Mas nos sacrifícios não é assim: eis que alguém disse, o sacrifício deste leproso está sobre mim — se o leproso era pobre, traz sacrifício de pobre; se era rico, traz sacrifício de rico. Rabi diz: eu digo que também nos valores fixos é assim. E por que motivo o pobre que avaliou o rico dá o valor de pobre? Porque o rico nada deve. Mas o rico que disse, meu valor está sobre mim, e o pobre ouviu e disse, o que este disse está sobre mim, dá o valor de rico. Se era pobre e enriqueceu, ou rico e empobreceu, dá o valor de rico. Rabi Yehuda diz: mesmo que era pobre e enriqueceu e voltou a empobrecer, dá o valor de rico.
— Esta mishná contrasta o princípio recém-estabelecido dos valores fixos com a lei dos sacrifícios do leproso. Quando alguém assume sobre si o dever de trazer o sacrifício de um leproso determinado, a natureza pobre ou rica desse sacrifício é definida pela condição econômica do próprio leproso — não pela de quem assumiu o compromisso. Rabi discorda da distinção implícita entre os dois casos e sustenta que a mesma lógica dos sacrifícios deveria valer também para os valores fixos: a razão pela qual o pobre que avaliou o rico paga apenas como pobre não é que sempre sigamos quem vota, mas sim que, nesse caso específico, o rico avaliado nada deve — pois foi o pobre, e não ele, quem fez o voto. Já quando um rico assume sobre si seu próprio valor integral, e um pobre depois adere a essa mesma obrigação dizendo “o que ele disse está sobre mim”, o pobre acaba pagando o valor completo do rico, pois herdou uma dívida que já estava definida como plena. A mishná acrescenta o caso de quem muda de condição econômica entre o momento do voto e o momento do pagamento: em ambas as direções — de pobre para rico, ou de rico para pobre —, prevalece sempre a condição mais favorável ao Templo, isto é, paga-se o valor de rico. Rabi Yehuda vai ainda mais longe: mesmo que a pessoa tenha passado por três mudanças de condição — pobre, depois rica, depois pobre novamente —, ainda assim deve pagar como rico, bastando que tenha sido rica em algum momento entre o voto e o pagamento.
Rambam esclarece que a disputa entre Rabi e os sábios não é sobre a existência de uma diferença entre valores fixos e sacrifícios, mas sobre como situar corretamente a semelhança entre eles. Explica também a opinião de Rabi Yehuda: quem se avaliou sendo pobre, depois enriqueceu e depois voltou a empobrecer, ainda assim paga o valor de rico, pois já se tornou obrigado no valor em algum momento, e naquele momento era rico — trazendo prova do versículo “e se ele for pobre demais para o valor”, que exige que a pessoa permaneça pobre do início ao fim. Os sábios, porém, sustentam que, sendo pobre na hora de pagar, ainda que tenha sido rica no momento da avaliação, paga como pobre — e a lei segue os sábios.
Bartenura explica a lógica de Rabi: se a lei dos valores fixos fosse igual à dos sacrifícios do leproso, o pobre que avaliou um rico deveria pagar o valor completo do rico, já que este é quem está sendo avaliado. Mas, na realidade, os dois casos não são semelhantes: o pobre que avaliou o rico paga conforme sua própria capacidade justamente porque o rico nada deve — foi o pobre quem fez o voto, e sua menção ao rico serviu apenas para indicar a faixa etária da soma, não para transferir a obrigação para a riqueza dele. Já o rico que assume seu próprio valor completo, e cujo compromisso é depois adotado por um pobre, obriga este último a pagar o valor pleno, pois herdou uma dívida já definida como de rico. Sobre a mudança de condição: tanto quem era pobre e enriqueceu quanto quem era rico e empobreceu antes de pagar, pagam o valor de rico, pois em algum momento — seja no voto, seja depois — sua mão alcançava essa soma. E, quanto à opinião de Rabi Yehuda, Bartenura observa que a lei não segue essa posição.
Rashi explica a lógica de Rabi: se a comparação entre valores fixos e sacrifícios fosse plena, os valores fixos deveriam seguir a mesma regra dos sacrifícios do leproso. A razão pela qual valores fixos e sacrifícios não são idênticos é que o pobre que avaliou um rico paga conforme sua própria capacidade justamente porque o rico avaliado nada deve. Já o rico que assume sobre si seu valor completo — de maneira semelhante ao sacrifício de um leproso rico —, e cujo compromisso é depois adotado por um pobre que ouviu suas palavras, obriga este a pagar o valor pleno. E sobre o caso de mudança de condição, Rashi confirma que tanto quem era pobre e enriqueceu quanto quem era rico e empobreceu, desde que a mudança tenha ocorrido antes do pagamento, paga o valor de rico.