Talmud Yerushalmi · Massechet Kilayim · Perek Alef · Halachá 4
כִּלְאַיִם

As árvores frutíferas: pereiras e marmeleiros não são kilayim, mas a macieira e o hizrar são

Perek Alef, Halachá 4, no Talmud Yerushalmi, Massechet Kilayim

Quarta halachá de Massechet Kilayim: a Mishná passa das hortaliças para as árvores, ensinando que as agassin (pereiras), os krustemelin (marmeleiros), os prishim (sorveiras) e os azardim (sorveiras silvestres) não são kilayim um com o outro; mas a macieira e o hizrar (uma variedade de maçã silvestre), o pessegueiro e a amendoeira, e a jujubeira e o rimin (fruto do lótus), embora se pareçam entre si, são kilayim um com o outro. A guemará abre identificando os prishim com o termo aramaico asparlegin, explicando a etimologia do nome pela árvore cujo fruto só serve à panela; traz então o debate entre Rav, que sustenta que todas as quatro árvores do primeiro par são uma única espécie, e uma baraita que discorda dele, citando o arbusto bekaim e, na réplica de Rabi Yossei beRabi Bun, também a orégano; narra dois episódios de estudantes que impugnaram enxertos praticados nos mercados de Tsipori e na região de Ariach — marmeleiro sobre pereira, e macieira sobre hizrar — ambos levados a julgamento em Yavne, com resultados opostos; e fecha com uma baraita sobre um gentio que enxertou nogueira sobre pessegueiro e acelga sobre beldroega, e uma lista de outros cruzamentos — zargun com nabo, avelã com terebinto, oliveira com romãzeira — com o nome do fruto resultante de cada um.

A Mishná · מַתְנִיתִין

וּבְאִילָן הָאֲגַסִּין וְהַקְּרוּסְטָמֵלִין וְהַפְּרִישִׂים וְהָעֲזָרְדִים אֵינָן כִּלְאַיִם זֶה בְזֶה. הַתַּפּוּחַ וְהַחִזְרָר הַפֶּרְסִקִּין וְהַשְּׁקֵדִין הַשִּׁיזְפִין וְהָרִימִין אַף עַל פִּי שֶׁדּוֹמִין זֶה לַזֶּה כִּלְאַיִם זֶה בָזֶה.

Mishná: E, entre as árvores, as agassin (pereiras), os krustemelin (marmeleiros), os prishim (sorveiras) e os azardim (sorveiras silvestres, ou espinheiros aparentados) não são kilayim (mistura proibida de espécies) um com o outro. A macieira e o hizrar (uma variedade de maçã silvestre ou espinheiro), os persikin (pessegueiros) e as amendoeiras, os shizfin (jujubeiras) e os rimin (frutos do lótus) — ainda que se pareçam entre si — são kilayim um com o outro.

A Halachá · הֲלָכָה ד

01Os prishim identificados como asparlegin, e a etimologia do nome
Yerushalmi · Kilayim 1:4
פְּרִישִׂין אָמַר רִבִּי יוֹנָה אֲסָפַרְלְגִין וְלָמָּה נִקְרָא שְׁמָן פְּרִישִׂין שֶׂאֵין לָךְ מִין אִילָן פָּרִישׂ לִקְדֵירָה אֶלָּא מִין זֶה בִלְבָד.

Halachá: A Mishná ensina: "os prishim (sorveiras)." Rabi Yoná disse: asparlegin (o nome aramaico correspondente). E por que se chamam prishim (termo que evoca a raiz "separar" ou "destinar")? Porque não há árvore alguma cujo fruto se destine (literalmente, "se separe") exclusivamente para a panela (isto é, que só sirva para ser cozido, e não para ser comido cru), senão esta espécie somente.

02O debate entre Rav e a baraita: todas uma espécie, ou pares distintos?
Yerushalmi · Kilayim 1:4
שַׂלְמָן בַּר לֵוִי אַחוֹי דְּזַבְדִּי בַּר לֵוִי בְשֵׁם רִבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי כּוּלְּהוֹן זוּגוֹת זוּגוֹת. רַב אָמַר כּוּלְּהוֹן מִין אֶחָד. מַתְנִיתָא פְלִיגָא עַל רַב דְּתַנֵּי אַף הַבְּכָיִים. הָתִיב רִבִּי יוֹסֵי בֵּירִבִּי בּוּן וְהָתַנֵּי אַף הָרוֹגְיָינִים.

