Kedushat Levi · Volume V · Parashá 1

Devarim

דְּבָרִים
Rabi Levi Yitzchak de Berditchev (1740–1809) · hebraico de domínio público · tradução original PT-BR

Cinco parágrafos sobre a abertura do discurso de despedida de Moshé: o sentido oculto de "na planície, defronte a Suf", onde cada nome esconde uma alusão à vida voltada para a Shechiná; o segredo das dez sefirot e dos onze dias desde Chorev, e como Israel eleva o lado outro até a santidade; por que a Torá se veste em narrativas de acontecimentos para as gerações imersas na impureza, mas fala sem véus à geração que entrou na Terra Santa; a explicação da Torá em setenta línguas em terra de Moav, como sustento de Israel no exílio; e o juiz messiânico que julgará por intuição, sem precisar ouvir os litigantes.

Parágrafo 1

"Estas são as palavras que Moshé falou etc.: no deserto, na planície, defronte a Suf, entre Parã e Tofel" (Devarim 1:1). Parece correto interpretar que arabá (planície) é da mesma raiz de érev (tarde). E eis que, na criação do mundo, a tarde precede a manhã, como dizemos no início do tratado Berachot. Sendo assim, o início dos dias do homem se chama "tarde". Por isso disse: "na planície, defronte a Suf" — isto é, no início dos seus anos, o homem deve ter, desde logo, todos os seus atos voltados para a Shechiná, que se chama "Suf" (fim), como é sabido. "Entre Parã" — como expuseram nossos sábios, de abençoada memória: chama-se Parã porque dali sai a fecundidade e a multiplicação (pariá u-rviá). "E entre Tofel" — como explicou Rashi, linguagem de fala (dibur); isto é, que tanto na aliança do órgão quanto na aliança da língua, tudo esteja voltado para o "Suf", em santidade e guarda excelente.

אלה הדברים אשר דבר משה וכו'. במדבר בערבה מול סוף בין פארן ובין תופל (דברים א, א). נראה לפרש שערבה הוא לשון ערב. והנה בברייתו של עולם ערב קודם לבוקר כדאמרינן בריש ברכות. ואם כן תחלת ימי האדם נקראים ערב. לזה אמר בערבה מול סוף, דהיינו בהתחלת שנותיו של אדם תיכף יהיו כל מעשיו מול השכינה שנקראת סוף כידוע. בין פארן, כמו שדרשו רבותינו ז"ל שנקרא פארן שמשם יוצא פריה ורביה. ובין תופל, כמו שפירש רש"י לשון דיבור, והיינו שבין ברית המעור ובין ברית הלשון הכל יהיה מול סוף בקדושה ושמירה מעולה:
Parágrafo 2

"Onze dias desde Chorev, pelo caminho do Monte Seir, etc." (Bemidbar 1:2). Isso se explica com base no versículo (Bemidbar 4:16): "o óleo e o incenso etc." A regra é que na santidade há dez sefirot, e diz-se "isto correspondente àquilo". Porém, na santidade, por assim dizer, Ele e Seu Nome são um só, e por isso são dez e não onze; mas no sitrá achrá (lado outro) etc., ainda assim, não há lugar vazio dEle, e é necessária a vitalidade da santidade — como a ponta de uma agulha — e ali se chama "onze"; e correspondentes a eles há onze especiarias do incenso, para elevar do sitrá achrá a sua vitalidade até a santidade, e com isso automaticamente se anula o sitrá achrá. E isto é o que disse Moshé Rabênu, que a paz esteja sobre ele, a Israel: "onze dias desde Chorev" — pois o sitrá achrá se chama "Chorev"; isto é, por meio de Israel eleva-se tudo até a santidade. E isto é "onze dias desde Chorev, pelo caminho do Monte Seir" — pois o instinto do mal se chama "monte" e se chama "Seir", conforme disseram nossos sábios, de abençoada memória (Sucá 52): aos justos, ele lhes parece como um monte; aos ímpios, como um fio de cabelo. E isto é "pelo caminho do Monte Seir" — isto é, elevar o desejo do instinto do mal até "Cadesh", até a santidade.

