Rambam recorda que já explicara, na introdução geral de sua obra, a natureza dessa cadeia de recepção, e que sua intenção neste tratado é apenas expor as palavras dos piedosos e moralistas, para estimular a aquisição de alguns dos traços de caráter cujo proveito é maior — detendo-se aqui, em especial, em advertir contra certas fraquezas de grande dano. Sobre "sede ponderados no juízo", explica que os juízes devem retardar a decisão e não concluí-la apressadamente, até compreendê-la por completo, pois é possível que se revelem, com o tempo, aspectos que não eram evidentes no primeiro momento da reflexão. Sobre "fazei uma cerca para a Torá", esclarece que se trata dos decretos e das instituições que afastam o homem da transgressão, conforme o versículo "e guardareis Minha guarda" (Vaicrá), interpretado como "fazei uma guarda para Minha guarda".
Bartenura observa que este tratado é diferente de todos os demais da Mishná, que se fundam na exposição de um preceito específico da Torá: Avot é composto inteiramente de ética e de caráter (musar e midot), e mesmo os sábios das nações também compuseram livros de ética inventados por seu próprio coração, sobre como o homem deve se conduzir com seu semelhante. Por isso o Tanna abre este tratado com "Moshé recebeu a Torá do Sinai" — para ensinar que as normas de caráter e os ensinamentos éticos contidos nele não foram inventados pelos sábios da Mishná por conta própria, mas também foram ditos no Sinai. Explica "do Sinai" como "daquele que se revelou no Sinai"; "aos anciãos" como os que prolongaram seus dias depois de Josué, e estes a outros anciãos, até alcançar o início dos profetas, que são Eli, o sacerdote, e Shmuel, o de Ramá; e "aos homens da Grande Assembleia" como cento e vinte anciãos — Zerubavel, Serayá, Reelaiá, Mordechai Bilshan, nos dias de Ezra, quando subiram do exílio no tempo do Segundo Templo, entre os quais Chagai, Zecharia, Malachi, Nechemia ben Chachalia e seus companheiros, chamados "Grande Assembleia" por terem devolvido a coroa ao seu antigo lugar (Yomá 69b). Sobre "eles disseram três coisas", nota que muitas coisas disseram, mas estas três continham em si a preservação de toda a Torá; sobre "sede ponderados no juízo", explica que, mesmo que um mesmo caso já tenha chegado ao juiz duas ou três vezes, ele não deve dizer "este julgamento já veio antes de mim e eu já o repeti", mas deve ser ponderado, isto é, aguardar antes de concluir o julgamento. Sobre "levantai muitos discípulos", esclarece que isso exclui a posição de Rabban Gamliel (Berachot 28a), segundo a qual nem todo discípulo cujo interior corresponde ao exterior deveria entrar na casa de estudo — ensinando, ao contrário, que se ensina Torá a toda pessoa sem investigação prévia, desde que não seja conhecida por atos corrompidos e má fama; ou, alternativamente (Yevamot 62b), que quem formou discípulos em sua juventude deve formá-los também em sua velhice, como está escrito "pela manhã semeia tua semente, e à tarde não retires tua mão" (Kohélet 11). Por fim, "fazei uma cerca para a Torá" é a barreira que evita que se chegue a tocar numa proibição da própria Torá, como as relações proibidas por extensão rabínica (sheniyot laarayot) e as restrições de Shabat (shvut), conforme "guardareis Minha guarda" — fazei uma guarda para Minha guarda.
Rashi explica por que a Torá foi transmitida a Josué e não a Elazar, a Pinchas ou aos setenta anciãos que profetizavam no acampamento: Moshé quis entregá-la apenas a quem se consagrara desde a juventude nas tendas da sabedoria e adquirira bom nome no mundo — e este era Josué, do qual se diz que, jovem, "não se apartava do meio da tenda". Sobre "e Josué aos anciãos", esclarece que não se trata dos setenta anciãos do tempo de Moshé, mas dos anciãos que lideraram e governaram Israel depois de Josué, "todos os dias de Josué e todos os dias dos anciãos que prolongaram seus dias depois de Josué" — e estes anciãos a transmitiram a outros anciãos em cada geração, como a Otniel, e Otniel a Eud, e assim os demais juízes, até chegar à profecia de Eli, o sacerdote, e de Shmuel, o de Ramá. Sobre "os profetas a transmitiram aos homens da Grande Assembleia", identifica-os como Zerubavel, Nechemia, Serayá, Reelaiá e Mordechai Bilshan, que viveram nos dias de Ezra, na construção do Segundo Templo — chamados "Grande Assembleia" porque, como se explica no tratado Yomá, devolveram a coroa ao seu antigo lugar: Moshé havia dito "o Deus grande, poderoso e temível", mas Yirmiyahu e Daniel, ao viver a opressão dos exílios, deixaram de dizer "poderoso e temível"; foram os homens da Grande Assembleia que restauraram essa fórmula, explicando que exatamente ali residia Sua força — pois só um poder assim permite que uma nação única subsista entre tantas outras nações. Por fim, sobre "sede ponderados no juízo", explica que a expressão indica demora deliberada: não concluir o julgamento apressadamente, mas investigá-lo em profundidade, pois o juízo sustenta o próprio mundo; e sobre "levantai muitos discípulos", ensina que, se alguém formou discípulos em sua juventude, deve formar discípulos também em sua velhice, pois não se sabe qual deles há de prosperar mais que o outro; e "fazei uma cerca para a Torá" significa erguer resguardos em torno de seus preceitos, para que não se chegue à transgressão da própria Torá.