Talmud Yerushalmi · Massechet Kilayim · Perek Zayin · Halachá 2
כִּלְאַיִם

Três videiras de troncos visíveis, a videira seca, e o espaço intermediário do vinhedo

Perek Zayin, Halachá 2, no Talmud Yerushalmi, Massechet Kilayim

Segunda halachá do Perek Zayin de Massechet Kilayim, continuação direta do capítulo: a Mishná abre exatamente com o caso anunciado ao fim da halachá anterior — quem enterra três videiras e seus troncos são visíveis —, com Rabi Elazar filho de Rabi Tzadok ensinando que, havendo entre elas de quatro a oito côvados, elas se combinam num só vinhedo, e, se não, permanecem videiras isoladas. Segue-se que a videira que secou é proibida (não se deve semear a seu lado), mas não santifica (o que se semeia indevidamente não fica destinado à queima, como ocorreria com um vinhedo pleno); Rabi Meir estende a mesma regra à videira-de-lã (provavelmente uma variedade de crescimento lanoso); e Rabi Elazar bar Rabi Tzadok, em nome dele, ainda mais: mesmo por cima da própria videira seca isso vale. A Mishná fecha com uma lista de quatro excedentes proibidos que não santificam — do vinhedo arruinado, do perímetro do vinhedo, dos piskei arís e da apifiriot — em contraste com o que, debaixo da videira, no seu espaço de trabalho, e nos quatro côvados do vinhedo, sempre santifica. A guemará abre com Rabi Lazar fixando que toda a Mishná segue Rabi Meir, já que uma de suas partes lhe é explicitamente atribuída; explica a proibição da videira seca pela preocupação com a má aparência, válida no inverno e, em certos lugares onde as folhas caem cedo, também no verão; traz, por Rabi Shmuel em nome de Rabi Zeirá, que a Mishná fala do espaço acima do sarmento enterrado, e, por Rabi Bun bar Chiya em nome de Rabi Shmuel bar Rav Yitzchak, que ela fala do espaço de ar de dez palmos junto a um terraço — do qual Rabi Yossei conclui que mesmo a videira isolada, e não só o vinhedo, tem espaço de ar; detalha as quatro medidas de excedente da Mishná; discute, entre Rabi Yochanan e Reish Lakish, o estatuto do espaço intermediário num vinhedo plantado em espaçamento maior do que o costumeiro, com a demonstração de Rabi Zeirá a partir do vinhedo plantado oito por oito côvados; e fecha com Rabi Yossei restringindo a pena de açoites ao vinhedo principal.

A Mishná · מַתְנִיתִין

הַמַּבְרִיךְ שְׁלֹשָׁה גְפָנִים וְעִיקְּרֵיהֶן נִרְאִין. רִבִּי לָעְזָר בֵּירִבִּי צָדוֹק אוֹמֵר אִם יֵשׁ שָׁם בֵּינֵיהֶן מֵאַרְבַּע אַמּוֹת וְעַד שְמוֹנֶה הֲרֵי אֵלּוּ מִצְטָרְפוֹת וְאִם לָאו אֵינָן מִצְטָרְפוֹת. גֶּפֶן שֶׁיָּבְשָׁה אֲסוּרָה וְאֵינָהּ מְקַדֶּשֶׁת. רִבִי מֵאִיר אוֹמֵר אַף גֶּפֶן צֶמֶר אָסוּר וְאֵינוֹ מְקַדֵּשׁ. רִבִּי אֶלְעָזָר בַּר רִבִּי צָדוֹק אוֹמֵר מִשְּׁמוֹ אַף עַל גַּבֵּי הַגֶּפֶן אָסוּר וְאֵינוֹ מְקַדֵּשׁ. אֵלּוּ אֲסוּרִין וְלֹא מְקַדְּשִׁין מוֹתָר חָרְבַּן הַכֶּרֶם מוֹתָר מָחוֹל הַכֶּרֶם מוֹתָר פִּיסְקֵי עָרִיס מוֹתָר אַפִּיפִּירוֹת. אֲבָל תַּחַת הַגֶּפֶן וַעֲבוֹדַת הַגֶּפֶן וְאַרְבַּע אַמּוֹת שֶׁבְּכֶרֶם הֲרֵי אֵילּוּ מְקַדְּשִׁין.

