Quem vende a cabeça de um animal de grande porte não vendeu as patas dianteiras. Vendeu as patas, não vendeu a cabeça. Vendeu a traqueia, não vendeu o fígado. Vendeu o fígado, não vendeu a traqueia. — No gado grande — bovinos —, cada uma dessas partes do abate é importante o bastante por si mesma para não se incluir automaticamente na venda de outra: a cabeça e as patas são vendidas separadamente, assim como a traqueia (com os pulmões) e o fígado.
Mas no gado miúdo, quem vendeu a cabeça vendeu as patas — mas vendeu as patas, não vendeu a cabeça. Vendeu a traqueia, vendeu o fígado — mas vendeu o fígado, não vendeu a traqueia. — Já no gado miúdo — ovinos e caprinos, de menor porte e valor —, a regra é assimétrica: a cabeça, por ser a parte principal e de maior valor, arrasta consigo as patas dianteiras (mas não o inverso); e a traqueia com os pulmões, por serem fisicamente ligados ao fígado com frequência, arrastam o fígado consigo (mas não o inverso).
Rambam esclarece que "gado grande" refere-se especificamente aos bovinos; Bartenura acrescenta, a partir da Tosefta, que a regra vale onde não há costume local em contrário, e explica por que a traqueia recebe o nome coloquial de "cana".
Rambam esclarece brevemente que, para os fins desta mishná, "animal de grande porte" (behemá gassá) refere-se exclusivamente ao gado bovino.
Bartenura traz da Tosefta que toda essa regra vale apenas onde não há costume comercial estabelecido em contrário — mas onde o costume local determina o que se inclui na venda, segue-se o costume da região. Esclarece ainda que "vendeu a cana" refere-se aos pulmões, chamados coloquialmente pelo nome da traqueia (a "cana" da respiração) que os atravessa.
Rashbam sobre o daf 83b transmite a mesma nota da Tosefta sobre o costume local, confirmando que a distinção entre gado grande e miúdo é a única variável fixa da mishná.
Rashbam confirma, citando a mesma Tosefta trazida por Bartenura, que a regra desta mishná — cabeça sem patas, patas sem cabeça, traqueia sem fígado — aplica-se apenas onde não há costume comercial local estabelecido; onde há costume, tudo segue o costume da região. E explica que "a cana" mencionada na mishná é o próprio pulmão, chamado por essa palavra devido ao cano (a traqueia) que o atravessa.