Quem vende a cidade vendeu as casas, os poços, as valas e as cavernas, os banhos e os pombais, os lagares de azeite e as terras irrigadas, mas não os móveis. — Sendo a cidade a maior unidade possível de venda, ela absorve estruturas que, em vendas menores (como a do pátio, na mishná 4:4), permaneciam de fora — o banho e o lagar de azeite agora se anulam diante da grandeza da cidade inteira e são incluídos automaticamente. A terra irrigada (beit hashelachin) refere-se aos jardins e pomares pertencentes à cidade. Os móveis, porém, continuam excluídos.
E quando o vendedor lhe diz: "ela e tudo o que há nela", mesmo que houvesse nela gado e escravos, todos estes são vendidos. — Aqui a fórmula ampliadora alcança seu ponto máximo de abrangência: inclui até seres vivos — o gado e os escravos cananeus presentes na cidade —, precisamente porque, diante de uma venda tão grande, toda propriedade nela contida se anula e é tratada como parte do conjunto.
Rabban Shimon ben Gamliel diz: quem vende a cidade vendeu também o santer. — Rabban Shimon ben Gamliel acrescenta um elemento à lista básica: o santer, o escravo designado para guardar e vigiar a cidade, é vendido junto mesmo sem menção explícita — segundo ele, por estar tão intrinsecamente ligado à função da cidade quanto as próprias construções.
Rambam identifica a terra irrigada e o santer, e confirma que a halachá rejeita Rabban Shimon ben Gamliel; Bartenura explica por que até o gado e os escravos entram na fórmula ampliadora desta venda.
Rambam identifica o beit hashelachin como os terrenos irrigados por canais que conduzem água para regar as árvores da cidade, e o santer como o escravo designado especificamente para vigiar e proteger a cidade. Confirma, por fim, que a halachá não segue Rabban Shimon ben Gamliel — o santer não é incluído automaticamente na venda.
Bartenura observa que, se a venda da cidade inclui casas, com maior razão inclui os pátios, que são a estrutura principal de uma cidade. Explica a lógica por trás da inclusão de gado e escravos na fórmula ampliadora: se até móveis que se movem por conta própria (como animais e escravos) são incluídos, com maior razão são incluídos os grãos armazenados — móveis que não se movem sozinhos. Reafirma que a halachá rejeita Rabban Shimon ben Gamliel quanto ao santer.
Rashbam sobre o daf 68b esclarece a lógica interna da posição de Rabban Shimon ben Gamliel sobre o santer, em diálogo com a opinião dos Sábios sobre os campos da cidade.
Rashbam explica a estrutura lógica da acréscimo de Rabban Shimon ben Gamliel: o Tanná Kama (a opinião anônima dos Sábios) já havia estabelecido que os jardins murados da cidade são vendidos, mas os campos abertos ao redor não são. Rabban Shimon ben Gamliel então acrescenta, com certo espanto retórico, que mesmo o vigia responsável pelos campos abertos (bar mechavnayta, identificado com o santer) é vendido — precisamente porque sua função de vigiar os campos abertos, que de outra forma não seriam incluídos na venda da cidade, mostra que sua ligação à cidade transcende a linha divisória entre o que está murado e o que não está.