Seder Moed · Massechet Beitzá · Perek Guimel · Mishná 3 de 8

O animal em perigo de morte e o transporte pelo campo

בְּהֵמָה מְסֻכֶּנֶת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná examina o abate, em dia de festa, de um animal em perigo de morrer antes que se possa consumi-lo normalmente, e o modo permitido de transportar a carne quando o abate se dá no campo.

Um animal em perigo não se abate, a menos que haja tempo no dia para comer dele um kezait assado. Rabi Akiva diz: mesmo um kezait cru, do lugar do abate.Abater em dia de festa só é permitido quando o abate serve diretamente à refeição da festa; por isso, se o animal está prestes a morrer sem que sobre tempo suficiente no dia para preparar e comer ao menos um pedaço do tamanho de uma azeitona, o abate não se justifica como preparo de comida, e é proibido. Rabi Akiva é mais brando: basta que haja tempo de comer um pedaço cru, tirado do próprio local do abate, sem sequer precisar assá-lo.

Se o abateu no campo, não o traga com vara e vara — mas o traz na mão, membro por membro.Quando o abate ocorre no campo, é proibido trazer a carcaça inteira suspensa numa vara carregada por dois homens, pois esse modo de transporte é ostensivo e público demais, incompatível com a dignidade e o recato próprios do dia de festa; mas é permitido levá-la para casa aos poucos, carregando cada membro separadamente na própria mão.

בְּהֵמָה מְסֻכֶּנֶת לֹא יִשְׁחֹט, אֶלָּא אִם כֵּן יֵשׁ שָׁהוּת בַּיּוֹם לֶאֱכֹל מִמֶּנָּה כַּזַּיִת צָלִי. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, אֲפִלּוּ כַזַּיִת חַי מִבֵּית טְבִיחָתָהּ. שְׁחָטָהּ בַּשָּׂדֶה, לֹא יְבִיאֶנָּה בְמוֹט וּבְמוֹטָה. אֲבָל מֵבִיא בְיָדוֹ אֵבָרִים אֵבָרִים:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim 12:21
וְזָבַחְתָּ מִבְּקָרְךָ וּמִצֹּאנְךָ אֲשֶׁר נָתַן ה׳ לְךָ, כַּאֲשֶׁר צִוִּיתִךָ.
E abaterás de teu gado e de teu rebanho que o Eterno te deu, conforme te ordenei.

Este versículo estabelece a permissão geral do abate, mas o abate em dia de festa depende de uma condição adicional: que sirva à necessidade real da refeição do dia. Por isso, a mishná exige que reste tempo suficiente no dia para consumir ao menos um pedaço do animal, pois só assim o abate se enquadra na permissão de trabalho "para toda pessoa comer" — do contrário, ele se tornaria um abate em vão, desconectado da alegria da festa, e proibido como qualquer outro trabalho desnecessário.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam fixa a halachá contra Rabi Akiva; Bartenura explica por que se teme pela morte do animal e por que carregá-lo em vara sobre os ombros de dois homens desonraria a festa.

Rambam · Perush HaMishná, Beitzá 3:3
וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא:

E a halachá não segue Rabi Akiva.

Bartenura · Beitzá 3:3
בְּהֵמָה מְסֻכֶּנֶת. שֶׁהוּא יָרֵא שֶׁמָּא תָּמוּת. וְאֵין צָרִיךְ לָהּ, שֶׁכְּבָר סָעַד סְעוּדָתוֹ. לֹא יִשְׁחֹט. אֶלָּא אִם כֵּן יוֹדֵעַ שֶׁיֵּשׁ שָׁהוּת בַּיּוֹם לֶאֱכֹל כַּזַּיִת צָלִי הֵימֶנָּה. מִבֵּית טְבִיחָתָהּ. שֶׁהוּא מְזֻמָּן וּמֻפְשָׁט מֵעוֹרוֹ וְעוֹמֵד. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא. לֹא יְבִיאֶנָּה בְּמוֹט וּבְמוֹטָה. בִּשְׁנֵי בְּנֵי אָדָם. מִשּׁוּם דְּאַוְשָׁא מִלְּתָא וּמְזַלְזֵל בִּכְבוֹד יוֹם טוֹב.

“Um animal em perigo” — significa que se teme que ele venha a morrer, e não que ele precise ser abatido, pois quem o abate já terminou sua refeição do dia. “Não se abate” — a menos que se saiba que há tempo no dia para comer dele um kezait assado. “Do lugar do abate” — pois ali já está pronto, esfolado de sua pele e disponível. E a halachá não segue Rabi Akiva. “Não o traga com vara e vara” — carregado por dois homens, pois isso faz alarde e desonra a dignidade do dia de festa.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi esclarece por que o dono não precisa da carne do animal em perigo para sua própria refeição — pois já comeu — e por que o abate, ainda assim, é permitido apenas dentro do limite de tempo estabelecido.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Beitzá 25a
מַתְנִי' בְּהֵמָה מְסֻכֶּנֶת — שֶׁהוּא יָרֵא שֶׁתָּמוּת וְאֵינוֹ צָרִיךְ לָהּ, שֶׁכְּבָר סָעַד סְעוּדָתוֹ, אֶלָּא מֵחֲמַת הֶפְסֵדוֹ הוּא שׁוֹחֵט. לֹא יִשְׁחֹט אֶלָּא אִם כֵּן — יוֹדֵעַ שֶׁיֵּשׁ שָׁהוּת בַּיּוֹם לֶאֱכֹל כַּזַּיִת צָלִי הֵימֶנָּה. מִבֵּית טְבִיחָתָהּ — שֶׁהוּא מְזֻמָּן וּמֻפְשָׁט מֵעוֹרוֹ וְעוֹמֵד. לֹא יְבִיאֶנָּה בְּמוֹט וּבְמוֹטָה — בִּשְׁנֵי בְּנֵי אָדָם, מִשּׁוּם דְּאַוְשָׁא מִלְּתָא הִיא וּמְזַלְזֵל בְּיוֹם טוֹב.

“A mishná: um animal em perigo” — significa que ele teme que venha a morrer, e não que precise dela para comer, pois já terminou sua refeição, mas é por causa do prejuízo que teria se o animal morresse sem ser abatido que ele o abate. “Não se abate a menos que” — saiba que há tempo no dia para comer dele um kezait assado. “Do lugar do abate” — pois ali já está pronto, esfolado de sua pele e disponível. “Não o traga com vara e vara” — carregado por dois homens, porque isso é ostentação e desonra o dia de festa.