Não abrirá um homem uma loja de padeiros ou de tintureiros debaixo do armazém do seu companheiro, nem um estábulo de gado. — A fumaça constante de fornos de padeiros e o vapor dos tintureiros sobem e podem estragar os grãos, o vinho ou o azeite guardados no armazém do andar de cima; o mau cheiro de um estábulo de gado é ainda mais direto e persistente. Por isso, tanto lojas quanto estábulos são proibidos sob o armazém alheio.
Em verdade, quanto ao vinho, permitiram; mas não o estábulo de gado. — A mishná introduz uma exceção específica para armazéns de vinho: o calor e a fumaça de fornos e tinturarias, segundo observaram os Sábios, na verdade beneficiam o vinho da Terra de Israel, amadurecendo-o — por isso, sob um armazém de vinho, essas lojas foram permitidas. O estábulo de gado, porém, continua proibido em qualquer caso, pois seu mau cheiro prejudica o vinho independentemente do calor.
Uma loja que está no pátio: pode protestar contra ele e dizer-lhe: não consigo dormir por causa do barulho dos que entram e dos que saem. — Quando um dos moradores de um pátio comum decide abrir uma loja voltada para dentro do próprio pátio — atraindo clientes de fora —, os demais moradores podem se opor, alegando que o vaivém constante de fregueses entrando e saindo perturba seu sono e sua privacidade dentro do espaço que deveria ser de uso doméstico e compartilhado.
Mas quem fabrica utensílios sai e vende no mercado; mas ele não pode protestar contra ele e dizer-lhe: não consigo dormir — nem por causa do barulho do martelo, nem por causa do barulho do moinho, nem por causa do barulho das crianças. — Se, ao contrário, o morador do pátio apenas fabrica seus produtos dentro de casa — usando martelo ou moinho como parte normal de seu ofício — e depois sai para vendê-los no mercado, sem atrair clientes ao pátio, os vizinhos não podem se opor ao barulho de sua atividade, pois ele continua sendo um uso doméstico legítimo do próprio espaço. A mesma proteção se estende, com ainda mais força, ao barulho de crianças — entendido pela tradição como o som de um mestre ensinando Torá a alunos —, que os vizinhos jamais podem impedir, por mais perturbador que seja, em razão do valor supremo do ensino da Torá.
Rambam explica por que o barulho de crianças estudando é a única exceção protegida, e distingue-a de outros tipos de ensino; Bartenura detalha a exceção do vinho e o direito de vizinhos protestarem contra uma nova loja.
Rambam explica que a proibição de protestar contra o barulho das crianças existe unicamente para multiplicar o estudo da Torá em Israel — e por isso essa proteção especial vale apenas para quem ensina Torá às crianças. Se o mestre ensinasse apenas aritmética ou geometria, os vizinhos teriam o direito normal de protestar e impedi-lo, dizendo que o barulho de quem entra e sai os impede de dormir.
Bartenura esclarece que a permissão do vinho é local e condicional: ela vale porque, na Terra de Israel daquela época, o calor da fumaça na verdade melhorava o vinho — mas em qualquer lugar onde se sabe que o calor prejudica o vinho, a proibição volta a valer mesmo sob um armazém de vinho. E confirma que, quando um dos moradores do pátio comum quer abrir uma loja nova voltada para o próprio pátio, os demais moradores têm o direito de impedi-lo antecipadamente.
O perush de Rashi sobre a Guemará em Bava Batra 18a (sobre o estábulo de gado, num excurso da mishná seguinte) e 20b (sobre o vinho e o barulho das crianças).
Rashi define a "loja de padeiros" como o comércio de vendedores de pão que mantêm fogo aceso continuamente; o "armazém" (otzar) como o sótão onde se guardam grãos, azeite e vinho, produtos para os quais a fumaça é prejudicial; e explica que o estábulo de gado é proibido pelo mau cheiro, que também prejudica esses produtos armazenados.
A Guemará traz uma distinção importante que Rashi explica: uma habitação — como a loja ou o estábulo, que funcionam como o "lar" profissional de alguém — recebe tratamento mais brando; não se pode proibir a alguém viver ou trabalhar no seu próprio espaço a menos que o dano já esteja concretamente estabelecido, e não apenas temido.
Rashi confirma a leitura da mishná: para um armazém especificamente de vinho, permitiu-se abrir embaixo dele uma loja de padeiros ou tintureiros, porque a fumaça dessas atividades não prejudica o vinho — ao contrário do que ocorre com grãos, azeite ou o mau cheiro de um estábulo.
Rashi assinala que a Guemará considera, num primeiro momento, uma leitura diferente: que "o barulho das crianças" da mishná se referiria a crianças-clientes vindo comprar vinho, azeite e outros produtos vendidos numa loja comum — e não, como a explicação final estabelece, ao barulho das crianças que estudam Torá com um mestre.