Salman bar Levi, irmão de Zavdi bar Levi, em nome de Rabi Yehoshua ben Levi: todos (os pares da Mishná) se contam par a par (isto é, cada par forma uma única espécie, e não há uma única espécie abrangendo as quatro árvores mencionadas juntas). Rav disse: todas (as quatro árvores do primeiro grupo — pereira, marmeleiro, sorveira e sorveira silvestre) são uma única espécie. Uma baraita discorda de Rav, pois foi ensinado: também o bekaim (um arbusto da família do bálsamo, incluído junto às demais) (o que mostraria que nem todas essas plantas listadas juntas formam uma única espécie botânica, já que um arbusto não pode ser da mesma família de árvores frutíferas). Rabi Yossei beRabi Bun objetou: e não foi também ensinado o rogeyanim (a orégano, um arbusto ainda menor)? (reforçando a objeção contra a posição de Rav, já que a inclusão de plantas tão diferentes entre si na mesma lista mostra que a lista não implica identidade de espécie)

03O enxerto em Tsipori: marmeleiro sobre pereira, julgado em Yavne
Yerushalmi · Kilayim 1:4
בְּשׁוּקֵי שֶׁל צִיפּוֹרִין הָיוּ מַרְכִּיבִין קְרוּסְטָמֵלִין עַל גַּבֵּי אֲגַס. רָאָם תַּלְמִיד אֶחָד אָמַר לָהֶן אֲסוּרִים אַתֶּם הָלְכוּ וּקְצָצוּם וּבָאוּ וְשָׁאֲלוּ בְיַבְנֶה אָמַר לָהֶן מִי שֶׁפָּגַע בָּכֶם מִתַּלְמִידֵי בֵית שַׁמַּאי הֲווּ. לֹא אָמַר אֶלָּא קְרוּסְטָמֵיל עַל גַּבֵּי אֲגַס. הָא אֲגַס עַל גַּבֵּי חִיזְרָר לֹא.

Foi ensinado (numa baraita): nos mercados de Tsipori costumavam enxertar krustemelin (marmeleiros) sobre pereiras. Um certo estudante os viu e lhes disse: "vós estais proibidos (de fazer isso)". Foram e os cortaram, e vieram perguntar em Yavne. Disseram-lhes: quem quer que se tenha deparado convosco era dos discípulos da Casa de Shamai (isto é, aquele estudante seguia uma opinião não aceita como lei, e o enxerto era, na verdade, permitido). A guemará observa: (o estudante) não disse senão "marmeleiro sobre pereira (é proibido)" — logo, pereira sobre hizrar ele não (disse que fosse proibido, o que se examina no episódio seguinte).

04O enxerto em Ariach: macieira sobre hizrar, também julgado em Yavne
Yerushalmi · Kilayim 1:4
בִּתְחוּם אָרִיחַ הָיוּ מַרְכִּיבִין תַּפּוּחַ עַל גַּבֵּי חִיזְרָר וּבָא תַּלְמִיד אֶחָד אָמַר לָהֶן אֲסוּרִין אַתֶּם הָלְכוּ וּקְצָצוּם וּבָאוּ וְשָׁאֲלוּ בְיַבְנֶה אָמַר לָהֶן יָפֶה אָמַר הַתַּלְמִיד. לֹא אָמַר אֶלָּא הַתַּפּוּחַ עַל גַּבֵּי חִיזְרָר. הָא חִיזְרָר עַל גַּבֵּי אֲגַס לֹא. מַה דַהֲוָה עוּבְדָּא הֲוָה עוּבְדָּא.

Foi ensinado: no território de Ariach costumavam enxertar macieira sobre hizrar. Veio um certo estudante e lhes disse: "vós estais proibidos". Foram e os cortaram, e vieram perguntar em Yavne. Disseram-lhes: bem disse o estudante (desta vez confirmando a proibição, pois a Mishná já ensina que macieira e hizrar são kilayim). A guemará observa: ele não disse senão "a macieira sobre o hizrar (é proibido)" — logo, hizrar sobre pereira ele não (disse). (A guemará responde à tensão entre este caso e o anterior:) o que foi caso (concreto e específico), foi caso (isto é, cada relato reporta apenas o que efetivamente ocorreu e foi perguntado, sem que se possa inferir logicamente dele a respeito de combinações que não foram mencionadas).

