O daf 4a completa, logo de início, a identificação bíblica dos conselheiros de Davi iniciada em 3b — Benaiáhu e Evyatar correspondendo ao Sanhedrin e ao Urim veTumim — e acrescenta um segundo versículo, de Salmos 57, como prova independente de que a harpa de Davi o despertava à meia-noite. A Guemará então revisita, com duas soluções finais (Rabi Zeira e Rav Ashi), toda a discussão sobre se Davi e Moshé sabiam com exatidão o instante da meia-noite. Um longo excurso sobre a piedade de Davi ocupa o centro do daf: por que ele se chamava "chassid", seu costume de julgar casos de pureza ritual com as próprias mãos, sua humildade ao consultar Mefivoshet mesmo sendo rei, e a origem dos nomes de seus filhos Kilav/Daniel. A Guemará então examina uma segunda faceta da piedade de Davi — sua incerteza sobre o próprio mérito, ilustrada por um paralelo com o medo de Yaacov mesmo após a promessa divina, e uma baraita sobre as duas entradas em Israel. O daf termina abrindo o debate sobre a opinião dos Sábios no tempo do Shemá noturno — sugya que continuará no daf seguinte.
"Benaiáhu, filho de Yehoyadá" — este é o Sanhedrin. "E Evyatar" — este é o Urim veTumim.
"Benaiáhu, filho de Yehoyadá — este é o Sanhedrin" — pois ele era o presidente do tribunal.
"E Evyatar — este é o Urim veTumim" — pois durante todos os dias de Davi consultava-se por meio de Evyatar, até a guerra de Avshalom, quando Evyatar consultou e não teve êxito, e Tzadok consultou e teve êxito — como dizemos no Séder Olam — e Evyatar foi então afastado do sacerdócio.
O daf anterior (3b) havia terminado identificando Achitofel como "o conselheiro" a partir do versículo de Crônicas sobre os assessores de Davi, e prometendo identificar também os demais nomes ali listados. Este daf cumpre a promessa de imediato: Benaiáhu ben Yehoyadá corresponde ao Sanhedrin (pois era seu presidente), e Evyatar, o sacerdote, corresponde ao Urim veTumim, o oráculo consultado por meio do sacerdote — completando a anatomia de decisão da corte de Davi já esboçada no movimento final de 3b.
E assim se diz: "e Benaiáhu, filho de Yehoyadá, estava sobre o Kereti e sobre o Peleti" (II Samuel 20:23). E por que se chamavam "Kereti" e "Peleti"? "Kereti" — porque decidiam (koretim) suas palavras (com precisão). "Peleti" — porque eram maravilhosos (mufla'im) em suas palavras. E somente depois vinha "o chefe do exército do rei, Yoav".
"E assim se diz: e Benaiáhu, filho de Yehoyadá, estava sobre o Kereti e sobre o Peleti" — ele é mencionado primeiro e antes deles (do Urim veTumim), pois primeiro se obtém autorização (do Sanhedrin), e só depois se pergunta se terão êxito (ao Urim veTumim).
"Que decidem suas palavras" — pois dizem coisas exatas e definitivas, sem diminuir nem acrescentar.
"O chefe do exército do rei era Yoav" — para conduzir os homens de guerra.
A Guemará traz um segundo versículo, que chama o mesmo Benaiáhu de chefe do "Kereti uPeleti" — títulos que a própria Guemará explica por meio de trocadilho: "Kereti" porque decidiam suas palavras com precisão cortante, "Peleti" porque essas palavras eram maravilhosas. A ordem do versículo confirma a sequência de consulta já vista no fim de 3b: primeiro o Sanhedrin (Benaiáhu), depois o Urim veTumim (Evyatar), e só por último — depois de obtida a autorização religiosa e o oráculo favorável — o general Yoav era instruído a mobilizar as tropas.
Disse Rav Yitzchak bar Adá, e há quem diga que disse Rav Yitzchak, filho de Rav Idi: qual é o versículo (que prova que a harpa despertava Davi à meia-noite)? "Desperta, minha glória; desperta, harpa e lira; eu despertarei a alva" (Salmos 57:9).
"Qual é o versículo" — de que a harpa estava pendurada acima da sua cama e o despertava.
"Desperta, minha glória" — não te honres com o sono, como os demais reis.
"Eu despertarei a alva" — os demais reis, a alva os desperta; mas eu desperto a alva.
