Quem recebe rebanho de ferro de um gentio: as crias estão isentas, e as crias das crias são obrigadas. Se colocou as crias no lugar de suas mães, as crias das crias estão isentas, e as crias das crias das crias são obrigadas.
— O tzon barzel (“rebanho de ferro”) é um regime em que o gentio entrega seus animais a um judeu por um valor fixo, como um empréstimo garantido: o judeu assume o risco de morte ou desvalorização, devendo devolver ao gentio o valor original combinado, enquanto os lucros com a cria ficam com ele. Por essa estrutura, o próprio corpo dos animais recebidos permanece, em certo sentido, vinculado ao gentio como garantia da dívida — e por isso a cria direta desses animais está isenta da primogenitura, já que há “mão de gentio no meio”. Mas a cria dessa cria — já dois graus afastada dos animais originais do gentio — volta a ser obrigada, por já não estar diretamente vinculada à garantia. Se, porém, o dono decidiu substituir as mães originais pelas próprias crias, tornando-as a nova garantia do rebanho de ferro, a isenção se desloca também uma geração adiante: agora são as crias dessas crias que ficam isentas, e apenas a geração seguinte a elas volta a ser obrigada.
Rabban Shimon ben Gamliel diz: mesmo até dez gerações, estão isentas, pois sua responsabilidade de garantia é do gentio.
— Rabban Shimon ben Gamliel discorda do limite implícito na primeira opinião, segundo a qual a isenção recua apenas uma geração a cada substituição da garantia. Para ele, enquanto o gentio puder, em caso de inadimplência, cobrar sua dívida de qualquer descendente desses animais — por mais distante que seja a geração —, todos permanecem sob a sombra dessa “mão de gentio”, e portanto isentos da primogenitura. Ele usa o número dez apenas como exemplo de uma sucessão indefinidamente longa, e não como limite fixo.
Rambam explica que o rebanho de ferro é um arranjo de garantia: o gentio não perde nada e ainda tem o lucro, exigindo de volta seu capital original intacto, sem que este jamais diminua — regime permitido com o gentio, como já explicado no tratado de Bava Metzia. Quando o gentio for cobrar e não encontrar dinheiro em mãos do judeu, ele toma de volta o próprio animal que entregou, já que, desde o princípio, este lhe pertencia — havendo, portanto, “mão de gentio no meio”, e toda situação em que há mão de gentio no meio isenta da primogenitura. Por isso, na cria desse animal ainda há vínculo com o gentio, e ela fica isenta; mas a cria da cria é obrigada na primogenitura. Do mesmo modo, se o dono colocou as crias no lugar das mães, fazendo delas o novo rebanho de ferro, as crias dessas crias ficam obrigadas na primogenitura. Rambam registra a opinião de Rabban Shimon ben Gamliel, que isenta as crias e as crias das crias indefinidamente, pois considera que a responsabilidade de garantia recai sobre elas e sobre tudo o que delas sai, mas conclui que a lei não segue Rabban Shimon ben Gamliel.
Bartenura descreve o rebanho de ferro como o arranjo em que o gentio avalia seus animais por um preço fixo, entregando-os ao judeu com a condição de que este lhe devolva esse mesmo valor até dez anos depois, quer os animais tenham morrido, quer tenham se desvalorizado nesse período; e a cria que vierem a ter até esse prazo será dividida entre ambos.
Rashi comenta cada expressão da mishná: “as crias estão isentas” refere-se à isenção da primogenitura das crias diretas do rebanho de ferro, pois se o judeu não pagar ao gentio o valor combinado, este toma de volta o próprio animal — e, se não o encontrar mais, toma as crias em seu lugar. “As crias das crias são obrigadas” refere-se aos descendentes de segundo grau que couberem à parte do judeu: quando estas tiverem crias primogênitas, devem ser entregues ao sacerdote, ou seja, a quarta geração a partir do rebanho de ferro original é entregue ao sacerdote. Sobre “colocou as crias no lugar de suas mães”, Rashi explica que o dono abriu ao gentio uma nova via de vínculo sobre as crias, dizendo-lhe: se os animais originais morrerem, tomarás as crias que couberem à minha parte, e elas ficarão sob minha posse pelo mesmo valor combinado — de modo que agora a “mão do gentio” se fortalece e passa a se estender por mais uma geração: por isso as crias dessas crias, que são a segunda geração a partir das novas crias-garantia, ficam isentas. E sobre “pois sua responsabilidade de garantia é do gentio”, Rashi explica que, para Rabban Shimon ben Gamliel, o gentio sempre poderá tomar para si qualquer descendente que encontrar, por mais distante que seja a geração.