Há quem é responsável pelo ato de seu boi e isento pelo próprio ato, e há quem é isento pelo ato de seu boi e responsável pelo próprio ato. — A mishná introduz uma série de casos paralelos, mostrando que a responsabilidade por dano causado pelo boi de uma pessoa nem sempre segue a mesma lógica da responsabilidade pelo dano que a própria pessoa causa diretamente — às vezes uma se aplica e a outra não, e vice-versa.
Se seu boi envergonhou, está isento; se ele mesmo envergonhou, é responsável. — O pagamento por vergonha (boshet) só se aplica quando o dano é causado com intenção, algo que só o ser humano é capaz de ter; o boi, mesmo quando causa vergonha, nunca age com essa intenção específica, e por isso seu dono está isento desse pagamento.
Se seu boi cegou o olho de seu escravo e derrubou seu dente, está isento; se ele mesmo cegou o olho de seu escravo e derrubou seu dente, é responsável. — A Torá determina que o escravo cananeu ganha sua liberdade quando o próprio dono lhe causa a perda de um membro essencial, como o olho ou o dente; mas essa lei aplica-se apenas ao ato direto do dono, não a um dano causado por seu boi.
Se seu boi feriu seu pai ou sua mãe, é responsável; se ele mesmo feriu seu pai ou sua mãe, está isento. — Quando o boi de alguém fere os pais de seu dono, o dono paga a indenização normalmente. Mas se a própria pessoa fere seus pais, ela está isenta do pagamento — não porque o dano não exista, mas porque, sendo essa uma transgressão capital, aplica-se o princípio de que uma pessoa não pode, ao mesmo tempo, morrer (ser passível da pena máxima) e pagar por seu ato.
Se seu boi incendiou a meda no Shabat, é responsável; se ele mesmo incendiou a meda no Shabat, está isento, porque é passível de pena de morte. — A mishná encerra com o caso mais extremo: quando o boi de alguém causa um incêndio no Shabat, o dono paga a indenização normalmente, pois o boi não está sujeito às leis do Shabat. Mas quando a própria pessoa ateia fogo no Shabat, ela se torna passível da pena capital por profanar o dia sagrado, e por isso está isenta do pagamento civil — o princípio geral de que quem é passível de pena mais grave não é também obrigado ao pagamento pelo mesmo ato.
Rambam explica o princípio de que a pessoa não morre e paga ao mesmo tempo; Bartenura detalha a base de cada isenção específica.
Rambam explica que mesmo quando uma pessoa causa vergonha a outra, só é responsável quando age com intenção — condição que, com maior razão, o boi nunca satisfaz, sendo por isso sempre isento desse pagamento. Reafirma também o princípio fundamental de que uma pessoa não pode, ao mesmo tempo, ser passível de pena de morte e obrigada a pagar por seu ato — princípio já explicado no terceiro capítulo de Ketubot.
Bartenura fundamenta a isenção do boi que envergonha na expressão bíblica "um homem contra seu próximo" — excluindo explicitamente o boi. Sobre o escravo, explica que ele só ganha liberdade quando o próprio dono lhe causa a perda de um membro essencial, conforme "para a liberdade o enviará". E esclarece que, quando o boi incendeia a meda no Shabat, o pagamento é de meio dano, por se tratar de um comportamento incomum (mesuneh) para um boi.
O perush de Rashi sobre a Guemará (Bava Kamma 34b), sobre a isenção da vergonha causada pelo boi.
Rashi remete ao princípio já estabelecido anteriormente no tratado (Bava Kamma 26a): a expressão bíblica "um homem contra seu próximo" exclui explicitamente o boi do pagamento por vergonha, fundamento direto da isenção enunciada aqui.