Seder Nezikin · Massechet Avodá Zará · Perek Dalet · Mishná 10 de 12

O gentio junto ao poço de vinho

גּוֹי שֶׁנִּמְצָא עוֹמֵד בְּצַד הַבּוֹר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Examina o caso de um gentio encontrado junto ao poço de coleta do vinho, estabelecendo quando se presume que ele tocou o vinho, e lista uma série de precedentes de contato involuntário ou indireto que não invalidam o vinho para consumo.

Um gentio encontrado de pé ao lado do poço de vinho — se tem sobre ele um empréstimo, é proibido; se não tem sobre ele um empréstimo, é permitido. Caiu no poço e subiu, ou o mediu com uma cana, ou espantou a vespa com a cana, ou estava batendo com a mão na boca de um barril fervente — em todos estes casos houve um precedente, e disseram: será vendido. Mas Rabi Shimon permite. Tomou o barril e o lançou, em sua ira, ao poço — este foi um precedente, e o declararam apto.

גּוֹי שֶׁנִּמְצָא עוֹמֵד בְּצַד הַבּוֹר שֶׁל יַיִן, אִם יֶשׁ לוֹ עָלָיו מִלְוָה, אָסוּר. אֵין לוֹ עָלָיו מִלְוָה, מֻתָּר. נָפַל לַבּוֹר וְעָלָה, וּמְדָדוֹ בַקָּנֶה, הִתִּיז אֶת הַצִּרְעָה בַקָּנֶה אוֹ שֶׁהָיָה מְטַפֵּחַ עַל פִּי חָבִית מְרֻתַּחַת, בְּכָל אֵלּוּ הָיָה מַעֲשֶׂה, וְאָמְרוּ יִמָּכֵר. וְרַבִּי שִׁמְעוֹן מַתִּיר. נָטַל אֶת הֶחָבִית וּזְרָקָהּ בַּחֲמָתוֹ לַבּוֹר, זֶה הָיָה מַעֲשֶׂה וְהִכְשִׁירוּ:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Avodá Zará 4:10
עוֹבֵד כּוֹכָבִים שֶׁנִּמְצָא עוֹמֵד בְּצַד הַבּוֹר וְכוּ׳: יֶשׁ לוֹ עָלָיו מִלְוָה, כְּלוֹמַר עַל אוֹתוֹ יַיִן. וְאָמַר נָפַל לַבּוֹר וְעָלָה, כְּשֶׁעָלָה וְהוּא מֵת; אֲבָל כְּשֶׁעָלָה חַי, אָסוּר בַּהֲנָאָה, לְפִי שֶׁהוּא מְשַׁבֵּחַ לַעֲבוֹדַת כּוֹכָבִים עַל שֶׁנִּיצַּל. וְרַבִּי שִׁמְעוֹן מַתִּיר בִּשְׁתִיָּה, וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן.

Rambam esclarece que "tem sobre ele um empréstimo" refere-se a um empréstimo que recai especificamente sobre aquele vinho, e não a uma dívida qualquer entre as partes — pois, quando o vinho lhe serve de garantia, o gentio já o considera como próprio, e é natural que estenda a mão para examiná-lo. Sobre "caiu no poço e subiu", esclarece que o caso se refere a quando sobe morto; mas se sobe vivo, o vinho fica proibido para benefício, pois se presume que o gentio louva seu ídolo por ter sido salvo. E Rabi Shimon permite até para beber, mas a halachá não segue Rabi Shimon.