Mishná: Quem enterra três videiras (pela técnica da havracha, tratada na halachá anterior) e seus troncos são visíveis — Rabi Elazar filho de Rabi Tzadok diz: se há ali, entre elas, de quatro a oito côvados, elas se combinam (contam juntas como um só vinhedo); e, se não, não se combinam (permanecem videiras isoladas, cada qual com seu próprio espaço de trabalho). A videira que secou é proibida (não se deve trazer semente a seu lado), mas não santifica (o que se semeou indevidamente não fica destinado à queima, como ocorreria junto a um vinhedo pleno). Rabi Meir diz: também a videira-de-lã (provavelmente uma variedade de crescimento lanoso) é proibida e não santifica. Rabi Elazar bar Rabi Tzadok diz em nome dele: mesmo por cima da própria videira seca é proibido, mas não santifica. Estas são proibidas e não santificam: o excedente do vinhedo arruinado, o excedente do perímetro do vinhedo, o excedente dos piskei arís, o excedente da apifiriot. Mas debaixo da videira, no espaço de trabalho da videira, e nos quatro côvados do vinhedo — estes sim santificam.

A Halachá · הֲלָכָה ב

01Rabi Lazar: a halachá é segundo Rabi Meir
Yerushalmi · Kilayim 7:2
אָמַר רִבִּי לָעְזָר הֲלָכָה דְּרִבִּי מֵאִיר הִיא.

Halachá: Disse Rabi Lazar: a halachá é segundo Rabi Meir (visto que uma das cláusulas da Mishná — a da videira-de-lã — está explicitamente atribuída a ele, toda a Mishná, incluindo a lista de excedentes, pertence à sua opinião).

02Compreende-se no inverno — mas no verão?
Yerushalmi · Kilayim 7:2
נִיחָא בְסִיתְוָוא אֲבָל בְקַיְיטָא. אִית אֲתָרִין דְּמַתְּרָן טַרְפֵיהֹן אֲפִילוּ בְקַיְיטָא.

Halachá: Compreende-se a proibição de semear junto à videira seca no inverno (quando as folhas caem e a videira seca não se distingue das vivas, levando quem passa a pensar que se semeou ali por transgressão); mas no verão (quando as folhas cobrem as uvas, por que persistiria a mesma preocupação)? Há lugares onde as folhas caem mesmo no verão (e por isso a proibição permanece válida em toda estação).

03O espaço acima do sarmento, e o espaço de ar de dez palmos
Yerushalmi · Kilayim 7:2
רִבִּי שְׁמוּאֵל בְשֵׁם רִבִּי זְעִירָא עַל גַּבֵּי זְמוֹרָה הִיא מַתְנִיתָא. רִבִּי בּוּן בַּר חִיָיא בְשֵׁם רִבִּי שְׁמוּאֵל בַּר רַב יִצְחָק לַאֲוֵיר עֲשָׂרָה הִיא מַתְנִיתָה. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי הֲוֵינָן סָבְרִין כֶּרֶם יֵשׁ לוֹ אֲוֵיר גֶּפֶן יְחִידִית אֵין לָהּ אֲוֵיר. מִן מַה דְּאָמַר רִבִּי בּוּן בַּר חִיָיא בְשֵׁם רִבִּי שְׁמוּאֵל בַּר רַב יִצְחָק לַאֲוֵיר עֲשָׂרָה הִיא מַתְנִיתָא. הָדָא אָמְרָה אֲפִילוּ גֶּפֶן יְחִידִית יֵשׁ לָהּ אֲוֵיר.

Halachá: Rabi Shmuel em nome de Rabi Zeirá: a Mishná fala do espaço acima do sarmento (o ramo enterrado com menos de três palmos de terra por cima, que é a esse a que se refere "mesmo por cima da própria videira é proibido"). Rabi Bun bar Chiya em nome de Rabi Shmuel bar Rav Yitzchak: a Mishná fala do espaço de ar de dez palmos (quando o terraço seguinte se ergue a essa altura ou mais, sua parede encerra o espaço de trabalho, e o que se planta dentro dele é proibido, mas não santifica). Disse Rabi Yossei: nós supúnhamos que o vinhedo tem espaço de ar, mas a videira isolada não tem espaço de ar. A partir do que disse Rabi Bun bar Chiya em nome de Rabi Shmuel bar Rav Yitzchak, que a Mishná fala do espaço de ar de dez, isto ensina que mesmo a videira isolada tem espaço de ar.