05O enxerto do gentio: nogueira sobre pessegueiro, e acelga sobre beldroega
Yerushalmi · Kilayim 1:4
תַּנֵּי גּוֹי שֶׁהִרְכִּיב אֱגוֹז עַל גַּבֵּי פֶּרְסִק אַף עַל פִּי שֶׁאֵין יִשְׂרָאֵל רַשַּׁאי לַעֲשׂוֹת כֵּן נוֹטֵל מִמֶּנּוּ יִיחוּר וְהוֹלֵךְ וְנוֹטֵעַ בְּמָקוֹם אַחֵר. מַה נְפַק מִינְהוֹן קדריה פֶּרְסִקִּיָּה. הִרְכִּיב תְּרִיד עַל גַּבֵּי יַרְבּוּן אַף עַל פִּי שֶׁאֵין יִשְׂרָאֵל רַשַּׁאי לַעֲשׂוֹת כֵּן נוֹטֵל הִימֶינּוּ זֶרַע וְהוֹלֵךְ וְזוֹרֵעַ בְּמָקוֹם אַחֵר. מַה נְפַק מִינְהוֹן כְּרוּסָלַבַּיִנין.

Foi ensinado: um gentio que enxertou nogueira sobre pessegueiro — ainda que a um israelita não seja permitido fazer isso (um israelita não pode praticar tal enxerto, por ser kilayim), ele pode tomar dele um broto e ir plantá-lo em outro lugar (pois o resultado do enxerto feito pelo gentio não fica, ele mesmo, proibido para o israelita usar em diante). O que resultou deles? Qadria persiquia (um fruto híbrido, designado por esse nome composto). E se enxertou terid (acelga) sobre yarvun (beldroega) — ainda que a um israelita não seja permitido fazer isso, ele pode tomar dele uma semente e ir semeá-la em outro lugar. O que resultou deles? Kruslavinin (um vegetal híbrido, também designado por esse nome composto).

06Fechamento: mais cruzamentos e seus frutos resultantes
Yerushalmi · Kilayim 1:4
זַרְגּוּן וְלֶפֶת מַה נְפַק מִינְהוֹן פֵיטְרָה סֵילִינוֹן. לוּזִין וּבוֹטְמִין מַה נְפַק מִבֵּינֵיהוֹן פִּיסְטַקִּין. זֵיתִין וְרִימּוֹן מַה נְפַק מִבֵּינֵיהוֹן שִׁיזְפִין.

Foi ensinado, continuando a lista: zargun (um bulbo ou raiz, possivelmente açafrão-da-terra) e o lefet (nabo) — o que resultou deles? Peitra selinon (um fruto ou raiz híbrida, também nomeada por termo composto, próxima da cenoura). Avelãs e botmin (terebintos) — o que resultou dentre eles? Pistaqin (pistaches). Oliveiras e romãzeira — o que resultou dentre eles? Shizfin (jujubas) (encerrando a halachá com esta lista de cruzamentos entre árvores e hortaliças distintas e os nomes híbridos de seus frutos resultantes).

Nota

Esta é a quarta halachá de Massechet Kilayim, e a primeira a tratar de árvores: a Mishná ensina que as pereiras, os marmeleiros, as sorveiras e as sorveiras silvestres não são kilayim entre si; mas a macieira e o hizrar, o pessegueiro e a amendoeira, e a jujubeira e o lótus, embora se pareçam, são kilayim um com o outro.

A guemará abre identificando os prishim com o termo aramaico asparlegin, e explica a etimologia do nome pela árvore cujo fruto só serve cozido. Segue o debate entre Rabi Yehoshua ben Levi (transmitido por Salman bar Levi), para quem cada par da Mishná é uma espécie distinta, e Rav, que sustenta que as quatro árvores do primeiro grupo formam uma única espécie — posição refutada por uma baraita que inclui na mesma lista o arbusto bekaim e, na réplica de Rabi Yossei beRabi Bun, também a orégano, mostrando que a mera menção conjunta não implica identidade de espécie.

Dois episódios narram enxertos julgados em Yavne: em Tsipori, um estudante proibiu o enxerto de marmeleiro sobre pereira, e os sábios de Yavne desautorizaram esse estudante, atribuindo-o à Casa de Shamai; em Ariach, outro estudante proibiu o enxerto de macieira sobre hizrar, e desta vez os sábios de Yavne confirmaram o veredito do estudante — a guemará resolve a aparente tensão notando que cada relato reporta apenas o caso concreto ocorrido, sem servir de base para inferências lógicas sobre combinações não mencionadas.

A halachá fecha com uma baraita sobre um gentio que pratica enxertos proibidos a um israelita — nogueira sobre pessegueiro, e acelga sobre beldroega — mas cujo resultado um israelita pode legitimamente propagar em outro lugar; e uma lista final de cruzamentos e os nomes híbridos de seus frutos: zargun com nabo, avelã com terebinto, e oliveira com romãzeira, produzindo, respectivamente, a peitra selinon, o pistache e a jujuba.