Como prova independente do episódio da harpa já narrado por completo em 3b (Movimento 17), a Guemará traz agora um versículo dos próprios Salmos: "desperta, harpa e lira" mostra que o instrumento já vinha tocando e despertando Davi antes que ele mesmo precisasse se levantar; e "eu despertarei a alva" — não o contrário — mostra, segundo Rashi, a extraordinária disposição de Davi, que se antecipava ao amanhecer em vez de ser despertado por ele, como fazem os demais reis.
Rabi Zeira disse: Moshé certamente sabia (a hora exata da meia-noite), e Davi também sabia.
O daf 3b havia deixado em aberto, sem resposta direta, a pergunta se Davi realmente sabia identificar o instante exato da meia-noite (visto que nem Moshé, segundo o texto de Êxodo, parecia sabê-lo com precisão — daí a harpa como sinal). Rabi Zeira agora propõe uma solução inteiramente diferente: na verdade, tanto Moshé quanto Davi sabiam com exatidão a hora da meia-noite — a questão, portanto, muda de figura, e passa a ser: se ambos sabiam, por que Davi precisava da harpa, e por que Moshé disse apenas "por volta da meia-noite"?
E, uma vez que Davi sabia (a hora exata), para que precisava da harpa? Para despertá-lo do seu sono.
A primeira das duas dificuldades levantadas pela posição de Rabi Zeira é resolvida com simplicidade: se Davi sabia exatamente quando era meia-noite, o conhecimento por si só não bastava para acordá-lo — ele ainda precisava de um estímulo físico que o tirasse do sono no instante certo, e é essa a função da harpa, e não a de lhe revelar a hora.
E, uma vez que Moshé sabia (a hora exata), por que disse "por volta da meia-noite"? Moshé considerou: para que não errassem os astrólogos de Faraó, e dissessem "Moshé é um mentiroso". Pois disse o Mestre: acostuma a tua língua a dizer "eu não sei", para que não te enganes e sejas apanhado (em contradição).
"Para que não errassem os astrólogos de Faraó" — mesmo que eu (Moshé) saiba calcular a hora com precisão, eles não sabem calculá-la com precisão; e antes de chegar a meia-noite pensarão que já chegou, e a praga ainda não terá vindo, e dirão "Moshé é um mentiroso" — por isso é melhor usar a expressão "eu não sei" (uma aproximação).
"Pois disse o Mestre" — no tratado Derech Eretz.
"E sejas apanhado" — sejas preso e tropeces nas tuas próprias palavras.
A segunda dificuldade é resolvida de forma mais sutil: Moshé sabia exatamente a hora, mas disse apenas "por volta da meia-noite" por prudência — temendo que os astrólogos egípcios, incapazes de calcular a hora com a mesma precisão, se enganassem sobre o instante exato e, ao ver que a praga ainda não havia começado num momento que julgavam ser a meia-noite, acusassem Moshé de mentiroso. A máxima citada — "acostuma a tua língua a dizer 'eu não sei'" — vale como princípio geral de cautela retórica, evitando comprometer-se com afirmações que terceiros poderiam contestar por erro próprio de cálculo.
Rav Ashi disse: (Moshé) estava (falando) na metade da noite do dia treze, entrando no catorze, e assim disse Moshé a Israel: disse o Santo, Bendito Seja: amanhã, na hora igual à meia-noite de hoje, eu sairei pelo meio do Egito.
"(A noite) do treze, amanhecendo o catorze" — a noite em que já passara o dia treze, e no dia seguinte chegaria o catorze.
Rav Ashi propõe uma terceira solução, que dissolve a própria pergunta: Moshé pronunciou sua profecia precisamente à meia-noite da véspera (entre o dia treze e o catorze de Nissan), e disse a Israel, em nome de D'us, que a praga viria "amanhã, na hora como esta meia-noite de agora" — uma comparação exata com o instante presente, não uma aproximação vaga. Assim, a palavra "por volta" (ka-) não expressa incerteza alguma, mas uma equivalência precisa entre duas meias-noites consecutivas — e a dificuldade original nunca existiu.
