O charum é desqualificado. Quem é o charum? Aquele que pinta os seus dois olhos como um só. Aquele cujos dois olhos estão para cima, ou cujos dois olhos estão para baixo; aquele cujo um olho está para cima e um olho está para baixo; aquele que vê o quarto de baixo e o andar de cima como se fossem um só; o que não suporta olhar para o sol; o zugdos; e o tsiran. E aquele cujos cílios caíram é desqualificado por aparência de mácula.
— O charum bíblico (Vayikrá 21:18) é definido pela mishná por um teste prático: seu nariz é tão achatado, sem qualquer saliência entre os olhos, que ele consegue passar o pincel de maquiagem de um olho a outro num único traço contínuo, sem que o nariz o interrompa. A ele se somam outras posições anômalas dos olhos — ambos deslocados para cima ou para baixo, ou um em cada posição — e a peculiar condição de quem, apesar de os olhos estarem no lugar certo, enxerga simultaneamente o andar térreo e o superior, como quem fala com alguém e parece, ao mesmo tempo, estar olhando para outra pessoa. Somam-se ainda: aquele que não suporta a luz do sol e precisa semicerrar os olhos para olhá-lo; o zugdos, cujo par de olhos ou de sobrancelhas não é simétrico (um escuro e outro claro, por exemplo); e o tsiran, cujos olhos lacrimejam continuamente. Por fim, a queda dos cílios não é, por si, uma mácula bíblica plena, mas os sábios a desqualificaram por decreto, “por aparência de mácula” — ou seja, por parecer aos olhos de quem vê semelhante a uma mácula real, ainda que tecnicamente não o seja.
Rambam explica cada termo tecnicamente: charum é quem tem a altura do nariz extremamente baixa; sachêi shemesh (“inimigo do sol”) é quem precisa apertar e reduzir as pálpebras para conseguir olhar para o sol ou a lua; zugdos designa qualquer assimetria entre dois órgãos pareados que deveriam ser iguais; tsiran é quem tem os olhos lacrimejando continuamente. E fecha com uma distinção fundamental de três graus: as máculas comuns ao homem e ao animal invalidam retroativamente o serviço já realizado; as máculas exclusivas do homem não invalidam o serviço, mas o sacerdote recebe açoites por tê-lo realizado; e as máculas desqualificadas apenas por aparência não geram nem invalidação nem açoites, mesmo que ele tenha servido.
Bartenura explica o teste do charum: o nariz é tão sem saliência entre os olhos que o pincel de maquiagem passa livremente de um olho a outro. Sobre quem vê o quarto e o andar superior como um só, esclarece que os olhos estão fisicamente no lugar certo, mas cada um vê para um lado diferente — dando a impressão, quando fala com alguém, de estar olhando para outra pessoa. Explica zugdos como qualquer par de órgãos que deveria ser simétrico e não é. E confirma os três graus jurídicos das máculas explicados por Rambam.
Rashi confirma a leitura literal do teste do charum e explica sachêi shemesh como quem não consegue encarar o sol. Remete zugdos e tsiran à explicação da Guemará, define os “cílios” (risei einav) como os pelos ao redor da pupila, e fixa que a ressalva “por aparência de mácula” se refere especificamente à queda desses pelos — e não ao conjunto de máculas anteriores da mishná, que são desqualificações bíblicas plenas.