Não se cria gado miúdo na Terra de Israel, mas cria-se na Síria, e nos desertos que há na Terra de Israel. — Por causa do risco de dano às plantações — já que ovelhas e cabras costumam pastar livremente e devastar lavouras alheias —, proíbe-se a criação de gado miúdo nas terras cultivadas de Israel; mas essa proibição não se estende à Síria, região conquistada por Davi mas não plenamente equiparada à Terra de Israel para este fim, nem aos desertos dentro da própria Terra de Israel, onde não há lavouras a proteger.
Não se criam galinhas em Jerusalém, por causa das coisas consagradas; nem os sacerdotes na Terra de Israel, por causa das purezas. — Em Jerusalém, onde se consome carne de sacrifícios e outras oferendas consagradas, proíbe-se criar galinhas porque estas costumam ciscar em monturos e podem trazer um pequeno osso de um animal impuro, contaminando essas oferendas; e, por razão semelhante, os próprios sacerdotes — que consomem terumá em qualquer parte da Terra de Israel e precisam preservá-la em pureza — também não podem criar galinhas.
Não se criam porcos em lugar algum. — A proibição de criar porcos é absoluta e não se limita a Jerusalém ou à Terra de Israel, valendo em qualquer lugar — reflexo de uma rejeição especialmente enfática a esse animal na tradição.
Não criará um homem o cão, a menos que esteja preso por uma corrente. — Por causa do perigo que representa — o cão solto morde, late de modo assustador, e pode até causar aborto em mulheres grávidas pelo medo que provoca —, é proibido criá-lo livremente; só se permite sua criação quando mantido preso.
Não se estendem armadilhas para pombos, a menos que estejam distantes do povoado trinta ris. — Para não capturar os pombos que pertencem aos moradores do povoado, as armadilhas de caça só podem ser armadas a uma distância mínima de trinta ris — cerca de quatro milhas — do local habitado.
Rambam explica a razão de cada proibição — do gado miúdo aos porcos e à distância das armadilhas; Bartenura acrescenta a narrativa talmúdica sobre a origem da proibição dos porcos, ligada ao cerco entre os reis hasmoneus.
Rambam explica que não se cria gado miúdo na Terra de Israel porque tais animais pastam livremente sobre as sementeiras, causando dano às plantações. Quanto à proibição dos porcos, esclarece que a mesma razão se aplica, em princípio, a outros animais proibidos para consumo — mas o caso dos porcos é mencionado especificamente, conforme se sabe, por ser possível criá-los como se cria o gado e o rebanho [mas ainda assim proibido]. E, quanto à distância mínima das armadilhas para pombos — trinta ris, equivalentes a quatro milhas —, explica que essa distância existe para evitar o roubo, de modo que não se capturem os pombos pertencentes aos moradores da cidade. Rambam também adverte que não se deve criar cão por causa do dano que ele pode causar.
Bartenura explica que não se cria gado miúdo na Terra de Israel por causa da colonização da terra, já que tais animais estragam as sementeiras. Quanto aos porcos, Bartenura conta a razão explicada na Guemará: durante o cerco entre os reis hasmoneus rivais, os que estavam do lado de fora costumavam, todos os dias, içar aos que estavam dentro os animais para os sacrifícios contínuos. Certo dia, içaram-lhes um porco; quando este chegou à metade do muro, cravou as garras na parede, e a Terra de Israel tremeu numa extensão de quatrocentas parasangas por quatrocentas parasangas. Naquele momento disseram: "Maldito seja quem cria porcos." Quanto ao cão, explica que é proibido porque morde, late, e pode fazer uma mulher abortar pelo medo que causa.
O perush de Rashi sobre a Guemará (Bava Kamma 79b), encerrando o Perek Zayin.
Rashi explica que a proibição de criar gado miúdo na Terra de Israel se deve à colonização da terra — pois tal criação devasta os campos, e presume-se que todo campo na Terra de Israel pertence a um israelita. Já a Síria, correspondendo a Aram Tzová, conquistada pelo rei David, é considerada uma conquista que não tem o pleno estatuto de "conquista" para este fim, equiparando-se ao exterior da Terra, onde a preocupação com a colonização não se aplica — embora, se o gado vier a causar dano a campos alheios ali mesmo, o dono deva pagar por esse dano específico.
Rashi confirma que a proibição de criar galinhas em Jerusalém vale mesmo para um israelita comum — por causa das oferendas consagradas que ali se consomem, como a carne dos sacrifícios de paz, da oferenda de agradecimento e do dízimo de gado; como as galinhas costumam ciscar em monturos, há o risco de trazerem um osso do tamanho de uma lentilha de um animal impuro e contaminarem essas oferendas consagradas. E os sacerdotes não podem criar galinhas em toda a Terra de Israel, pois consomem terumá e precisam se resguardar quanto à sua pureza.
Rashi remete à Guemará para a razão detalhada da proibição dos porcos, e confirma que o cão é proibido de criação solta porque morde, late, e pode fazer uma mulher abortar pelo medo que provoca. Explica ainda que "nishvim" são armadilhas (pachim), colocadas a essa distância para que os pombos pertencentes aos moradores do povoado não sejam capturados nelas — e que "trinta ris" equivalem a quatro milhas.