Aquele cujo lábio superior excede o inferior, ou cujo lábio inferior excede o superior — eis que isso é mácula. E aquele cujos dentes caíram é desqualificado por aparência de mácula.
— O desalinho entre os dois lábios, quando um se projeta visivelmente além do outro, constitui mácula bíblica plena. Já a perda dos dentes, como a queda dos cílios vista na mishná anterior, não é mácula da Torá, mas desqualificação decretada pelos sábios por aparência de mácula.
Aquele cujos peitos são caídos como os de uma mulher; aquele cujo ventre está inchado; aquele cujo umbigo se projeta para fora; o epiléptico, ainda que caia apenas uma vez em muitos dias; aquele sobre quem vem um espírito de melancolia; o meushcan; e o baal guêver. Aquele que não tem testículos, ou que tem apenas um testículo — este é o merôach ashech mencionado na Torá. Rabi Yishmael diz: todo aquele cujos testículos foram esmagados. Rabi Akiva diz: todo aquele que tem vento em seus testículos. Rabi Chanina ben Antigonos diz: todo aquele cuja aparência é escurecida.
— A mishná passa ao tronco e aos órgãos internos: peitos caídos como os de uma mulher, ventre inchado e saliente, umbigo que se projeta para fora do corpo. Segue-se a epilepsia, que desqualifica mesmo quando as crises são raras — uma única vez a cada longo período — e a condição descrita como “espírito de melancolia”, entendida pelos comentaristas como um distúrbio do humor causado por excesso de bile negra. O meushcan tem a bolsa escrotal alongada até os joelhos; o baal guêver tem o membro viril alongado até o mesmo ponto. Por fim, a mishná retorna ao merôach ashech de Vayikrá 21:20, e relata três leituras tanaíticas: a anônima o identifica com a falta de um ou dos dois testículos; Rabi Yishmael, com testículos esmagados; Rabi Akiva, com testículos inchados por acúmulo de ar; e Rabi Chanina ben Antigonos rompe com os três, lendo merôach não como referência aos testículos, mas à aparência escurecida da pele do sacerdote.
Rambam explica nichpê (epiléptico) pela reviravolta involuntária do corpo durante a crise, e rúach katsrit (“espírito curto”) como uma aflição causada pelo excesso de bile negra, a ponto de prejudicar as funções e forças do corpo. Descreve meushcan e baal guêver como condições em que a bolsa escrotal ou o membro se alongam até os joelhos — doenças médicas já registradas pelos médicos da época. E esclarece o ponto central da disputa: os quatro tanaítas não discordam sobre se essas condições são máculas, mas sobre qual delas exatamente a Torá designou pelo termo merôach ashech; Rabi Chanina ben Antigonos entende “escurecido” como a cor escura da pele, ainda que não tão escura quanto a de um cuchi.
Bartenura explica cada termo do tronco e confirma, como Rambam, que os quatro tanaítas concordam entre si que todas as quatro condições descritas são máculas verdadeiras — a disputa é exclusivamente sobre a interpretação do versículo, isto é, sobre qual delas a Torá quis designar pelo termo merôach ashech.
Rashi lê rúach ktsará (“espírito curto”) como um espírito de possessão (rúach shed), e traduz meushcan e baal guêver simplesmente pelo tamanho aumentado dos testículos e do membro, respectivamente. Sobre a disputa final, esclarece a leitura de Rabi Yishmael (testículos triturados), a de Rabi Akiva (testículos inchados por ar) e a de Rabi Chanina ben Antigonos, que rompe com a leitura anatômica ao ler merôach como a cor escura da pele — e não como referência alguma aos testículos.