Quem corta a orelha do primogênito, este nunca mais o abaterá: palavras de Rabi Eliezer. E os sábios dizem: quando nascer nele outro defeito, será abatido por conta dele.
— Trata-se de alguém, geralmente o próprio sacerdote dono do animal, que corta intencionalmente a orelha de um primogênito para produzir nele um defeito e assim liberá-lo para abate e consumo comum — um ato proibido, pois é vedado causar defeito propositalmente em animal consagrado. Rabi Eliezer o penaliza para sempre: mesmo que depois surja nesse mesmo animal um defeito totalmente independente e legítimo, o transgressor jamais poderá abatê-lo, como punição por sua transgressão original. Os sábios discordam: a penalidade vale apenas quanto ao defeito que ele mesmo causou; mas se depois surgir outro defeito, espontâneo e não provocado, o animal poderá ser abatido por conta dele.
Houve um caso de um carneiro velho, de lã crescida e emaranhada; um quaestor o viu e disse: qual é a razão deste? Disseram-lhe: é primogênito, e só é abatido se nele houver defeito. Ele tomou um punhal e cortou-lhe a orelha. E o caso veio perante os sábios, e eles o permitiram. Ele viu que o permitiram, e foi cortar as orelhas de outros primogênitos, e proibiram.
— Um funcionário romano, ao ver o carneiro envelhecido sem jamais ser tosquiado — sinal de que era um primogênito consagrado, guardado indefinidamente à espera de um defeito natural — interveio por conta própria, sem que o dono lhe tivesse pedido nada, e cortou a orelha do animal. Como o dono não teve qualquer participação intencional nesse ato, os sábios permitiram que o primogênito fosse abatido por conta desse defeito. Mas quando o mesmo quaestor, animado por essa permissão, foi propositalmente cortar as orelhas de outros primogênitos — agora já sabendo, e de certo modo agindo em benefício do dono, com sua conivência tácita — os sábios proibiram, pois o ato deixou de ser fortuito e passou a equivaler a uma intervenção intencional do próprio dono.
Certa vez crianças brincavam no campo e amarraram caudas de cordeiros umas às outras, e a cauda de um deles se rompeu — e ele era primogênito. E o caso veio perante os sábios, e eles o permitiram. Viram que o permitiram, e foram amarrar caudas de outros primogênitos, e proibiram. Este é o princípio: tudo o que é feito intencionalmente é proibido; e o que não é intencional, é permitido.
— Paralelamente ao caso do quaestor, um segundo episódio confirma o mesmo princípio a partir de outro ângulo: crianças, sem qualquer intenção de causar defeito em animais sagrados, amarraram caudas de cordeiros em brincadeira, e uma delas se rompeu por acidente, produzindo um defeito fortuito num primogênito. Os sábios permitiram seu abate. Mas quando, vendo essa permissão, as próprias crianças passaram a repetir o gesto propositalmente em outros primogênitos, os sábios proibiram — pois agora a intenção de produzir o defeito estava presente. A mishná fecha com o princípio geral por trás de ambos os episódios: o que resulta de um ato voltado a causar o defeito é proibido; o que resulta de um ato sem essa intenção é permitido.
Rambam explica que quem causa defeito propositalmente em um animal consagrado recebe as trinta e nove chicotadas, mesmo que o animal já tivesse outro defeito antes; e destaca que a penalidade de nunca mais poder abater o animal recai apenas sobre quem cometeu a transgressão — se ele morre, seu filho já pode abater o mesmo animal por conta do mesmo defeito, pois "a ele os sábios penalizaram, a seu filho não penalizaram". A halachá não segue Rabi Eliezer, e sim os sábios.
Bartenura explica que quem causa defeito num animal consagrado é açoitado, mesmo que o dono nunca chegue a abater o animal por causa disso — a penalidade é pela própria transgressão de causar o defeito. Sobre "quando nascer nele outro defeito, ele o abaterá": mesmo que o mesmo tipo de defeito reapareça de forma independente, e mesmo que aquele que causou o primeiro defeito já tenha morrido, seu filho pode abater o animal por conta do defeito repetido, pois a penalidade recaiu apenas sobre o transgressor original. E o princípio "tudo que é intencional é proibido" estende-se também a causas indiretas, como conduzir o animal deliberadamente por um lugar onde há ferro para que tropece e se machuque; já "o que não é intencional é permitido" inclui, por exemplo, o caso de alguém que, falando casualmente diante de um gentio, comenta que comeria de bom grado a carne daquele primogênito se ele tivesse defeito — e o gentio, ouvindo, vai e causa o defeito por conta própria.
Rashi define "corta" como "fere/entalha", traduzindo o termo para o francês medieval de sua época, e observa que a mishná trata do caso em que é o próprio sacerdote dono do primogênito quem realiza o ato.
Rashi explica que a lã do carneiro estava emaranhada porque nunca havia sido tosquiada, e identifica o kasdor como um funcionário público romano, cuja pergunta — "qual é a razão deste?" — expressava estranhamento por o deixarem envelhecer tanto sem tosquia. Explica "punhal" como uma espécie de lança curta, e esclarece o motivo da primeira permissão: não se pode dizer que o gentio agiu com a intenção de liberar o animal para abate, pois ele sequer sabia que um defeito causado o tornaria abatível — a menos que surgisse por si só.