Seder Kodashim · Massechet Arachin · Perek Guimel · Mishná 1 de 5

Há em arachin o que é para leniência e o que é para rigor

יֵשׁ בָּעֲרָכִין לְהָקֵל וּלְהַחֲמִיר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O princípio geral das quatro áreas com leniência e rigor, e o caso da avaliação do mais belo e do mais feio de Israel

Há em avaliações o que é para leniência e o que é para rigor; em campo de herança há o que é para leniência e o que é para rigor; em boi advertido que matou o escravo há o que é para leniência e o que é para rigor; no estuprador, no sedutor e no difamador há o que é para leniência e o que é para rigor. Há em avaliações o que é para leniência e o que é para rigor: como assim? Tanto aquele que avaliou o mais belo entre Israel quanto o mais feio entre Israel dá cinquenta selá. E se disse: eis que seu preço está sobre mim, dá o seu valor.

— Esta mishná abre o Perek Guimel enunciando o princípio que governará todo o capítulo: em quatro institutos jurídicos distintos — as avaliações votivas (arachin), o campo de herança consagrado, o boi advertido que matou um escravo, e as multas do estuprador, do sedutor e do difamador — a Torá fixou somas fixas que ora favorecem quem paga (leniência), ora o oneram (rigor), independentemente do valor real da pessoa ou do bem envolvido. A mishná então detalha o primeiro caso: quem faz um voto de avaliação (erech) sobre a pessoa mais bela de Israel, cujo valor de mercado como escravo seria altíssimo, paga apenas os cinquenta selá fixos da Torá — e nisso há leniência. Mas quem avalia a pessoa mais feia, cujo valor de mercado seria mínimo, ainda assim deve pagar os mesmos cinquenta selá — e nisso há rigor. A soma é sempre a mesma, fixada pela idade (de vinte a sessenta anos) e não pelo valor individual. Já quem, em vez de fazer um voto de avaliação, disser explicitamente “o preço dele está sobre mim” — isto é, comprometer-se a doar o valor de venda de determinada pessoa como se fosse vendida como escrava — paga o valor de mercado real dessa pessoa, que pode ser maior ou menor que cinquenta selá.

יֵשׁ בָּעֲרָכִין לְהָקֵל וּלְהַחֲמִיר, בִּשְׂדֵה אֲחֻזָּה לְהָקֵל וּלְהַחֲמִיר, בְּשׁוֹר הַמּוּעָד שֶׁהֵמִית אֶת הָעֶבֶד לְהָקֵל וּלְהַחֲמִיר, בָּאוֹנֵס וּבַמְּפַתֶּה וּבַמּוֹצִיא שֵׁם רָע לְהָקֵל וּלְהַחֲמִיר. יֵשׁ בָּעֲרָכִין לְהָקֵל וּלְהַחֲמִיר. כֵּיצַד. אֶחָד שֶׁהֶעֱרִיךְ אֶת הַנָּאֶה שֶׁבְּיִשְׂרָאֵל וְאֶת הַכָּעוּר שֶׁבְּיִשְׂרָאֵל, נוֹתֵן חֲמִשִּׁים סָלַע. וְאִם אָמַר הֲרֵי דָמָיו עָלָי, נוֹתֵן אֶת שָׁוְיוֹ:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Vayikra 27:3
וְהָיָ֤ה עֶרְכְּךָ֙ הַזָּכָ֔ר מִבֶּן֙ עֶשְׂרִ֣ים שָׁנָ֔ה וְעַ֖ד בֶּן־שִׁשִּׁ֣ים שָׁנָ֑ה וְהָיָ֣ה עֶרְכְּךָ֗ חֲמִשִּׁ֛ים שֶׁ֥קֶל כֶּ֖סֶף בְּשֶׁ֥קֶל הַקֹּֽדֶשׁ׃
“E será a tua avaliação do homem, de vinte anos até sessenta anos: será a tua avaliação de cinquenta siclos de prata, pelo siclo do santuário.”
Este versículo é a fonte direta do princípio de nossa mishná: a Torá fixa uma soma única — cinquenta siclos — para todo homem entre vinte e sessenta anos que seja objeto de um voto de avaliação, sem levar em conta seu valor pessoal real, seja ele o escravo mais valioso ou o mais desprezado do mercado.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Arachin 3:1
יש בערכין להקל ולהחמיר בשדה אחוזה כו': ענין להקל ולהחמיר בכאן הוא שלפעמים נותן אדם יותר ממה שהוא חייב או פחות אילו היה מסתכל לערך הדבר שנדר בו על עצמו או לערך המעשה שעשה אבל ענינים הם שפסקה בהן התורה ואינו מסור לערך. וכעור ידוע והיא הכעור בצורתו ונאה הנאה בצורתו ונתכוון אל הגדול שבערכין ולפיכך אמר רחמנא חמשים סלע:

