Se deixou filhos, filhas e um tumtum: quando os bens são muitos, os machos o empurram para junto das fêmeas. — O tumtum é aquele cujo sexo permanece oculto e indeterminado. Quando há bens suficientes para todos, os filhos homens — que herdariam integralmente, excluindo o tumtum de sua parte — o empurram para o lado das filhas, alegando que talvez seja fêmea e por isso não tenha direito de herança junto com eles, apenas de sustento.
Bens escassos, as fêmeas o empurram para junto dos machos. — Quando os bens são poucos e só as filhas recebem sustento, são elas agora que o empurram para o lado dos filhos, alegando que talvez seja macho e portanto, como os irmãos homens, não tenha direito a sustento algum. Em ambos os casos o tumtum acaba sem receber nada, por força da própria dúvida sobre sua condição.
Aquele que diz: se minha mulher der à luz um macho, receberá cem denários — nasceu um macho, recebe cem denários. Uma fêmea, duzentos — nasceu uma fêmea, recebe duzentos. — Trata-se de um pai que, antes do nascimento, condiciona um presente ao sexo do filho por nascer; a mishná registra que a promessa se cumpre exatamente conforme o sexo que de fato nascer.
Se disse: se macho, cem; se fêmea, duzentos — e nasceram um macho e uma fêmea, o macho recebe cem denários e a fêmea recebe duzentos. — Caso de gêmeos de sexos diferentes: cada condição do pai se aplica à sua própria criança, sem que uma exclua a outra.
Nasceu um tumtum, não recebe nada. — Como o tumtum não é categoricamente nem macho nem fêmea, nenhuma das duas condições do pai se cumpre nele, e por isso fica de fora do presente prometido.
Se disse: tudo o que minha mulher der à luz receberá — este recebe. — Quando a condição do pai não distingue entre os sexos, mas se refere a qualquer filho que nasça, o tumtum também está incluído e recebe o presente.
E se não há ali outro herdeiro além dele, herda tudo. — Quando o tumtum é o único herdeiro possível, a dúvida sobre seu sexo deixa de ter relevância prática, pois não há ninguém mais para disputar a herança com ele — e ele a recebe por inteiro.
Rambam esclarece o ponto mais delicado da mishná: quando se diz que “nascendo tumtum não recebe nada”, isso vale apenas onde a condição do pai excluiu implicitamente essa possibilidade — mas, tomado isoladamente, o tumtum é considerado uma categoria própria, distinta tanto do macho quanto da fêmea, o que poderia sugerir que jamais herda nada, mesmo sendo o único filho. A mishná vem ensinar que isso não é assim: se não há outro herdeiro além do tumtum, ele herda tudo.
Bartenura define o termo com precisão: o tumtum é aquele cujo sexo permanece em dúvida — talvez macho, talvez fêmea.
O Rashbam explica o termo tumtum como o corpo “fechado”, sem sinal externo de sexo — daí a dúvida se é macho ou fêmea. Ele registra ainda uma segunda leitura na Guemará, mais radical: o tumtum poderia ser uma terceira categoria própria, nem macho nem fêmea, e por isso excluído mesmo do sustento que caberia a uma filha. Sobre a expulsão pelos filhos homens, o Rashbam explica o mecanismo concreto: eles dizem ao tumtum “traga prova de que és macho e então herdarás conosco — enquanto isso, vai para o lado das fêmeas”, deixando-o sem herança nem com um grupo nem com o outro, até que prove sua condição.