אחד עשר יום מחורב דרך הר שעיר כו' (במדבר א, ב). ויבואר על פי פסוק (במדבר ד, טז) שמן וקטורת כו', הכלל יש בקדושה עשר ספירות ונאמר זה לעומת כו'. רק שבקדושה כביכול הוא וגרמיה חד הוא וזהו עשר ולא אחד עשר, אבל בסטרא אחרא כו', אף על פי כן לית אתר פנוי מיניה וצריך החיות מקדושה כחודה של מחט ושם נקרא אחד עשר וכנגדן אחד עשר סימני קטורת להעלות הסטרא אחרא החיות שלה אל הקדושה ובזה ממילא בטל הסטרא אחרא. וזהו שאמר משה רבינו עליו השלום לישראל י"א יום מחורב, כי הסטרא אחרא נקרא חורב, כלומר על ידי ישראל מעלים הכל אל הקדושה. וזהו אחד עשר יום מחורב דרך הר שעיר, כי היצר הרע נקרא הר ונקרא שעיר כמאמר חכמינו ז"ל (סוכה נב) צדיקים נדמה להם כהר רשעים נדמה להם כשער. וזהו דרך הר שעיר, כלומר להעלות תאות היצר הרע עד קדש עד הקדושה:
Parágrafo 3

"Moshé falou aos filhos de Israel conforme tudo o que o Eterno lhe ordenara para eles" (Devarim 1:1). Isso se explica com base no que está escrito no santo Zohar sobre a Mishná: "toda coisa que estava incluída na regra geral e dela saiu, etc." A regra geral é que a sagrada Torá possui em si uma interioridade de segredos ocultos; e o fato de a Torá ter sido dita em narrativas de acontecimentos — o episódio de Avraham, o episódio de Yitzchak, o episódio de Yaakov com Lavan, o episódio das Matriarcas, o episódio de Bilam e sua jumenta — na verdade, há neles segredos ocultos e interiores, porém, do próprio corpo da Torá que se explica no relato, também se aprendem dele boas qualidades: assim, do episódio de Avraham, aprende-se a praticar bondade como Avraham; do episódio de Yaakov, mostra-se a retidão de Yaakov; do episódio das Matriarcas, mostra-se e aprende-se a retidão das Matriarcas — a retidão de Rachel, cujo mérito ainda subsiste para nós, pois ela introduziu sua rival etc., conforme está explicado por nossos sábios, de abençoada memória, que sobre isso se disse (Yirmiyáhu 31:14): "uma voz se ouve em Ramá, etc.; Rachel, etc." Constata-se, assim, que os relatos foram escritos para que também se aprendesse do próprio relato a qualidade que dele depende. E assim está escrito o episódio de Bilam e sua jumenta, para mostrar o ato repugnante daquele ímpio, a fim de afastar-se de seus atos, conforme a palavra de nossos sábios, de abençoada memória (Avot 5:22): "qual a diferença entre os discípulos de Avraham, nosso patriarca, e os discípulos etc." — isto é, para que cada um se aproxime da qualidade de Avraham e se afaste da qualidade de Bilam, o ímpio. Constata-se, então, que a Torá foi dita em narrativas de acontecimentos para que também do relato se aprendesse a qualidade; mas, na verdade, há nela segredos ocultos até o infinito. E, do mesmo modo, mesmo no restante da Torá, onde o mandamento é dito explicitamente, há nela segredos ocultos. E isto é "toda coisa que estava incluída na regra geral" — isto é, a Torá, que é a regra geral dos mundos. "E dela saiu" — para ser escrita em relato de um acontecimento. "Para ensinar" — isto é, para que também se aprenda do próprio relato a qualidade nele explicada. E isto é "não saiu para ensinar sobre si mesma, etc." — isto é, não é apenas na Torá que foi escrita em relato que há nela segredos, mas também na Torá em que o mandamento está explicado com clareza há nela segredos; e isto é "mas saiu para ensinar sobre a regra geral inteira". E isto está um tanto explicado no santo Zohar. E, na verdade, em Mishnê Torá (Devarim) não se escreveu em relato de acontecimento; apenas se explicam nela, nos mandamentos, com clareza, os atributos do Eterno e os caminhos do Eterno, e a repreensão a Israel para afastar-se do mau caminho e apegar-se ao bom caminho, ao caminho de D'us. E por que isso? Porque a geração que estava no Egito e estava imersa na impureza do Egito, e por isso irritou perante Ele, bendito seja, conforme foi dito por nossos sábios, de abençoada memória — e veja em Rashi sobre "na planície, defronte a Suf, entre Parã" etc., e "Di Zahav" etc., veja ali. Constata-se, assim, que por isso foi necessário revestir a Torá em narrativas de acontecimentos, como mencionado acima. Mas em Mishnê Torá, como havia uma geração inteira, a geração que entraria na Terra Santa, que não estava imersa na impureza do Egito, por isso a Torá lhes foi dita sem nenhum revestimento, como mencionado acima. E isto é "estas são as palavras" — em todo lugar em que se diz "estas", invalida-se o que veio antes; isto é, o que foi dito aos primeiros, a Torá revestida como dito acima, foi por causa de "no deserto, na planície" etc., conforme a explicação de Rashi "depois de Ele os haver ferido" etc.; "Moshé começou a explicar esta Torá" etc., "conforme tudo o que o Eterno lhe ordenara para eles", como dito acima.

