Seder Nezikin · Massechet Bava Batra · Perek Bet · Mishná 1 de 14 — abrindo o perek

As distâncias mínimas do poço, da vala e da caverna

לֹא יַחְפֹּר אָדָם בּוֹר סָמוּךְ לְבוֹרוֹ שֶׁל חֲבֵרוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A primeira mishná do Perek Bet abre uma longa série de leis sobre distâncias mínimas obrigatórias entre instalações de um vizinho e a propriedade do outro, protegendo o muro comum e a estrutura do terreno contra danos de escavação, calor, umidade e vibração. A unidade de medida aqui é o tefach ("palmo", cerca de 8 cm), distinta das amot ("cúbitos") que dominam mishnayot posteriores do perek.

Não cavará um homem um poço próximo ao poço do seu companheiro, nem uma vala, nem uma caverna, nem um canal de água, nem um tanque de lavadeiras, a não ser que se afaste do muro do seu companheiro três palmos, e reboque com cal.A mishná abre com cinco tipos de escavação — poço redondo, vala comprida e estreita, caverna coberta, canal de irrigação e tanque onde lavadeiras deixam a água de molho — que enfraquecem o solo e ameaçam infiltrar água no muro que separa duas propriedades. A lei exige duas proteções cumulativas: afastar-se pelo menos três palmos do muro do vizinho, e revestir as paredes da escavação com cal, que veda a umidade e impede que ela penetre no muro alheio.

Afastam a borra de azeitona, o esterco, o sal, a cal e as pedras do muro do seu companheiro três palmos, e reboca com cal.Uma segunda lista trata não de escavações, mas de materiais empilhados junto ao muro comum: a borra de azeitona prensada, o esterco animal, o sal, a cal viva e certas pedras que geram calor — todos capazes de "amolecer" e corroer a argamassa do muro pelo calor ou pela umidade que produzem. A mesma dupla exigência se aplica: três palmos de distância, e revestimento de cal como proteção adicional.

Afastam as sementes, o arado e a urina do muro, três palmos.Sementes plantadas junto ao muro corroem o solo e o afofam com o tempo; o arado, mesmo sem sementeira — por exemplo, ao lavrar em torno de árvores —, revolve e enfraquece o mesmo solo; e a urina, ao molhar repetidamente tijolos de barro seco, os desfaz aos poucos. Todos exigem a mesma distância mínima de três palmos do muro.

E afastam o moinho três palmos da pedra inferior até o muro, o que equivale a quatro palmos a partir da pedra superior.O moinho manual de pedra, quando em funcionamento, sacode o chão com o giro e o impacto de suas pedras, transmitindo vibração ao muro vizinho. A pedra inferior, mais larga, deve ficar a três palmos do muro; como a pedra superior é um palmo mais estreita e fica centrada sobre a inferior, a distância medida a partir dela soma quatro palmos.

E o forno, três palmos a partir da base, o que equivale a quatro palmos a partir da borda superior.O forno de barro e pedra assenta sobre uma base mais larga que se afunila até uma borda superior mais estreita, do tamanho do próprio forno. Por causa do calor que exala e que pode danificar o muro, a base deve ficar a três palmos de distância; medida a partir da borda superior, mais recuada, a distância soma quatro palmos.

לֹא יַחְפֹּר אָדָם בּוֹר סָמוּךְ לְבוֹרוֹ שֶׁל חֲבֵרוֹ, וְלֹא שִׁיחַ, וְלֹא מְעָרָה, וְלֹא אַמַּת הַמַּיִם, וְלֹא נִבְרֶכֶת כּוֹבְסִין, אֶלָּא אִם כֵּן הִרְחִיק מִכֹּתֶל חֲבֵרוֹ שְׁלשָׁה טְפָחִים, וְסָד בְּסִיד. מַרְחִיקִין אֶת הַגֶּפֶת וְאֶת הַזֶּבֶל וְאֶת הַמֶּלַח וְאֶת הַסִּיד וְאֶת הַסְּלָעִים מִכָּתְלוֹ שֶׁל חֲבֵרוֹ שְׁלשָׁה טְפָחִים, וְסָד בְּסִיד. מַרְחִיקִין אֶת הַזְּרָעִים, וְאֶת הַמַּחֲרֵשָׁה, וְאֶת מֵי רַגְלַיִם מִן הַכֹּתֶל שְׁלשָׁה טְפָחִים. וּמַרְחִיקִין אֶת הָרֵחַיִם שְׁלשָׁה מִן הַשֶּׁכֶב, שֶׁהֵן אַרְבָּעָה מִן הָרָכֶב. וְאֶת הַתַּנוּר, שְׁלשָׁה מִן הַכִּלְיָא, שֶׁהֵן אַרְבָּעָה מִן הַשָּׂפָה:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica o raciocínio geral por trás da exigência de afastamento; Bartenura detalha cada termo técnico — do poço redondo ao forno de barro.

Rambam · Perush HaMishná, Bava Batra 2:1
נִבְרֶכֶת שֶׁל כּוֹבְסִין הַבְּרֵכָה שֶׁשּׁוֹרִין בָּהּ הַכּוֹבְסִין הַבְּגָדִים עִם הַדְּבָרִים הַמְלַבְּנִים אוֹתָם. וּמַה שֶּׁאָמַר מִכָּתְלוֹ, רְצוֹנוֹ לוֹמַר מִכֹּתֶל בּוֹרוֹ שֶׁל חֲבֵרוֹ, וְכֹתֶל הַבּוֹר אֵין פָּחוֹת מִשְּׁלֹשָׁה טְפָחִים, הֲרֵי נִתְבָּאֵר לְךָ שֶׁצָּרִיךְ לִהְיוֹת מֵחֲלַל בּוֹרוֹ שֶׁל זֶה לַחֲלַל בּוֹרוֹ שֶׁל חֲבֵרוֹ שִׁשָּׁה טְפָחִים.