"De Davi: guarda a minha alma, pois sou piedoso" (Salmos 86:1-2). Levi e Rabi Yitzchak (debateram este versículo). Um disse: assim dizia Davi diante do Santo, Bendito Seja: Senhor do universo, não sou eu piedoso? Pois todos os reis do oriente e do ocidente dormem até a terceira hora, e eu (digo): "à meia-noite me levanto para agradecer-te" (Salmos 119:62).
A Guemará abre um novo bloco, ainda sobre Davi, mas voltado agora para o sentido da sua "piedade" (chassidut) — palavra com que ele próprio se descreve em Salmos 86. Levi e Rabi Yitzchak discordam sobre o que fundamenta essa autodescrição. A primeira opinião liga-a diretamente ao tema que o daf já vinha desenvolvendo: enquanto os reis das nações dormem até tarde, Davi se levantava à meia-noite para agradecer a D'us — a mesma disciplina noturna da harpa, agora lida como prova de piedade excepcional.
E o outro disse: assim dizia Davi diante do Santo, Bendito Seja: Senhor do universo, não sou eu piedoso? Pois todos os reis do oriente e do ocidente sentam-se em grupos, cercados pela sua própria honra, e eu tenho as mãos sujas de sangue, e de shafir, e de placenta, a fim de purificar uma mulher para o seu marido. E não somente isto, mas tudo o que faço, consulto com Mefivoshet, meu mestre, e lhe digo: "Mefivoshet, meu mestre, julguei bem? Condenei bem? Absolvi bem? Declarei puro bem? Declarei impuro bem?" — e não me envergonhei.
"As mãos sujas de sangue" — pois as mulheres lhe mostravam sangue de menstruação, para saber se era impuro ou puro, pois há tonalidades de sangue que são puras numa mulher.
"E de shafir" — é a membrana do feto, na qual os ossos, os tendões e a carne estão preservados. Há um shafir pelo qual a mulher observa dias de impureza e dias de pureza, que é o (shafir) formado (com feições reconhecíveis) — e no tratado Nidá (24b) isto é explicado; e há um shafir cheio apenas de água e sangue, que não é considerado um nascimento para efeito de impureza de parturiente e seus dias de pureza.
"E de placenta" — pois aprendemos ali (Nidá 26) que não há placenta sem feto; e ela é como uma espécie de veste em que o feto repousa, chamada em língua estrangeira. E foi ensinado ali que a placenta não é menor que um tefach, e o seu início é como um fio da trama e o seu fim como um tremoço; e traziam-na diante dele para ver se tinha o tamanho exigido, e se estava formada como convém a uma placenta, de modo que se pudesse presumir que havia um feto dentro dela que se dissolveu, e ela (a mulher) observaria por causa disso os dias de impureza e pureza, ou não.
"Absolvi e condenei" — refere-se às leis monetárias e às leis capitais.
"Declarei impuro e declarei puro" — nas leis de impureza e pureza.
A segunda opinião localiza a piedade de Davi não na vigília noturna, mas numa humildade ainda mais surpreendente: em vez de se cercar da pompa reservada aos reis, Davi sujava as próprias mãos examinando pessoalmente casos de pureza menstrual e de perda gestacional das mulheres do seu povo — tarefa delicada e nada régia — a fim de permitir que retomassem a vida conjugal. E, mais notável ainda, submetia todas as suas decisões, em todas as áreas da lei, ao escrutínio de Mefivoshet, seu próprio súdito e neto de Shaul, sem qualquer constrangimento em ser corrigido por ele.
Disse Rabi Yehoshua, filho de Rav Idi: qual é o versículo? "E falarei dos teus testemunhos perante reis, e não me envergonharei" (Salmos 119:46).
Um versículo adicional é oferecido como apoio textual à segunda leitura: Davi declara que "falava dos testemunhos de D'us perante reis" sem vergonha — aludindo tanto ao seu contraste com os reis das nações (que se cercavam de honra, enquanto ele se dedicava à Torá e à justiça) quanto à sua disposição de discutir halachá com Mefivoshet, um descendente de reis, sem temer que seus próprios erros fossem expostos.
Foi ensinado (numa Tosefta): não era "Mefivoshet" o seu nome, mas sim "Ish Boshet" era o seu nome. E por que se chamava Mefivoshet? Porque ele envergonhava (mevayesh) o rosto de Davi na halachá. Por isso, Davi mereceu que dele saísse Kilav.