דבר משה אל בני ישראל ככל אשר צוה ה' אותו אליהם (דברים א, א). ויבואר על פי מה שכתב בזוהר הקדוש על המשנה כל דבר שהיה בכלל ויצא מן הכלל כו', הכלל התורה הקדושה יש בה פנימיות סודות נעלמות ומה שנאמרה התורה בסיפורי מעשיות מעשה אברהם, מעשה יצחק, מעשה יעקב עם לבן, מעשה אמהות, מעשה בלעם ואתון שלו, באמת יש בהם סודות נעלמות פנימיות, רק שמגוף התורה שמבואר במעשה גם כן ילמדו ממנה מדות טובות, דהיינו מעשה אברהם ללמוד לעשות חסד מאברהם, מעשה יעקב להראות צדקתו של יעקב, מעשה האמהות להראות וללמוד צדקת האמהות צדקת רחל אשר עדיין זה הזכות קיים לנו שהכניסה צרתה כו', כמבואר ברבותינו ז"ל שעל זה נאמר (ירמיה לא, יד) קול ברמה כו', רחל כו'. ונמצא נכתבו המעשים כדי ללמוד גם מהמעשה המדה התלויה בה. וכן כתיב מעשה בלעם ואתון שלו, כדי להראות מעשה מגונה של אותו הרשע להרחיק מן מעשיו כמאמר חכמינו ז"ל (אבות ה, כב) מה בין תלמידיו של אברהם אבינו לתלמידיו כו', דהיינו ליקרב עצמו למדת אברהם ולרחק עצמו ממדת בלעם הרשע. נמצא זה שהתורה נאמר בסיפורי מעשיות כדי שגם מן המעשה נלמד המדה אבל באמת ישנו בה סודות נעלמות עד אין סוף. וכן אפילו שאר התורה שנאמרה בה המצוה בפירוש יש בה סודות נעלמות. וזהו כל דבר שהיה בכלל, דהיינו התורה שהוא הכלל מן העולמות. ויצא מן הכלל, להכתב בסיפור מעשה. ללמד, דהיינו ללמוד גם מן המעשה עצמה המדה המבואר בה. וזה לא ללמד על עצמו יצא כו', כלומר לא בהתורה אשר נכתבה בסיפור כו' יש בה סודות כו', אלא גם בהתורה אשר מבואר המצוה בה באר היטב יש בה סודותכו', וזהו אלא ללמד על הכלל כולו יצא. וזה מבואר קצת בזוהר הקדוש. ובאמת במשנה תורה לא נכתבה בסיפור מעשה, רק מבואר בה במצות היטב מדות השם ודרכי השם ותוכחה לישראל להסיר מדרך הרע ולדבק בדרך הטוב בדרך ה' ולמה זה, כי דור שהיו במצרים והיו משוקעים בטומאת מצרים ועל ידי זה הכעיסו לפניו יתברך כנאמר ברבותינו ז"ל, ועיין ברש"י בערבה מול סוף בין פארן כו', ודי זהב כו' עיין שם. ונמצא על ידי זה הוצרך להלביש התורה בסיפורי מעשיות כנזכר לעיל. אבל במשנה תורה שהיו דור שלם דור שנכנסו לארץ הקדושה שלא היו משוקעים בטומאת מצרים לכך נאמר להם התורה בלי שום לבוש כנזכר לעיל. וזהו אלה הדברים, כל מקום שנאמר אלה פוסל את הראשונים, כלומר מה שנאמר לראשונים תורה בלבוש כנ"ל, הוא מחמת במדבר בערבה כו', כפירוש רש"י אחרי הכותו כו', הואיל משה באר את התורה כו', ככל אשר צוה ה' אותו אליהם כנ"ל:
Parágrafo 4

