Seder Kodashim · Massechet Bechorot · Perek Hei · Mishná 3 de 6

Quem corta a orelha do primogênito não o abate mais; os episódios do carneiro e do cordeiro

הַצּוֹרֵם בְּאֹזֶן הַבְּכוֹר הֲרֵי זֶה לֹא יִשָּׁחֵט עוֹלָמִית
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Rabi Eliezer: quem corta a orelha do primogênito nunca mais poderá abatê-lo; os sábios: pode abatê-lo por conta de um defeito futuro diferente

Quem corta a orelha do primogênito, este nunca mais o abaterá: palavras de Rabi Eliezer. E os sábios dizem: quando nascer nele outro defeito, será abatido por conta dele.

— Trata-se de alguém, geralmente o próprio sacerdote dono do animal, que corta intencionalmente a orelha de um primogênito para produzir nele um defeito e assim liberá-lo para abate e consumo comum — um ato proibido, pois é vedado causar defeito propositalmente em animal consagrado. Rabi Eliezer o penaliza para sempre: mesmo que depois surja nesse mesmo animal um defeito totalmente independente e legítimo, o transgressor jamais poderá abatê-lo, como punição por sua transgressão original. Os sábios discordam: a penalidade vale apenas quanto ao defeito que ele mesmo causou; mas se depois surgir outro defeito, espontâneo e não provocado, o animal poderá ser abatido por conta dele.

הַצּוֹרֵם בְּאֹזֶן הַבְּכוֹר, הֲרֵי זֶה לֹא יִשָּׁחֵט עוֹלָמִית, דִּבְרֵי רַבִּי אֱלִיעֶזֶר. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, כְּשֶׁיִּוָּלֵד לוֹ מוּם אַחֵר, יִשָּׁחֵט עָלָיו.
O episódio do carneiro velho marcado pelo quaestor romano: os sábios permitiram a primeira vez, mas proibiram quando o gesto se tornou intencional

Houve um caso de um carneiro velho, de lã crescida e emaranhada; um quaestor o viu e disse: qual é a razão deste? Disseram-lhe: é primogênito, e só é abatido se nele houver defeito. Ele tomou um punhal e cortou-lhe a orelha. E o caso veio perante os sábios, e eles o permitiram. Ele viu que o permitiram, e foi cortar as orelhas de outros primogênitos, e proibiram.

— Um funcionário romano, ao ver o carneiro envelhecido sem jamais ser tosquiado — sinal de que era um primogênito consagrado, guardado indefinidamente à espera de um defeito natural — interveio por conta própria, sem que o dono lhe tivesse pedido nada, e cortou a orelha do animal. Como o dono não teve qualquer participação intencional nesse ato, os sábios permitiram que o primogênito fosse abatido por conta desse defeito. Mas quando o mesmo quaestor, animado por essa permissão, foi propositalmente cortar as orelhas de outros primogênitos — agora já sabendo, e de certo modo agindo em benefício do dono, com sua conivência tácita — os sábios proibiram, pois o ato deixou de ser fortuito e passou a equivaler a uma intervenção intencional do próprio dono.

מַעֲשֶׂה בְזָכָר שֶׁל רְחֵלִים זָקֵן וּשְׂעָרוֹ מְדֻלְדָּל, רָאָהוּ קַסְדּוֹר אֶחָד, אָמַר, מַה טִּיבוֹ שֶׁל זֶה. אָמְרוּ לוֹ, בְּכוֹר הוּא וְאֵינוֹ נִשְׁחָט אֶלָּא אִם כֵּן הָיָה בּוֹ מוּם. נָטַל פִּגְיוֹן וְצָרַם בְּאָזְנוֹ, וּבָא מַעֲשֶׂה לִפְנֵי חֲכָמִים וְהִתִּירוּהוּ. רָאָה שֶׁהִתִּירוּ, וְהָלַךְ וְצָרַם בְּאָזְנֵי בְכוֹרוֹת אֲחֵרִים, וְאָסָרוּ.
O episódio das crianças que amarraram caudas de cordeiros; e o princípio: o que é intencional é proibido, o que não é, permitido

Certa vez crianças brincavam no campo e amarraram caudas de cordeiros umas às outras, e a cauda de um deles se rompeu — e ele era primogênito. E o caso veio perante os sábios, e eles o permitiram. Viram que o permitiram, e foram amarrar caudas de outros primogênitos, e proibiram. Este é o princípio: tudo o que é feito intencionalmente é proibido; e o que não é intencional, é permitido.

— Paralelamente ao caso do quaestor, um segundo episódio confirma o mesmo princípio a partir de outro ângulo: crianças, sem qualquer intenção de causar defeito em animais sagrados, amarraram caudas de cordeiros em brincadeira, e uma delas se rompeu por acidente, produzindo um defeito fortuito num primogênito. Os sábios permitiram seu abate. Mas quando, vendo essa permissão, as próprias crianças passaram a repetir o gesto propositalmente em outros primogênitos, os sábios proibiram — pois agora a intenção de produzir o defeito estava presente. A mishná fecha com o princípio geral por trás de ambos os episódios: o que resulta de um ato voltado a causar o defeito é proibido; o que resulta de um ato sem essa intenção é permitido.

פַּעַם אַחַת הָיוּ תִינוֹקוֹת מְשַׂחֲקִין בַּשָּׂדֶה וְקָשְׁרוּ זַנְבוֹת טְלָאִים זֶה לָזֶה, וְנִפְסְקָה זְנָבוֹ שֶׁל אֶחָד מֵהֶם וַהֲרֵי הוּא בְכוֹר, וּבָא מַעֲשֶׂה לִפְנֵי חֲכָמִים וְהִתִּירוּהוּ. רָאוּ שֶׁהִתִּירוּ, וְהָלְכוּ וְקָשְׁרוּ זַנְבוֹת בְּכוֹרוֹת אֲחֵרִים, וְאָסָרוּ. זֶה הַכְּלָל, כֹּל שֶׁהוּא לְדַעְתּוֹ, אָסוּר. וְשֶׁלֹּא לְדַעְתּוֹ, מֻתָּר:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Bechorot 5:3
הצורם באוזן הבכור ה"ז לא ישחט עולמית כו': ...וראוי שתדע שמטיל מום בקדשים לוקה, ובתוספתא דבכורות אמרו העושה מום בבעל מום והמסרס את המסורס והמחמץ את המחומץ לוקה את הארבעים ודע זה. ודע שאם עבר ישראל והטיל מום בבכור ומת הרי בנו שוחט את הבכור ההוא באותו המום, וזהו מה שאמרו לדידיה קנסו רבנן לבריה לא קנסו רבנן, ואין הלכה כר' אליעזר.

Rambam explica que quem causa defeito propositalmente em um animal consagrado recebe as trinta e nove chicotadas, mesmo que o animal já tivesse outro defeito antes; e destaca que a penalidade de nunca mais poder abater o animal recai apenas sobre quem cometeu a transgressão — se ele morre, seu filho já pode abater o mesmo animal por conta do mesmo defeito, pois "a ele os sábios penalizaram, a seu filho não penalizaram". A halachá não segue Rabi Eliezer, e sim os sábios.

Bartenura · Bechorot 5:3
הֲרֵי זֶה לֹא יִשָּׁחֵט עוֹלָמִית. וַאֲפִלּוּ נָפַל בּוֹ מוּם אַחֵר. מִשּׁוּם קְנָס, לְפִי שֶׁעָבַר וְהִטִּיל מוּם בַּקָּדָשִׁים. שֶׁהַמַּטִּיל מוּם בַּקָּדָשִׁים סוֹפֵג אֶת הָאַרְבָּעִים... כְּשֶׁיִּוָּלֵד לוֹ מוּם אַחֵר יִשְׁחֹט עָלָיו. וַאֲפִלּוּ בְאוֹתוֹ מוּם עַצְמוֹ, אִם מֵת הַמַּטִּיל אֶת הַמּוּם, בְּנוֹ שׁוֹחֵט אַחֲרָיו עַל אוֹתוֹ הַמּוּם... כֹּל שֶׁהוּא לְדַעְתּוֹ אָסוּר. לַאֲתוֹיֵי גְרָמָא, כְּגוֹן שֶׁיּוֹלִיךְ הַבְּהֵמָה בְּמָקוֹם שֶׁיֵּשׁ בּוֹ בַּרְזֶל כְּדֵי שֶׁתִּכָּשֵׁל בּוֹ וְיִפֹּל בָּהּ מוּם: וְשֶׁלֹּא לְדַעְתּוֹ מֻתָּר. לַאֲתוֹיֵי אִם הָיָה יִשְׂרָאֵל מֵסִיחַ לְפִי תֻּמּוֹ...

Bartenura explica que quem causa defeito num animal consagrado é açoitado, mesmo que o dono nunca chegue a abater o animal por causa disso — a penalidade é pela própria transgressão de causar o defeito. Sobre "quando nascer nele outro defeito, ele o abaterá": mesmo que o mesmo tipo de defeito reapareça de forma independente, e mesmo que aquele que causou o primeiro defeito já tenha morrido, seu filho pode abater o animal por conta do defeito repetido, pois a penalidade recaiu apenas sobre o transgressor original. E o princípio "tudo que é intencional é proibido" estende-se também a causas indiretas, como conduzir o animal deliberadamente por um lugar onde há ferro para que tropece e se machuque; já "o que não é intencional é permitido" inclui, por exemplo, o caso de alguém que, falando casualmente diante de um gentio, comenta que comeria de bom grado a carne daquele primogênito se ele tivesse defeito — e o gentio, ouvindo, vai e causa o defeito por conta própria.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Sobre a Guemará, Bechorot 34a
מתני' הצורם — הפוגם אנקרני"ר בלע"ז. ובכהן קא מיירי:

Rashi define "corta" como "fere/entalha", traduzindo o termo para o francês medieval de sua época, e observa que a mishná trata do caso em que é o próprio sacerdote dono do primogênito quem realiza o ato.

Rashi רַשִׁ"י
Sobre a Guemará, Bechorot 35a
מתני' ושערו מדולדל — לפי שלא היה נגזז מעולם: קסדור — ממונה: מה טיבו של זה — שהניחוהו להזקין כל כך: פיגום — רומח: והתירו — שהרי אין לומר שהעובד כוכבים הזה להתירו נתכוין שהרי אינו יודע שע"י מום שיעשה בו ישחט אלא א"כ נפל מאליו:

Rashi explica que a lã do carneiro estava emaranhada porque nunca havia sido tosquiada, e identifica o kasdor como um funcionário público romano, cuja pergunta — "qual é a razão deste?" — expressava estranhamento por o deixarem envelhecer tanto sem tosquia. Explica "punhal" como uma espécie de lança curta, e esclarece o motivo da primeira permissão: não se pode dizer que o gentio agiu com a intenção de liberar o animal para abate, pois ele sequer sabia que um defeito causado o tornaria abatível — a menos que surgisse por si só.