Não se inscrevem pessoas num animal, de início, em dia de festa, mas se inscrevem nele desde a véspera da festa, e o abatem e repartem entre si. — Combinar quantas pessoas vão se juntar para comprar um animal, fixando o valor da parte de cada uma, é um ato comercial próprio de dia útil e por isso proibido em dia de festa; mas se esse acordo já foi feito na véspera, é permitido abater o animal no dia de festa e repartir a carne entre os sócios, pois o ato de repartir, em si, não constitui comércio.
Rabi Yehudá diz: pode-se pesar carne contra o utensílio ou contra o cutelo. E os sábios dizem: não se dá atenção alguma à balança. — Rabi Yehudá permite que, para dividir a carne com justiça entre os sócios sem usar pesos comerciais, coloque-se a carne num dos pratos da balança e, do outro lado, um utensílio ou o próprio cutelo de açougueiro como contrapeso, apenas para igualar visualmente as porções — sem que isso seja considerado um verdadeiro ato de pesar; os sábios discordam e proíbem qualquer uso da balança, mesmo dessa forma indireta, por se assemelhar demais ao comércio de dia útil.
Este relato, que Nechemyá denuncia como profanação do dia sagrado, é a base histórica do princípio de que qualquer ato com aparência de comércio — fixar preços, pesar, negociar — está fora do espírito do dia santo, mesmo quando o próprio ato físico envolvido, como abater ou repartir alimento, é permitido. Por isso a mishná distingue: fixar o valor da parte de cada sócio no animal é comércio propriamente dito, e permanece proibido mesmo em dia de festa; mas repartir a carne já comprada, ainda que exija alguma forma de equilíbrio entre as porções, não constitui negócio e pode ser feito, desde que sem os instrumentos próprios do comércio de dia útil.
O Rambam explica o sentido de "inscrever-se" e fixa a halachá conforme os sábios; Bartenura detalha a distinção entre pesar em libra — proibido — e usar a balança apenas para igualar porções.
“Não se inscrevem” — significa que não se fixa o preço em dia de festa, dizendo: este animal vale dez moedas, por exemplo, para que dez pessoas o comprem, uma moeda cada uma. “Não se dá atenção alguma à balança” — pois é proibido usá-la mesmo sem pesar, como para colocar algum objeto num de seus pratos ou para cobrir com ela um utensílio. E a halachá segue os sábios.
“Não se inscrevem” — não se fixam preços para que dois ou três homens digam: este animal vale três dinares, um dinar para cada um. “E o abatem e repartem entre si” — pela metade, pelo terço ou pelo quarto, sem mencionar o preço fixado. “Pode-se pesar carne” — embora seja proibido pesar em libra, por ser ato de dia útil, é permitido pesar contra o utensílio e contra o cutelo, e no dia seguinte verão quanto pesam o cutelo e o utensílio. “Os sábios dizem: não se dá atenção” — não se examina a balança de forma alguma, e mesmo para proteger a carne dos ratos é proibido colocá-la num prato da balança. E a halachá segue os sábios.
Rashi explica como se procede na prática o abate sem preço fixado — trazendo dois animais de valor equivalente — para que a divisão seja justa sem qualquer aparência de comércio.
“Gemará: não se fixam preços” — pois compra e venda em Shabat e em dia de festa é proibido, conforme o Livro de Ezra. “Como se procede” — visto que a mishná ensina que se abate e se reparte entre si, como se procede para que soubessem no dia seguinte quanto valia, a fim de fixar seu preço? “Ele traz” — para eles, em dia de festa, dois animais de valor equivalente, e diz: vejam que este é como aquele; e no dia seguinte avaliam o que restou.