"Mefivoshet" — (de "mi-pi boshet", "da sua boca, vergonha") — pelas palavras de halachá que saíam da sua boca, havia vergonha para Davi, pois às vezes ele (Davi) errava, e ele (Mefivoshet) lhe dizia: "erraste".
"Por isso" — pelo mérito de que Davi se diminuía a si mesmo (aceitando a correção), ele mereceu que dele saísse Kilav.
A Guemará explica agora a etimologia do próprio nome "Mefivoshet": seu nome verdadeiro era Ish Boshet, mas passou a ser chamado Mefivoshet — "da sua boca, vergonha" — porque suas correções halachicas, ainda que corretas, causavam constrangimento a Davi. E é precisamente por Davi ter aceitado essa vergonha com humildade, sem se ressentir, que ele foi recompensado com um filho de sabedoria excepcional: Kilav.
E disse Rabi Yochanan: não era "Kilav" o seu nome, mas sim "Daniel" era o seu nome. E por que se chamava Kilav? Porque envergonhava (machlim) o rosto de Mefivoshet na halachá.
"Mas Daniel era o seu nome" — num lugar (a Escritura) diz: "e o segundo, Kilav, de Avigail, mulher de Naval" etc. (II Samuel 3:3); e noutro lugar diz: "e o segundo, Daniel, de Avigail" (I Crônicas 3:1) — (mostrando que é a mesma pessoa com dois nomes).
"Que envergonhava o rosto de Mefivoshet" — (o nome Kilav contém a palavra "av", pai/mestre, pois) todo aquele que envergonha o mestre, que era o "pai" nas decisões halachicas, (recebe tal nome).
Rabi Yochanan acrescenta uma camada à mesma dinâmica: o filho de Davi conhecido como Kilav — comparando duas listagens bíblicas paralelas (II Samuel e I Crônicas), este era, na verdade, seu nome adicional; seu nome principal era Daniel — recebeu o apelido de Kilav porque, tendo herdado a mesma agudeza halachica exibida por Davi diante de Mefivoshet, ele próprio chegou a corrigir e envergonhar Mefivoshet, seu antigo mestre, nas questões de lei.
E sobre ele (Kilav/Daniel) disse Salomão na sua sabedoria: "meu filho, se o teu coração for sábio, o meu coração também se alegrará" (Provérbios 23:15). E diz: "sê sábio, meu filho, e alegra o meu coração, e responderei uma palavra àquele que me insulta" (Provérbios 27:11).
A Guemará encerra o excurso genealógico com dois versículos de Provérbios que, segundo a tradição, referem-se a este mesmo filho sábio de Davi: Salomão — irmão de Kilav — teria composto esses versículos celebrando o orgulho de ter um irmão cuja sabedoria capacitava a família a responder com dignidade a qualquer desafiante ou zombador em matéria de Torá.
Mas Davi chamava a si mesmo de "piedoso"? Ora, não está escrito: "se eu não tivesse (lulê) acreditado que veria a bondade de D'us na terra dos vivos" (Salmos 27:13)? E foi ensinado em nome de Rabi Yossei: por que há pontos sobre "lulê"? Disse Davi diante do Santo, Bendito Seja: Senhor do universo, tenho confiança em Ti de que pagarás boa recompensa aos justos no porvir, mas não sei se tenho parte entre eles ou não!
"Se eu não tivesse acreditado que veria a bondade de D'us" — já me expulsaram do teu temor (do reconhecimento de D'us), como está dito: "pois me expulsaram hoje de me apegar à herança de D'us, dizendo: vai, serve" etc. (I Samuel 26:19).
"Há pontos sobre 'lulê'" — para expor, pela pontuação, que ela diminui o sentido do versículo, dizendo que não era certo para ele (Davi) ver a bondade de D'us. "Lulê" tem o sentido de "se não", como em "se não fosse o D'us de meu pai... estaria comigo" (Gênesis 31:42).
A Guemará passa agora a questionar a própria premissa dos dois blocos anteriores: como Davi podia chamar-se "piedoso" (Salmos 86) se, noutro versículo (Salmos 27), ele próprio expressa incerteza sobre se teria mérito para ver "a bondade de D'us na terra dos vivos"? Os pontos massoréticos sobre a palavra "lulê" ("se não") sinalizam, segundo a tradição, uma reserva real: Davi confiava plenamente na recompensa futura dos justos em geral, mas duvidava sinceramente do seu próprio lugar entre eles — uma dúvida que parece incompatível com a autoconfiante declaração de piedade vista antes.