"Além do Jordão, na terra de Moav, Moshé começou a explicar esta Torá" (Devarim 1:5). Veja em Rashi: "explicou em setenta línguas". E por que aqui explicou a Torá em setenta línguas? E com isso se explica o versículo (Tehilim 87:6): "o Eterno contará, ao inscrever os povos: este nasceu ali, Selá." A regra é que, por vezes, está escrito na Torá uma palavra em aramaico, como "Iegar Sahadutá" (Bereshit 31:47); e também a língua de outras nações, como totafot: "tat" em cuftita significa "dois", "pat" em africano significa "dois" (Zevachim 37b); e também há uma palavra em grego; e assim outras línguas que estão escritas na Torá, das línguas dos povos. E há uma única razão para isso: pois a língua de cada nação é a vitalidade daquela nação, e a Língua Sagrada pertence somente a Israel. E, na verdade, Israel ouviu a Torá no Sinai somente na Língua Sagrada; mas o Santo, bendito seja, que enxerga do princípio ao fim, viu que Israel precisaria estar no exílio; por isso escreveu na Torá a língua das demais nações, para que, por meio disso, eles tivessem um agarramento em sua própria vitalidade — que é a língua — dentro da santa Torá, a fim de que Israel pudesse ter subsistência no exílio. E esta é a alusão no versículo: "o Eterno contará, ao inscrever os povos" — isto é, que o Santo, bendito seja, escreveu na Torá alguma escrita dos povos, das demais nações. "Este nasceu ali, Selá" — a fim de que o justo pudesse subsistir ali; pois o justo se chama "este", conforme a palavra de nossos sábios, de abençoada memória (fim de Berachot): "todo o mundo não foi criado senão para ordenar a este". E esta é a alusão de "este nasceu ali, Selá" — a fim de que o justo tivesse subsistência no exílio. E isto é "na terra de Moav" — pois na Terra de Israel havia somente a Língua Sagrada, mas na terra de Moav, que é terra dos povos fora da Terra de Israel, era necessário explicar a Torá em todas as línguas, a fim de manter Israel no exílio.

בעבר הירדן בארץ מואב הואיל משה באר את התורה (דברים א, ה). עיין ברש"י באר בשבעים לשון. ולמה ביאר כאן התורה בשבעים לשון, ובו יבואר הפסוק (תהלים פז, ו) ה' יספור בכתוב עמים זה יולד שם סלה, הכלל, כי לפעמים כתיב בתורה תיבת התרגום כגון יגר סהדותא (בראשית לא, מז) וכן הלשון של שאר אומות כגון טוטפת ט"ט בכתפי שתים פת באפריקי שתים (זבחים לז:) וכן הן בלשון יוני אחת, וכן שאר לשונות שכתוב בתורה מלשונות הגוים. וחד טעם הוא, כי הלשון של כל האומות הוא החיות מן האומה ולשון הקודש הוא של ישראל לבד. ובאמת ישראל שמעו התורה בסיני רק בלשון הקודש והקדוש ברוך הוא המביט מראשית אחרית שראה שישראל צריכין להיות בגלות לזה כתב בתורה לשון של שאר אומות שעל ידי זה יהיה להם אחיזה בחיות שלהם שהוא הלשון בהתורה הקדושה בכדי שישראל יוכל להיות להם תקומה בגלות. וזהו הרמז בפסוק ה' יספור בכתוב עמים, כלומר שהקדוש ברוך הוא כתב בתורה איזה כתב מן העמים מן שאר האומות. זה יולד שם סלה, בכדי שהצדיק יוכל לקיים שם, כי הצדיק נקרא זה כמאמר חכמינו ז"ל (ברכותו:) כל העולם לא נברא אלא לצוות לזה. וזהו הרמז זה יולד שם סלה, בכדי שהצדיק יהיה לו קיום בגלות. וזהו בארץ מואב, כי בארץ ישראל לא היה רק לשון הקודש אבל בארץ מואב שהוא ארץ הגוים חוץ לארץ ישראל צריך לבאר התורה בכל הלשונות בכדי לקיים ישראל בגלות:
Parágrafo 5

"E ordenei a vossos juízes, naquele tempo, dizendo: ouvi entre vossos irmãos" (Devarim 1:16). Isto é, naquele tempo era necessário ouvir os litigantes para julgar com justiça; mas, para o futuro, no Mashiach, está escrito (Sanhedrin 93b): "ele fareja e julga" — não é necessário ouvir os litigantes. "Fareja" — mesmo sem ouvir os litigantes, sabe com quem está a verdade.

ואצוה את שופטיכם בעת ההוא לאמר שמוע בין אחיכם (דברים א, טז). כלומר, בעת ההוא צריך לשמוע הבעלי דינין כדי לשפוט צדק אבל לעתיד לבא במשיח כתיב (סנהדרין צג:) דמורח ודאין, אין צריך לשמוע הבעלי דינין. דמורח, אפילו בלא שמוע הבעלי דינין יודע עם מי האמת: