A Mishná traz nova disputa entre Bet Shamai e Bet Hilel: para Bet Shamai, ninguém pode vender suas azeitonas senão a um chaver; para Bet Hilel, também a quem apenas dizima (sem ser necessariamente um chaver em todos os demais aspectos), e os discretos de Bet Hilel costumavam agir segundo as palavras de Bet Shamai. Trata ainda de dois sócios que vindimaram suas vinhas para dentro de um único lagar, um dizimando e outro não, caso em que o que dizima dizima apenas o que é seu, e sua parte onde quer que esteja. A guemará explica a razão de cada escola, discute o monte de trigo, o cesto de uvas e o tanque de azeitonas, e esclarece o sentido da expressão "discretos".
Mishná: Bet Shamai diz: não venda a pessoa suas azeitonas senão a um chaver (companheiro fiel na observância dos dízimos e da pureza). Bet Hilel diz: também a quem dizima (mesmo que não seja chaver em tudo, basta que se saiba que ele dizima o que compra). E os discretos (tzenuei) de Bet Hilel costumavam agir conforme as palavras de Bet Shamai.
Dois sócios que vindimaram suas vinhas para dentro de um único lagar, um deles dizimando e o outro não dizimando — o que dizima dizima apenas o que é seu, e sua parte (o vinho correspondente à sua porção), onde quer que esteja (mesmo já misturada ao vinho do sócio que não dizima, permanece sua e deve ser dizimada).
Halachá: Disse Rabi Yochanan: a razão de Bet Hilel (por que permitem vender azeitonas mesmo a quem não é chaver, desde que dizime) é que não é costume das pessoas comer suas azeitonas prensadas (atunin, isto é, deixadas a amontoar-se antes de espremer o óleo, um processo demorado) senão por algum motivo especial (portanto não há tanto risco de que o comprador as coma cruas e impuras antes de as dizimar, já que o próprio processo de preparo do óleo naturalmente as retém).
Bet Hilel segue aqui sua própria linha de raciocínio, pois ensinamos (em outro lugar): não se venda a ele (a um não confiável) vaca que lavra no ano sabático (por receio de que a use para trabalhar a terra proibida), mas Bet Hilel permite, porque ele pode simplesmente abatê-la (para comer sua carne, sem necessariamente violar a shemitá com ela — não se presume o pior). E é costume da pessoa abater (mechos, comer) seu próprio boi apenas por algum motivo (isto é, do mesmo modo que não se presume que ele vá arar com a vaca em vez de abatê-la, também não se presume que vá comer as azeitonas cruas em vez de prensá-las para o óleo — o mesmo princípio de dar o benefício da dúvida rege ambos os casos).
Concordam (Bet Shamai e Bet Hilel) que se pode vender a ele espigas (shibolin) para sua massa (isto é, para moer e fazer pão), ainda que se saiba que ele não as prepara em pureza (pois espigas destinadas a virar farinha e depois massa passam por um processo longo, análogo ao das azeitonas prensadas, e não há preocupação de que sejam comidas cruas e impuras).
Baraita sobre o monte, o cesto e o tanque: Ensinou-se: concordam (Bet Shamai e Bet Hilel) que não se vende o monte (gadish) de trigo, nem o cesto (avit) de uvas, nem o tanque (maatan) de azeitonas, senão a um chaver, ou a quem se sabe que os prepara em pureza (pois, ao contrário das espigas ou azeitonas isoladas, esses volumes já reunidos e amontoados estão sujeitos a receber impureza como um todo por contato ou líquido). E o cesto de uvas (sendo úmido) não é problema de Torá (isto é, sua suscetibilidade à impureza nesse ponto é apenas de origem rabínica, não bíblica, já que o suco que escorre delas nem sempre é considerado líquido que torna suscetível por lei da Torá).
