O sacerdote é crível ao dizer: mostrei este primogênito, e ele tem defeito.
— Embora, como visto na mishná anterior, o sacerdote seja em geral suspeito de causar defeito propositalmente em seu próprio primogênito, aqui a mishná lhe concede credibilidade num ponto específico: quando ele afirma já ter levado o animal a um sábio competente, que examinou o defeito e o declarou permanente e legítimo. Sua palavra é aceita porque essa afirmação é facilmente verificável — poder-se-ia consultar o próprio sábio mencionado — e uma coisa que está sujeita a ser desmentida não costuma ser inventada.
Todos são críveis quanto aos defeitos do dízimo.
— Ao contrário do primogênito, onde a credibilidade do sacerdote é restrita, quanto ao animal do dízimo até o próprio dono é crível ao afirmar que um defeito surgiu de modo natural e não intencional. A razão é que o dono não tem motivo para mentir especificamente sobre esse animal: se ele realmente quisesse fraudar o dízimo, poderia simplesmente causar defeito em todo o rebanho antes mesmo de separar o dízimo, e então declarar o dízimo já separado como defeituoso desde sempre — não haveria necessidade de arriscar-se mentindo depois da separação.
Primogênito cujo olho foi cegado, cuja mão foi cortada, cuja perna foi quebrada — este poderá ser abatido com base [na palavra] de três frequentadores da sinagoga. Rabi Yosei diz: ainda que ali houvesse vinte e três, não será abatido senão com base [na palavra] de um perito.
— Para defeitos manifestamente óbvios e permanentes — como a cegueira total, a amputação de um membro ou uma fratura visível — a mishná dispensa a exigência de um especialista treinado em identificar defeitos sutis: basta o julgamento de três homens comuns, frequentadores regulares da sinagoga, sem formação especial. Rabi Yosei discorda radicalmente: mesmo que houvesse ali um tribunal pleno de vinte e três sábios, ainda assim seria necessário um perito específico, formalmente autorizado a julgar defeitos de primogênitos, pois considera que a autorização para abater um animal consagrado é uma questão técnica demais para ser confiada a leigos, por mais óbvio que pareça o defeito.
Rambam explica que o sacerdote não é suspeito de comer carne sagrada fora do local devido — sua suspeita se limita a causar defeito propositalmente para poder comer e vender o animal como se fosse comum. Por isso, quando afirma ter consultado um sábio que confirmou o defeito, é crível. Quanto ao dízimo, explica que, como qualquer dono poderia causar defeito em todo o rebanho antes mesmo de separar o dízimo — tornando inútil mentir depois da separação — todos, inclusive os donos, são críveis. E esclarece que a exigência de três leigos, ou de um perito segundo Rabi Yosei, aplica-se apenas onde não há um perito disponível na região; havendo um perito, só ele pode autorizar o abate. A halachá não segue Rabi Yosei.
Bartenura acrescenta uma condição importante: o sacerdote só é crível ao dizer que mostrou o primogênito a um sábio se houver testemunhas de que não foi ele mesmo quem causou o defeito. Sobre o dízimo, explica que os sacerdotes também são obrigados a separar o dízimo do gado como os israelitas, e todos são críveis quanto a seus defeitos, inclusive os próprios donos, pois quem quisesse fraudar poderia simplesmente causar defeito em todo o rebanho antes da separação. "Frequentadores da sinagoga" significa pessoas que não são eruditas; e essa permissão vale apenas onde não há um perito individual disponível — havendo, o abate só pode se basear em sua palavra, mesmo tratando-se de um defeito evidente. A halachá não segue Rabi Yosei.
Rashi esclarece que "mostrei este primogênito" significa mostrá-lo a um sábio, que confirmou tratar-se de defeito permanente, permitindo seu abate — contanto que haja testemunhas de que o próprio sacerdote não foi quem causou o defeito.
Rashi explica que "todos são críveis quanto aos defeitos do dízimo" trata do caso de dúvida sobre a contagem do dízimo — como quando o dono, ao contar os animais, chamou o nono de décimo por engano — situação em que o animal fica sem solução a não ser através de um defeito que permita seu abate. E confirma que "olho cegado" é exemplo de defeito manifesto, e que "frequentadores da sinagoga" designa pessoas leigas, sem formação de sábios.