementos já discutidos: o período correto entre Shavuot e Sucot, as sete espécies qualificadas, e — de modo notável — incluindo explicitamente frutos de montes e vales tanto para tâmaras quanto para os demais frutos, e até mesmo produtos vindos do território a leste do rio Jordão). Rabi Yosé Haglilí diz: não trazem bikurim do outro lado do Jordão, pois não é terra que mana leite e mel (uma disputa sobre se o Transjordânia, conquistado e habitado pelas tribos de Reuven, Gad e metade de Menashé, mas fora dos limites geográficos originais prometidos por Deus a Avraham, qualifica-se plenamente para a mitzvá de bikurim).
וְאֵלּוּ מְבִיאִין וְקוֹרִין, מִן הָעֲצֶרֶת וְעַד הֶחָג, מִשִּׁבְעַת הַמִּינִים, מִפֵּרוֹת שֶׁבֶּהָרִים, מִתְּמָרוֹת שֶׁבָּעֲמָקִים, וּמִזֵּיתֵי שֶׁמֶן, מֵעֵבֶר הַיַּרְדֵּן. רַבִּי יוֹסֵי הַגְּלִילִי אוֹמֵר, אֵין מְבִיאִין בִּכּוּרִים מֵעֵבֶר הַיַּרְדֵּן, שֶׁאֵינָהּ אֶרֶץ זָבַת חָלָב וּדְבָשׁ:
A disputa sobre o Transjordânia se apoia em duas leituras diferentes da mesma expressão bíblica que descreve a Terra Prometida.
Shemot (Êxodo) 3:8 · 23:19
וָאֵרֵד לְהַצִּילוֹ מִיַּד מִצְרַיִם וּלְהַעֲלֹתוֹ מִן הָאָרֶץ הַהִוא אֶל אֶרֶץ טוֹבָה וּרְחָבָה, אֶל אֶרֶץ זָבַת חָלָב וּדְבָשׁ... רֵאשִׁית בִּכּוּרֵי אַדְמָתְךָ תָּבִיא בֵּית ה' אֱלֹהֶיךָ.
"E desci para livrá-lo da mão do Egito, e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e espaçosa, a uma terra que mana leite e mel..." A expressão "אֶרֶץ זָבַת חָלָב וּדְבָשׁ" (terra que mana leite e mel) descreve especificamente a Terra de Canaã, dentro de seus limites geográficos originais — não incluindo, segundo Rabi Yosé Haglilí, o território do Transjordânia, conquistado posteriormente por Moshé das mãos de Sichon e Og, mas nunca objeto da promessa original "que mana leite e mel". Já a maioria dos Sábios lê "אַדְמָתְךָ" (a tua terra) de Shemot 23:19 de modo mais amplo — qualquer terra que Deus deu a Israel como herança, incluindo o Transjordânia.
Por que esta mishná, que descreve o cenário "positivo" de quem traz e recita sem ressalvas, ainda assim contém uma disputa não resolvida? A estrutura reflete a natureza cumulativa da mishná: mesmo ao descrever o caso-padrão, o texto preserva o debate tanácico legítimo sobre os limites exatos da mitzvá — neste caso, se ela se estende ao Transjordânia. A opinião anônima e majoritária (representada pelo "Estes trazem e recitam") inclui explicitamente o Transjordânia; Rabi Yosé Haglilí discorda, com base numa leitura mais restritiva da promessa territorial. A halachá final segue a opinião majoritária, mas a mishná preserva ambas as vozes, permitindo ao estudante compreender a base do debate e não apenas seu resultado.
Halachot · הֲלָכוֹת
O Rambam codifica esta lei em Hilchot Bikurim, capítulo 2, halachá 3, dentro do contexto mais amplo dos requisitos geográficos e qualitativos do fruto trazido.
Rambam · Hilchot Bikurim 2:3
אֵין מְבִיאִין לֹא מִתְּמָרִים שֶׁבֶּהָרִים, וְלֹא מִפֵּרוֹת שֶׁבָּעֲמָקִים, וְלֹא מִזֵּיתֵי שֶׁמֶן שֶׁאֵינָן מִן הַמֻּבְחָר, אֶלָּא מִתְּמָרִים שֶׁבָּעֲמָקִים וּמִפֵּרוֹת שֶׁבֶּהָרִים לְפִי שֶׁהֵן מִן הַמֻּבְחָר.
Não trazem nem de tâmaras que crescem nos montes, nem de frutos que crescem nos vales, nem de azeites de óleo que não sejam do escolhido, senão de tâmaras que crescem nos vales e de frutos que crescem nos montes, porque estes são do escolhido (o Rambam confirma que a mishná, ao mencionar "frutos que crescem nos montes" e "tâmaras que crescem nos vales" na lista positiva desta décima mishná, está simplesmente reafirmando o padrão de qualidade já estabelecido na Mishná 1:3, agora do lado positivo — os frutos de qualidade escolhida, sim, são aceitos). O Rambam não codifica explicitamente a disputa sobre o Transjordânia nesta passagem, mas em outras partes de Hilchot Bikurim (2:1) inclui implicitamente a totalidade do território conquistado por Israel sob a categoria de terras qualificadas para bikurim de origem bíblica, seguindo a opinião majoritária contra Rabi Yosé Haglilí.
Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná, que resume o cenário positivo da mitzvá e apresenta a disputa sobre o alcance geográfico do Transjordânia.
Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Bikurim 1:10
פירות שבהרים יותר טובים מפירות העמקים ויותר מוטעמים, והתמרים במישור ובעמק יש בהם יותר דבש, ואנחנו רצוננו מן התמרים רוב הדבש לפי שהכתוב קראם דבש כמו שזכרנו. ועבר לירדן, אע"פ שאינה זבת חלב ודבש, הש"י נתנה לנו ואפשר לנו לומר אשר נתתה לי. ואין הלכה כר' יוסי הגלילי.
Os frutos dos montes são melhores que os frutos dos vales e mais saborosos, e as tâmaras na planície e no vale têm mais mel, e nosso interesse nas tâmaras é a maior quantidade de mel, pois a Escritura as chamou de "mel", como já mencionamos (o Rambam recapitula o padrão inverso entre tâmaras e demais frutos já visto na Mishná 1:3, confirmando que esta mishná é sua contraparte positiva). "E do outro lado do Jordão": ainda que não seja terra que mana leite e mel, o Nome bendito no-la deu, e podemos dizer "que Tu me deste" (o Rambam explica sucintamente a base da opinião majoritária: o critério decisivo não é a descrição poética específica "leite e mel", mas o fato mais amplo de que toda a terra, incluindo o Transjordânia, foi dada por Deus a Israel como herança). E não é a halachá segundo Rabi Yosé Haglilí.
Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Bikurim 1:10
מִפֵּרוֹת שֶׁבֶּהָרִים וּמִתְּמָרוֹת שֶׁבָּעֲמָקִים וּמִזֵּיתֵי שֶׁמֶן מֵעֵבֶר הַיַּרְדֵּן... פֵּרוֹת שֶׁבֶּהָרִים הֵם מֻטְעָמִים יוֹתֵר מִפֵּרוֹת שֶׁבָּעֲמָקִים, הִלְכָּךְ מְבִיאִים בִּכּוּרִים מִפֵּרוֹת שֶׁבֶּהָרִים. אֲבָל הַתְּמָרִים הֵם הֶפֶךְ זֶה, שֶׁהַתְּמָרִים שֶׁבָּעֲמָקִים הֵם יוֹתֵר מְלֵאִים מִדְּבַשׁ... מֵעֵבֶר הַיַּרְדֵּן. מִפֵּרוֹת שֶׁל עֵבֶר הַיַּרְדֵּן נַמִּי מְבִיאִים בִּכּוּרִים, אַף עַל פִּי שֶׁאֵינָהּ אֶרֶץ זָבַת חָלָב וּדְבַשׁ, שֶׁכֵּיוָן שֶׁנְּתָנָהּ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְיִשְׂרָאֵל קָרֵינָא בָהּ פְּרִי הָאֲדָמָה אֲשֶׁר נָתַתָּה לִּי. וּפָלֵיג רַבִּי יוֹסֵי הַגְּלִילִי וְאָמַר אֵין מְבִיאִין בִּכּוּרִים מֵעֵבֶר הַיַּרְדֵּן, וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי הַגְּלִילִי.
"De frutos que crescem nos montes, de tâmaras que crescem nos vales, e de azeites de óleo, do outro lado do Jordão": [a leitura correta do texto é assim] — os frutos dos montes são mais saborosos que os frutos dos vales, por isso trazem bikurim de frutos dos montes. Mas as tâmaras são o oposto disto, pois as tâmaras dos vales são mais cheias de mel (o Bartenura confirma a leitura textual precisa, notando explicitamente que a ordem das palavras na mishná precisa ser entendida com o padrão invertido entre tâmaras e outros frutos, já estabelecido na Mishná 1:3). "Do outro lado do Jordão": dos frutos do outro lado do Jordão também trazem bikurim, ainda que não seja terra que mana leite e mel, pois já que o Santo, bendito seja, a deu a Israel, chama-se nela "fruto da terra que Tu me deste" (o Bartenura explica a lógica da opinião majoritária: a qualificação "que mana leite e mel" é apenas descritiva e não uma condição legal restritiva — o critério decisivo é a doação divina da terra como herança, que abrange todo o território conquistado por Israel). E Rabi Yosé Haglilí discorda e diz: não trazem bikurim do outro lado do Jordão. E não é a halachá segundo Rabi Yosé Haglilí.
Massechet Bikurim não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.