Há em avaliações o que é para leniência e o que é para rigor; em campo de herança há o que é para leniência e o que é para rigor; em boi advertido que matou o escravo há o que é para leniência e o que é para rigor; no estuprador, no sedutor e no difamador há o que é para leniência e o que é para rigor. Há em avaliações o que é para leniência e o que é para rigor: como assim? Tanto aquele que avaliou o mais belo entre Israel quanto o mais feio entre Israel dá cinquenta selá. E se disse: eis que seu preço está sobre mim, dá o seu valor.
— Esta mishná abre o Perek Guimel enunciando o princípio que governará todo o capítulo: em quatro institutos jurídicos distintos — as avaliações votivas (arachin), o campo de herança consagrado, o boi advertido que matou um escravo, e as multas do estuprador, do sedutor e do difamador — a Torá fixou somas fixas que ora favorecem quem paga (leniência), ora o oneram (rigor), independentemente do valor real da pessoa ou do bem envolvido. A mishná então detalha o primeiro caso: quem faz um voto de avaliação (erech) sobre a pessoa mais bela de Israel, cujo valor de mercado como escravo seria altíssimo, paga apenas os cinquenta selá fixos da Torá — e nisso há leniência. Mas quem avalia a pessoa mais feia, cujo valor de mercado seria mínimo, ainda assim deve pagar os mesmos cinquenta selá — e nisso há rigor. A soma é sempre a mesma, fixada pela idade (de vinte a sessenta anos) e não pelo valor individual. Já quem, em vez de fazer um voto de avaliação, disser explicitamente “o preço dele está sobre mim” — isto é, comprometer-se a doar o valor de venda de determinada pessoa como se fosse vendida como escrava — paga o valor de mercado real dessa pessoa, que pode ser maior ou menor que cinquenta selá.
Rambam explica que o sentido de “leniência e rigor” em todos estes casos é que, por vezes, uma pessoa acaba pagando mais ou menos do que pagaria se o pagamento fosse calculado conforme o valor real da coisa ou da pessoa envolvida no voto ou na ação. Mas, na realidade, a Torá fixou essas somas de modo absoluto, sem depender de avaliação individual. Assim, tanto o mais feio quanto o mais belo têm sua avaliação voltada ao valor máximo estabelecido — por isso a Torá determinou cinquenta selá para ambos.
Bartenura observa que a mishná apenas anuncia, nesta abertura, os quatro casos gerais de leniência e rigor, e passará a explicá-los um a um ao longo do capítulo. Sobre “o mais belo entre Israel”, esclarece: mesmo que valesse cem manê no mercado de escravos, não se paga senão cinquenta selá — e isso é a leniência. E o rigor está em que aquele que avalia o mais feio entre Israel, ainda que este não valha senão cinco selá, paga cinquenta selá, desde que o avaliado tenha entre vinte e sessenta anos.
Rashi comenta a lista de casos enunciada no início da mishná, explicando concretamente o que significa “rigor”: quem avalia o mais feio de Israel, ainda que este não valha, no mercado, mais do que cinco selá, deve pagar cinquenta selá, desde que tenha entre vinte e sessenta anos. E identifica o segundo caso mencionado na lista — “campo de herança” — como se referindo a quem consagra um campo herdado de seus antepassados, tema que a mishná desenvolverá em seguida.