Rambam explica que o sentido de “leniência e rigor” em todos estes casos é que, por vezes, uma pessoa acaba pagando mais ou menos do que pagaria se o pagamento fosse calculado conforme o valor real da coisa ou da pessoa envolvida no voto ou na ação. Mas, na realidade, a Torá fixou essas somas de modo absoluto, sem depender de avaliação individual. Assim, tanto o mais feio quanto o mais belo têm sua avaliação voltada ao valor máximo estabelecido — por isso a Torá determinou cinquenta selá para ambos.

Bartenura · Arachin 3:1
יֵשׁ בַּעֲרָכִין לְהָקֵל וּלְהַחֲמִיר וְכוּ'. כֻּלְּהוּ מְפָרֵשׁ לְהוּ וְאָזֵיל לְקַמָּן בְּפִרְקִין: אֶת הַנָּאֶה שֶׁבְּיִשְׂרָאֵל. אֲפִלּוּ שָׁוֶה מֵאָה מָנֶה אֵינוֹ נוֹתֵן אֶלָּא חֲמִשִּׁים סֶלַע, וְהַיְנוּ לְהָקֵל. וּלְהַחֲמִיר, שֶׁהַמַּעֲרִיךְ אֶת הַכָּעוּר שֶׁבְּיִשְׂרָאֵל אֲפִלּוּ אֵין שָׁוֶה אֶלָּא חָמֵשׁ סְלָעִים, נוֹתֵן חֲמִשִּׁים סְלָעִים אִם הַנֶּעֱרָךְ מִבֶּן עֶשְׂרִים וְעַד בֶּן שִׁשִּׁים:

Bartenura observa que a mishná apenas anuncia, nesta abertura, os quatro casos gerais de leniência e rigor, e passará a explicá-los um a um ao longo do capítulo. Sobre “o mais belo entre Israel”, esclarece: mesmo que valesse cem manê no mercado de escravos, não se paga senão cinquenta selá — e isso é a leniência. E o rigor está em que aquele que avalia o mais feio entre Israel, ainda que este não valha senão cinco selá, paga cinquenta selá, desde que o avaliado tenha entre vinte e sessenta anos.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Arachin 13b, sobre a Guemará desta mishná
מתני' להקל: להחמיר — שהמעריך הכעור שבישראל אפי' אינו שוה אלא ה' סלעים נותן נ' סלעים מן עשרים עד בן ס': בשדה אחוזה — במקדיש שדה אחוזה:

Rashi comenta a lista de casos enunciada no início da mishná, explicando concretamente o que significa “rigor”: quem avalia o mais feio de Israel, ainda que este não valha, no mercado, mais do que cinco selá, deve pagar cinquenta selá, desde que tenha entre vinte e sessenta anos. E identifica o segundo caso mencionado na lista — “campo de herança” — como se referindo a quem consagra um campo herdado de seus antepassados, tema que a mishná desenvolverá em seguida.