Rambam esclarece que o "tanque de lavadeiras" é o reservatório onde se deixam roupas de molho junto com os produtos que as branqueiam, e que a expressão "do muro dele" refere-se ao muro do próprio poço do vizinho — que, tendo no mínimo três palmos de espessura, faz com que a distância real entre o vazio de um poço e o vazio do poço vizinho some, na prática, seis palmos: três palmos de afastamento mais a espessura do muro do poço alheio.

Bartenura · Bava Batra 2:1
שְׁלֹשָׁה מִן הַכִּלְיָא. בָּסִיס שֶׁבּוֹנִים מִטִּיט וַאֲבָנִים שֶׁמּוֹשִׁיבִים הַתַּנּוּר עָלָיו, וְהוּא רָחָב מִלְּמַטָּה וְצַר מִלְּמַעְלָה, וְשָׂפָה הָעֶלְיוֹנָה שֶׁל כִּלְיָא שֶׁעָלֶיהָ הַתַּנּוּר יוֹשֵׁב הִיא כְּמִדַּת הַתַּנּוּר. וְצָרִיךְ שֶׁיַּרְחִיק בָּסִיס זֶה מִן הַכֹּתֶל שְׁלֹשָׁה טְפָחִים מִתַּחְתִּיתוֹ, שֶׁהֵן אַרְבָּעָה מִשְּׂפָתוֹ הָעֶלְיוֹנָה, לְפִי שֶׁהֶבֶל הַתַּנּוּר מַזִּיק לַכֹּתֶל.

Sobre a medida do forno, Bartenura explica que a kilya é a base construída de barro e pedras sobre a qual o forno é assentado — larga embaixo e estreita em cima, de modo que sua borda superior tem exatamente o tamanho do próprio forno. É preciso afastar essa base do muro três palmos, medidos a partir de sua parte inferior mais larga, o que equivale a quatro palmos a partir de sua borda superior mais estreita — porque o calor exalado pelo forno prejudica o muro.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O perush de Rashi sobre a Guemará em Bava Batra 17a-b, onde esta mishná abre o segundo perek do tratado.

Rashi · רש״י
Bava Batra 17a, s.v. בור שיח ומערה
בּוֹר שִׁיחַ וּמְעָרָה — מְפֹרָשִׁים בְּבָבָא קַמָּא בְּפֶרֶק שׁוֹר שֶׁנָּגַח אֶת הַפָּרָה (דַּף כ׳).

Rashi remete à explicação já dada em Bava Kamma, no perek "Shor shenagach et haphará" (BK 20a-b), onde os mesmos termos técnicos — bor (poço), shiach (vala) e me'ará (caverna) — já foram detalhados no contexto de outra halachá, e a mishná aqui pressupõe essa familiaridade.

Bava Batra 17a, s.v. בור / שיח
בּוֹר — עָגֹל: שִׁיחַ — אָרֹךְ וְקָצָר:

Rashi distingue os dois primeiros termos pela forma: o bor é uma escavação redonda, enquanto o shiach é comprido e estreito — uma vala alongada, e não um poço circular.

Bava Batra 17a, s.v. נברכת הכובסים
נִבְרֶכֶת הַכּוֹבְסִים — חוֹפֵר חֲפִירָה מְרֻבַּעַת בְּעֹמֶק אַמָּה אוֹ יוֹתֵר וּמֵי גְשָׁמִים מִתְכַּנְּסִים בָּהּ לְכַבֵּס בִּגְדֵיהֶם, וְהָיוּ לָהֶם שְׁתַּיִם, אַחַת שֶׁשּׁוֹרִים אֶת הַבְּגָדִים יוֹם אוֹ יוֹמַיִם בְּצוֹאַת כְּלָבִים.

Rashi descreve em detalhe o tanque de lavadeiras: uma escavação quadrada com pelo menos um cúbito de profundidade, onde se acumula água da chuva para lavar roupas; explica ainda que as lavadeiras costumavam usar dois tanques — um deles reservado para deixar as roupas de molho, por um ou dois dias, numa mistura que incluía excremento de cães, usado como agente de limpeza na época.

Bava Batra 17a, s.v. אלא אם כן כו׳ / מן הכותל
אֶלָּא אִם כֵּן כוּ׳ — מִפְּנֵי שֶׁהַחֲפִירָה הַסְּמוּכָה לַבּוֹר מַחְלֶשֶׁת כָּתְלֵי הַבּוֹר וּמְרַפָּה אוֹתָן: מִן הַכֹּתֶל — כֹּתֶל לְבֵנִים שֶׁל טִיט הַבָּנוּי עַל גַּבֵּי קַרְקַע, וְלָאו בְּבוֹר קָאֵי הַשְׁתָּא.

Rashi explica o motivo da exigência: uma escavação próxima demais a um poço já existente enfraquece e amolece as paredes desse poço vizinho. E esclarece que, a partir daqui, a mishná passa a falar de um muro comum de tijolos de barro construído sobre a terra — não mais do muro que reveste um poço, tema da primeira frase.