A Mishná encerra o Perek Bet afirmando que o noivo pode ler o Shemá na primeira noite se quiser, com a ressalva de Rabán Shimon ben Gamliel de que nem todo aquele que quer tomar para si um nome pode fazê-lo. A halachá abre distinguindo dois tipos de conduta exemplar: em assuntos que trazem sofrimento, qualquer um pode se distinguir e agir como os eminentes, e um sábio que o faça é abençoado; em assuntos que trazem prestígio, apenas quem já ocupa posição de autoridade pública pode fazê-lo sem parecer arrogante. Essa distinção é ilustrada pela regra de desviar-se pela beira do caminho diante de obstáculos, mesmo sobre uma plantação de açafrão, e pela história de Rabán Gamliel e Rabi Yehoshua, que viram Rabi Yehudá ben Papos afundando no lamaçal por recusar-se a desviar, e debateram se sua conduta era louvável ou uma exibição inadequada de piedade — com a ressalva final de Rabi Zeirá de que tal conduta só é válida se não envergonhar os outros. A halachá fecha com o caso de Rabi Miashá e Rabi Shmuel bar Rav Yitschac, que discutem se se deve interromper uma refeição para orar, e se o próprio noivo, isento da leitura do Shemá, deveria abrir mão dessa isenção — concluindo com a resposta de Rabán Gamliel de que não abriria mão, por vontade própria, do jugo do Reino dos Céus.
O noivo, se quiser ler o Shemá na primeira noite (de núpcias, ainda que esteja isento), lê. Rabán Shimon ben Gamliel diz: nem todo aquele que quer tomar para si um nome (uma reputação de piedade extraordinária) pode tomá-lo.
Foi ensinado: em toda coisa que é de sofrimento, todo aquele que quer se destacar, sozinho, pode fazê-lo (mesmo sem autoridade reconhecida); um sábio o faz, e que lhe venha uma bênção. E em toda coisa que é de prestígio, nem todo aquele que quer se destacar, sozinho, pode fazê-lo; um sábio o faz, apenas se o nomearam responsável sobre a comunidade (pois só então sua conduta exemplar não parece arrogância).
Foi ensinado: desviam-se as pessoas pela beira do caminho por causa de obstáculos nas estradas (um dos direitos de uso público sobre terra privada que Josué impôs na distribuição da terra); e quando alguém está afundando (na lama, na época das chuvas), pode fazê-lo mesmo sobre um campo cheio de açafrão (pisando na plantação de outrem, pois esse uso está previsto entre as condições originais da posse da terra).
Disse Rabi Abahu: aconteceu com Rabán Gamliel e Rabi Yehoshua, que estavam na estrada e se desviavam pela beira do caminho por causa de obstáculos, e viram Rabi Yehudá ben Papos, que estava afundando na lama e vinha em direção a eles (em vez de desviar-se como faziam os demais). Disse Rabán Gamliel a Rabi Yehoshua: quem é esse que se aponta com o dedo (que chama atenção sobre si mesmo por sua conduta exagerada)? Disse-lhe: é Yehudá ben Papos, cujas ações são todas por causa do Céu.
Disse-lhe Rabán Gamliel a Rabi Yehoshua: e não foi ensinado assim: em toda coisa que é de prestígio, nem todo aquele que quer se destacar, sozinho, pode fazê-lo; um sábio o faz, apenas se o nomearam responsável sobre a comunidade? Disse-lhe Rabi Yehoshua a Rabán Gamliel: mas não foi também ensinado: em toda coisa que é de sofrimento, todo aquele que quer se destacar, sozinho, pode fazê-lo; um sábio o faz, e que lhe venha uma bênção (e afundar na lama, sendo penoso, entra nessa segunda categoria, permitida a todos)? Disse Rabi Zeirá: e isso apenas contanto que não envergonhe os outros (pois, nesse caso, os líderes da geração se sentiram constrangidos pela exibição desnecessária de piedade de Rabi Yehudá ben Papos).
Esclarecimento (sobre outro caso): Rabi Miashá e Rabi Shmuel bar Rav Yitschac estavam sentados, comendo, em uma daquelas sinagogas do andar superior (de Tiberíades). Chegou o horário da oração, e Rabi Shmuel bar Rav Yitschac levantou-se para orar. Disse-lhe Rabi Miashá: não nos ensinaste, mestre, que, se já começaram a comer, não se interrompe? E Chizkiyá ensinou: todo aquele que está isento de uma coisa e a faz mesmo assim é chamado de ignorante (do grego idiótes, "pessoa privada, leigo").
Disse-lhe Rabi Shmuel bar Rav Yitschac a Rabi Miashá: mas não ensinamos: o noivo está isento da leitura do Shemá; o noivo, se quiser (lê mesmo assim)? Ou seja: também aqui, ainda que isento, cumprir a obrigação não é considerado ignorância. Disse-lhe Rabi Miashá: mas isso não é apenas a opinião de Rabán Gamliel e não uma regra aceita por todos? Disse-lhe Rabi Shmuel bar Rav Yitschac: eu posso explicar essa objeção conforme Rabán Gamliel, pois Rabán Gamliel disse: não vos ouvirei para anular de mim o jugo do Reino dos Céus (isto é: mesmo os que discordam dele quanto à isenção formal concordam que ninguém pode ser impedido de aceitar sobre si o jugo do Céu quando o deseja).
Esta é a nona e última halachá do Perek Bet do Talmud Yerushalmi, Massechet Berachot. Ela comenta a Mishná final do capítulo, segundo a qual o noivo pode ler o Shemá na primeira noite se quiser, ainda que esteja isento — com a ressalva de Rabán Shimon ben Gamliel de que nem todo aquele que deseja tomar para si um nome de piedade extraordinária pode fazê-lo. A sugya estabelece a distinção central entre assuntos de sofrimento, em que qualquer pessoa pode se destacar sem que isso pareça pretensão, e assuntos de prestígio, reservados a quem já ocupa posição reconhecida de autoridade pública. Essa distinção é ilustrada pela regra sobre desviar-se pela beira do caminho diante de obstáculos — incluindo pisar sobre uma plantação de açafrão quando se está afundando na lama — e pela história de Rabán Gamliel e Rabi Yehoshua, que avistaram Rabi Yehudá ben Papos recusando-se a desviar-se e debateram se sua conduta era louvável (por se tratar de algo penoso, categoria aberta a todos) ou uma exibição inadequada de piedade (por parecer buscar prestígio sem ter autoridade para tanto) — com a ressalva final de Rabi Zeirá de que tal conduta só é aceitável se não envergonhar os demais. A halachá fecha com o caso de Rabi Miashá e Rabi Shmuel bar Rav Yitschac, que discutem se se deve interromper uma refeição já iniciada para orar, e se o próprio noivo, isento da leitura do Shemá, deveria abrir mão da isenção — concluindo, na explicação atribuída a Rabán Gamliel, que ninguém pode ser impedido de aceitar sobre si o jugo do Reino dos Céus, mesmo estando formalmente dispensado. Com esta halachá, o Perek Bet do Talmud Yerushalmi Berachot está completo. O tema da isenção do noivo corresponde, no Talmud Bavli, à Mishná Berachot 2:5 e à sua discussão em Berachot 16a–17a — ainda não traduzida nesta biblioteca, que até o momento cobre apenas 2a–13b, dedicados majoritariamente às leis de leitura do Shemá (interrupções, intenção e postura) e não à isenção do noivo; por isso não há, no momento, um link cruzado direto para um daf já publicado do Bavli.