04As quatro medidas de excedente
Yerushalmi · Kilayim 7:2
מוֹתָר מָחוֹל הַכֶּרֶם אַרְבַּע אַמּוֹת מוֹתָר חָרְבַּן הַכֶּרֶם אַרְבַּע אַמּוֹת מוֹתָר פִּיסְקֵי עָרִיס שִׁשָּׁה טְפָחִים מוֹתָר הַפִּיפִּיָירוֹת שִׁשָּׁה טְפָחִים.

Halachá: O excedente do perímetro do vinhedo é quatro côvados; o excedente do vinhedo arruinado é quatro côvados; o excedente dos piskei arís é seis palmos; o excedente da apifiriot é seis palmos (cada medida definida como o que ultrapassa o espaço de trabalho já reservado a cada uma dessas categorias).

05O espaço intermediário: Rabi Yochanan e Reish Lakish
Yerushalmi · Kilayim 7:2
בֵּנְתַּיִים מַהוּ. רִבִּי יוֹחָנָן אָמַר אָסוּר וּמְקַדֵּשׁ. רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ אָמַר אָסוּר וְאֵינוֹ מְקַדֵּשׁ. מַה נַפְשֵׁךְ כֶּרֶם גָּדוֹל הוּא לָמָּה לִי חָרְבָּנוֹ אֲפִילוּ מַטָּעָתוֹ. כֶּרֶם קָטָן הוּא אֵין לוֹ מָחוֹל. אֶלָּא כִּי נָן קַיָימִין בְּכֶרֶם גָּדוֹל שֶׁנְּטָעוֹ עַל מַטַּע כֶּרֶם קָטָן. אֶמַר רִבִּי זְעִירָא הָדָא אָמְרָה כֶּרֶם גָּדוֹל שֶׁנְּטָעוֹ שְׁמוֹנֶה עַל שְׁמוֹנֶה אֵין לוֹ מָחוֹל. אִין תֵּימַר מַטַּע שֵׁשׁ עֶשְׂרֵה עַל שֵׁשׁ עֶשְׂרֵה תּוֹכוֹ אָסוּר וּמְקַדֵּשׁ חוּצָה לוֹ לֹא כָּל שֶׁכֵּן.

Halachá: O que é o espaço intermediário (os pontos, num vinhedo plantado em espaçamento maior que o costumeiro, distantes mais de quatro côvados de qualquer videira, e dos quais esta Mishná não trata explicitamente)? Rabi Yochanan disse: é proibido e santifica. Rabi Shimon ben Lakish disse: é proibido e não santifica. Argumenta Rabi Yochanan: qual é o teu entendimento? Se é um vinhedo grande, para que preciso de falar do seu vinhedo arruinado — mesmo da sua própria plantação (o espaço intermediário já contaria como interno ao vinhedo, sem necessidade de mencionar ruína)? Se é um vinhedo pequeno, ele não tem perímetro (por definição). Antes, estamos lidando com um vinhedo grande que foi plantado no espaçamento de um vinhedo pequeno (maior entre as fileiras, mas ainda extenso o bastante para ser vinhedo pleno). Disse Rabi Zeirá: isto ensina que um vinhedo grande plantado com espaçamento de oito por oito côvados não tem perímetro (pois, para além de oito côvados, já não santifica, e a ruína no meio não agrava a situação). Se dizes que, plantado com espaçamento de dezesseis por dezesseis, seu interior é proibido e santifica, o exterior não seria com muito mais razão assim (a réplica de Reish Lakish: se dentro de dezesseis côvados já se santifica, não haveria razão para exigir apenas doze côvados de perímetro por fora, contradizendo a Mishná de 4:1)?

06Rabi Yossei: os açoites só pelo vinhedo principal
Yerushalmi · Kilayim 7:2
אָמַר רִבִּי יוֹסֵי אֵין לוֹקִין אֶלָּא עַל עִיקַּר הַכֶּרֶם.

Halachá: Disse Rabi Yossei: não se açoita senão pelo vinhedo principal (ainda que a Mishná estabeleça os casos em que o novo crescimento santifica — tornando-se proibido para todo uso —, a pena de açoites, aplicada pelo tribunal, refere-se apenas ao grão semeado dentro do vinhedo propriamente dito, e não às extensões periféricas que apenas santificam por extensão).