Bartenura · Avodá Zará 4:10
אִם יֶשׁ לוֹ עָלָיו מִלְוָה אָסוּר. אִם יֵשׁ לוֹ עַל הַיַּיִן מִלְוָה, שֶׁזֶּה הַיַּיִן מְשֻׁעְבָּד לוֹ בְחוֹבוֹ, אָז הוּא כְמָמוֹנוֹ: נָפַל. הַנָּכְרִי לְבוֹר מָלֵא יַיִן: וְעָלָה. מֵת, אֵינוֹ אָסוּר בַּהֲנָאָה, הוֹאִיל וְלֹא נִתְכַּוֵּן לִגַּע. אֲבָל עָלָה חַי, בַּעֲלִיָּתוֹ אוֹסְרוֹ, מִשּׁוּם דְּמוֹדֶה לַעֲבוֹדָה זָרָה עַל שֶׁנִּצּוֹל: וְהַמְּרֻתַּחַת. שֶׁהָיְתָה הֶחָבִית מַעֲלָה רְתִיחוֹת, אֵין דֶּרֶךְ נִסּוּךְ בְּכָךְ: וְרַבִּי שִׁמְעוֹן מַתִּיר. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן: זֶה הָיָה מַעֲשֶׂה וְהִכְשִׁירוּ. אַף בִּשְׁתִיָּה.

Bartenura confirma que "tem sobre ele um empréstimo" significa que a dívida recai especificamente sobre aquele vinho, que fica assim penhorado ao gentio, que passa a tratá-lo como bem próprio. "Caiu" refere-se ao gentio que caiu num poço cheio de vinho, e "subiu" morto — sem que o vinho fique proibido, pois não teve intenção de tocá-lo. Mas se subiu vivo, sua própria ascensão torna o vinho proibido, pois presume-se que agradece ao ídolo por ter sido salvo. Sobre o barril "fervente", que estava efervescendo, explica que não há nisso um modo usual de libação. Conclui que Rabi Shimon permite, mas a halachá não o segue; e que, no caso final, o vinho foi declarado apto até mesmo para beber.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Avodá Zará 60b (Guemará sobre esta mishná)
מַתְנִי׳ אִם יֵשׁ לוֹ עָלָיו מִלְוָה — עַל יִשְׂרָאֵל אָסוּר, לְפִי שֶׁלֹּא יָרֵא לִגַּע, דְּסָבַר אִי אָמַר לִי מִידֵּי אֲמֵינָא לֵיהּ תְּנֵיהוּ לִי בְּחוֹבִי: נָפַל — הָעוֹבֵד כּוֹכָבִים בְּבוֹר מָלֵא יַיִן, אַף עַל גַּב דְּנָגַע בְּשָׁעָה שֶׁנָּפַל אֵינוֹ אָסוּר בַּהֲנָאָה הוֹאִיל וְשֶׁלֹּא בְּכַוָּנָה הָיְתָה: מְדָדוֹ בַקָּנֶה — אַף עַל גַּב דְּנִתְכַּוֵּן, הוֹאִיל וּלְדָבָר אַחֵר נִתְכַּוֵּן, וְהָא נְגִיעָה לָאו מַמָּשׁ הִיא אֶלָּא עַל יְדֵי הַקָּנֶה: הַמְּרֻתַּחַת — שֶׁהָיְתָה מַחְמֶצֶת וּמַעֲלָה רְתִיחוֹת, וְטִפֵּחַ בְּיָדוֹ מַמָּשׁ עַל הָרְתִיחוֹת, אֵין דֶּרֶךְ נִסּוּךְ בְּכָךְ וּמֻתָּר בַּהֲנָאָה: זֶה הָיָה מַעֲשֶׂה — וְהִכְשִׁירוּהוּ אַף בִּשְׁתִיָּה:

Rashi explica que "tem sobre ele um empréstimo" significa que o dono do vinho lhe deve dinheiro — e por isso o gentio não teme tocá-lo, pois raciocina: "se ele reclamar algo, direi que o tome como pagamento da minha dívida". "Caiu" refere-se ao gentio que caiu num poço cheio de vinho; ainda que o tenha tocado no momento da queda, o vinho não é proibido, pois o contato não foi intencional. "Mediu-o com uma cana" — mesmo tendo agido com intenção, sua intenção era outra [medir a quantidade], e o contato não foi direto com as mãos, mas por meio da cana. Sobre o barril "fervente", explica que estava em fermentação, com espuma subindo, e o gentio bateu com a própria mão sobre essa espuma — não havendo nisso um modo usual de fazer libação, o vinho permanece permitido para benefício. E "isto foi um precedente" — os sábios o declararam apto até mesmo para beber.