Não seria isto uma contradição a Rabi Yochanan? Pois Rabi Yochanan disse: assim como ele disse que o pequeno volume solto de azeitonas ou uvas é rigor (chumrin, uma estringência apenas rabínica, e não obrigação bíblica), também disse que o tanque de azeitonas é rigor (ou seja, segundo Rabi Yochanan, mesmo o maatan reunido seria apenas de rigor rabínico — o que pareceria contradizer a baraita que trata o cesto de uvas como sendo só de rigor, mas implicitamente trata o tanque de azeitonas como sendo de Torá, já que só isentou explicitamente o cesto de uvas).
Rabi Chizkiyáh disse em nome de Rabi Yoná, em nome de Rabi Yirmeyáh: sobre o que então discordam (Bet Shamai e Bet Hilel, quanto ao tanque de azeitonas)? Quanto às ligações (chiburin, isto é, se as azeitonas amontoadas e prensadas juntas no tanque se consideram um único corpo contínuo para fins de impureza). Pois em todo lugar, quando algo está apenas mordido (nashuch, tocando levemente), há ligação; quando está amassado (mauch), não há ligação (regra geral: contato leve entre partes de um mesmo alimento as une para fins de impureza, mas se uma parte foi amassada e perdeu sua forma, a ligação se desfaz) — mas aqui (no caso das azeitonas prensadas no tanque), mesmo amassado há ligação, eis que a Torá as tornou aptas (hechsheiran, isto é, o próprio líquido — o azeite — que escorre delas ao serem prensadas as torna suscetíveis à impureza por lei da Torá, e por isso, apesar de amassadas, continuam ligadas como um único corpo, diferentemente do cesto de uvas).
Levantou-se Rabi Yoná com Rabi Yirmeyáh (foi debater com ele), e disse-lhe: foste tu quem disse essa coisa? Disse-lhe: sim, da minha parte (eu disse): mesmo o que as torna aptas é rigor (isto é, mesmo a suscetibilidade do maatan de azeitonas por seu próprio líquido é apenas de origem rabínica, e não bíblica — contradizendo o que se havia entendido antes). Mas não se ensinou: concordam que não se vende o monte de trigo, e o cesto de uvas, e o tanque de azeitonas, senão a um chaver ou a quem se sabe que os prepara em pureza, e o cesto de uvas não é problema de Torá — e por paralelo (dichvatah), o tanque de azeitonas seria então problema de Torá (pois a baraita isentou explicitamente só o cesto de uvas, implicando que o tanque de azeitonas é sim de Torá — o que contradiz agora o próprio Rabi Yirmeyáh)?
Como resolver isso, então? Explica-se (tiftar) segundo Rabi Meir, pois Rabi Meir disse: o mohel (o líquido que escorre naturalmente das azeitonas antes mesmo de serem prensadas) é como uma bebida (mashke, isto é, já se considera líquido apto a transmitir suscetibilidade à impureza por si mesmo, segundo a opinião individual de Rabi Meir — e é dessa opinião, e não da posição consensual, que provém a referência de Torá ao tanque de azeitonas na baraita, permitindo assim reconciliá-la com a visão de Rabi Yirmeyáh, para quem, fora essa opinião de Rabi Meir, o tanque de azeitonas seria apenas rigor rabínico).
Disse Rabi Ze'irá: a razão de Bet Shamai é que não é costume de um chaver vender azeitonas (que ainda vai preparar em óleo) senão a quem de fato dizima (por isso, ao dizer que só se vende a um "chaver", Bet Shamai na prática já pressupõe que o comprador seja alguém que dizima — não havendo, no fundo, tanta distância entre a formulação de Bet Shamai e a de Bet Hilel, mas apenas um modo diferente de expressar a mesma exigência essencial).
O que significa "os discretos" (tzenuei) — seriam eles os aptos (kesheirei, isto é, pergunta-se se "discretos" é apenas sinônimo de pessoas idôneas e cuidadosas)? Disse Rav Chisda: assim aprendemos, que o apto (kasher, o cuidadoso e íntegro) é chamado de discreto (tzanua — confirmando que a expressão da Mishná, "os discretos de Bet Hilel", designa os membros mais íntegros e cuidadosos dessa escola, que preferiam adotar por si mesmos o rigor de Bet Shamai).
Sobre os dois sócios do lagar: Disse Rabi La'azar: a cláusula da Mishná sobre os dois sócios é segundo a opinião de Rabi Meir, pois Rabi Meir disse: não permitiram vender demai senão a um siton (atacadista) apenas (e aqui, um dos sócios vendendo ao outro sua metade misturada seria como vender demai a alguém que não é siton — o que só se sustenta segundo a visão particular de Rabi Meir sobre esse ponto). Ele (Rabi La'azar) a explica (pater lah, resolve a cláusula da Mishná) assim: o que dizima, dizima o que é seu com certeza (vadai — a parte que ele mesmo colheu e sabe estar obrigada), e sua parte (a porção que ficou misturada com a do sócio, cuja origem exata já não se pode discernir), onde quer que esteja, é apenas demai (duvidosa, pois já não se sabe se aquela porção específica veio de sua vindima ou da do sócio que não dizima, e por isso basta tratá-la com o rigor mais leve do demai, e não como tevel certo).
Rabi Yoná pergunta: e se o sócio não dizimador vende seu vinho como certo (vadai, isto é, sem declarar que é tevel), mas na verdade conserta (metaken, dizima) apenas o demai (surge um problema, pois ele estaria vendendo como certamente dizimado algo que na realidade só recebeu o tratamento mais leve do demai — dando a impressão de estar plenamente corrigido quando não está). Não tens senão aquilo que disse Rabi Yochanan: é opinião de todos (divrei hakol, tanto dos sábios quanto de Rabi Meir): o que dizima, dizima o que é seu com certeza, e sua parte, onde quer que esteja, é demai, e metade de sua parte que está em mãos de seu companheiro (chatzi chelko, a porção do sócio não dizimador que corresponde, por mistura, à parte do que dizima) é, do que é dele (mishelo), demai (isto é, mesmo a porção que ficou fisicamente com o sócio que não dizima, mas que pertence de direito e por mistura a quem dizima, deve ser tratada como demai — resolvendo, assim, a dificuldade de Rabi Yoná: o sócio que não dizima não está vendendo algo certo por completo, pois sua própria parcela, do ponto de vista de seu sócio dizimador, permanece uma mistura de vadai e demai).
Esta halachá traz nova Mishná com uma disputa entre Bet Shamai e Bet Hilel sobre a venda de azeitonas: para Bet Shamai, apenas a um chaver; para Bet Hilel, também a quem simplesmente dizima o que compra — sendo que os discretos de Bet Hilel, por rigor pessoal, seguiam a prática de Bet Shamai. A Mishná acrescenta o caso de dois sócios que vindimaram para um único lagar, um dizimando e outro não, valendo para o dizimador apenas sua própria parte, mesmo já misturada.
A guemará explica a razão de Bet Hilel pelo costume de só se comerem azeitonas depois de prensadas para o óleo, comparando com o caso da vaca vendida no ano sabático; traz uma baraita sobre o monte de trigo, o cesto de uvas e o tanque de azeitonas, que só se vendem a um chaver ou a quem se sabe que os prepara em pureza, gerando uma discussão sobre se o tanque de azeitonas é suscetível à impureza por lei da Torá ou apenas por rigor rabínico, resolvida pela opinião de Rabi Meir sobre o líquido que escorre naturalmente da azeitona; explica a razão de Bet Shamai pelo costume de um chaver só vender a quem dizima; esclarece que "discretos" significa os mais íntegros e cuidadosos; e fecha explicando o caso dos dois sócios do lagar à luz da opinião de Rabi Meir sobre a venda do demai apenas a um atacadista, com a dificuldade de Rabi Yoná sobre a venda como produto certo e a resposta de Rabi Yochanan de que mesmo a parte do sócio não dizimador é, na porção correspondente ao dizimador, tratada como demai.