Nota

Esta é a segunda halachá do Perek Zayin de Massechet Kilayim, continuação direta do capítulo. A Mishná abre exatamente com o caso que a halachá anterior já anunciava: quem enterra três videiras cujos troncos permanecem visíveis. Rabi Elazar filho de Rabi Tzadok fixa a medida que decide se elas se combinam num só vinhedo — de quatro a oito côvados de distância entre si — ou permanecem videiras isoladas, cada qual com seu próprio espaço de trabalho. Em seguida, a Mishná trata da videira seca: proibida, no sentido de que não se deve semear a seu lado, mas sem santificar, isto é, sem que o que se semeou indevidamente fique destinado à queima, como ocorreria junto a um vinhedo pleno. Rabi Meir estende a mesma regra branda à videira-de-lã, e Rabi Elazar bar Rabi Tzadok, em nome dele, ainda mais longe: mesmo diretamente por cima da própria videira seca, a proibição vale sem santificar. A Mishná fecha com uma lista fechada de quatro excedentes que são proibidos sem santificar — o do vinhedo arruinado, o do perímetro do vinhedo, o dos piskei arís (os trechos de treliça separados por uma videira central seca) e o da apifiriot (a esteira de papiro entrançado) —, em contraste com o que sempre santifica: debaixo da própria videira, no seu espaço de trabalho, e nos quatro côvados do vinhedo.

A guemará abre com Rabi Lazar estabelecendo que toda a Mishná segue Rabi Meir, já que uma de suas cláusulas — a da videira-de-lã — lhe é explicitamente atribuída. Passa então a explicar a proibição da videira seca: compreende-se no inverno, quando a queda das folhas apaga a diferença entre a videira seca e as vivas, levando quem passa a suspeitar de sementes proibidas ali; mas no verão, quando as folhas ainda cobrem as uvas, a mesma preocupação parece dispensável — a resposta é que há lugares onde as folhas caem cedo, mesmo no verão, mantendo a proibição válida em toda estação. Segue-se a explicação da cláusula "mesmo por cima da própria videira": para Rabi Shmuel em nome de Rabi Zeirá, ela se refere ao espaço acima do sarmento enterrado com menos de três palmos de terra; para Rabi Bun bar Chiya em nome de Rabi Shmuel bar Rav Yitzchak, ela se refere ao espaço de ar de dez palmos junto a um terraço, do qual Rabi Yossei extrai uma conclusão mais ampla: contrariando a suposição inicial de que só o vinhedo tem esse "espaço de ar", também a videira isolada o possui. A guemará então detalha, uma a uma, as quatro medidas de excedente mencionadas na Mishná — quatro côvados para o perímetro e para o vinhedo arruinado, seis palmos para os piskei arís e para a apifiriot —, e discute o estatuto do "espaço intermediário": os pontos, num vinhedo plantado com espaçamento maior que o costumeiro, distantes mais de quatro côvados de qualquer videira, mas que a Mishná não menciona explicitamente. Rabi Yochanan sustenta que esse espaço é proibido e santifica; Rabi Shimon ben Lakish, que é proibido mas não santifica. O argumento de Rabi Yochanan — de que a Mishná só poderia estar tratando de um vinhedo grande plantado no espaçamento de um vinhedo pequeno, já que um vinhedo grande comum não precisaria de "vinhedo arruinado" para se manter vinhedo, e um vinhedo pequeno não tem perímetro — é reforçado por Rabi Zeirá com o caso do vinhedo plantado oito por oito côvados; mas Reish Lakish replica que, se o interior de um vinhedo plantado dezesseis por dezesseis já santifica, o exterior deveria santificar com ainda mais razão, o que contradiria a medida de doze côvados fixada para o perímetro na Mishná do Perek Dalet. A guemará fecha com Rabi Yossei restringindo a pena de açoites, aplicada pelo tribunal, ao grão semeado no vinhedo principal — e não às extensões que apenas santificam por decreto rabínico. Massechet Kilayim, por ser um "tratado menor" dentro do Seder Zeraim, não recebeu Guemará no Talmud Bavli, nem comentário tradicional de Rashi; o texto aqui é o Yerushalmi em sua integridade.