(A resposta:) para que não fosse causa disso o pecado (futuro).
"Para que não fosse causa o pecado" — esta é a resolução: sempre esteve firme em sua mão (a certeza) de que era piedoso; e a dúvida que tinha sobre se veria a bondade de D'us era porque temia que viesse a pecar (no futuro), e que esse pecado fosse a causa de não ver essa bondade.
A contradição se dissolve: Davi nunca duvidou da sua própria piedade presente — disso ele tinha plena certeza. A incerteza expressa em Salmos 27 dizia respeito exclusivamente ao futuro: o temor de que um pecado ainda por vir pudesse comprometer o mérito já acumulado. Não é falta de confiança na própria retidão atual, mas humildade diante da fragilidade humana permanente diante do pecado.
Como (opinava) Rabi Yaacov bar Idi, pois Rabi Yaacov bar Idi apontou uma contradição: está escrito "e eis que estou contigo, e te guardarei por onde quer que fores" (Gênesis 28:15), e está escrito "e Yaacov temeu muito" (Gênesis 32:8). Disse (Yaacov): para que não fosse causa disso o pecado.
"E Yaacov temeu" — talvez, depois da promessa, eu tenha pecado; e conforme foi ensinado numa baraita, o pecado é causa de a promessa (divina) não se cumprir.
A Guemará apoia essa leitura com um paralelo exato na Torá: Yaacov recebera de D'us a promessa explícita de proteção ("estarei contigo e te guardarei"), e ainda assim, ao saber que Essav vinha ao seu encontro, "temeu muito" — precisamente porque temia que um pecado cometido depois de receber a promessa pudesse anular a garantia divina. O mesmo padrão psicológico e teológico se aplica a Davi: a certeza da promessa não elimina o temor legítimo de que atos futuros a comprometam.
Como foi ensinado (numa baraita): "até que passe o teu povo, D'us; até que passe este povo que adquiriste" (Êxodo 15:16).
A Guemará traz a fonte tanaítica que fundamenta a afirmação de que "o pecado pode causar" o não cumprimento de uma promessa divina: um versículo do Cântico do Mar, com uma aparente redundância — "até que passe o teu povo" e, logo em seguida, "até que passe este povo que adquiriste" — que a baraita está prestes a interpretar como referência a dois eventos distintos.
"Até que passe o teu povo, D'us" — esta é a primeira entrada (em Israel, nos dias de Yehoshua). "Até que passe este povo que adquiriste" — esta é a segunda entrada (nos dias de Ezra). Daqui disseram os Sábios: Israel era digno de que se fizesse por ele um milagre nos dias de Ezra, da mesma forma que se fez por ele nos dias de Yehoshua bin Nun. Mas o pecado foi a causa (de o milagre não se realizar).
"A primeira entrada" — a que ocorreu nos dias de Yehoshua.
"A segunda entrada" — quando subiram do exílio da Babilônia, nos dias de Ezra.
"Eram dignos de que se fizesse por eles um milagre" — de vir com mão erguida (triunfante, sem sujeição estrangeira).
"Mas o pecado foi a causa" — e não foram (a Israel) senão com a permissão de Coresh, e durante todos os dias dos reis da Pérsia ficaram sujeitos a eles — a Coresh, a Achashverosh e ao último Dario.
A baraita interpreta o versículo aparentemente redundante como referência a duas entradas distintas na Terra de Israel: a primeira, nos dias de Yehoshua, e a segunda, no retorno do exílio babilônico liderado por Ezra. Os Sábios concluem que Israel merecia, na segunda entrada, um milagre da mesma magnitude do que ocorrera na primeira — mas o pecado impediu que isso se realizasse, e o povo permaneceu sujeito à autorização e ao domínio dos reis persas. Esta é exatamente a prova concreta de que "o pecado pode causar" a anulação de uma promessa ou de um mérito esperado — fechando o argumento aberto no Movimento 15 sobre o temor de Davi e de Yaacov.
"E os Sábios dizem: até a meia-noite" — segundo a opinião de quem sustentam os Sábios (esta posição)? Se sustentam como Rabi Eliézer (quanto ao sentido de "ao deitar-te"), que digam então (a mesma medida) de Rabi Eliézer (até o fim da primeira vigília)!
"Segundo a opinião de quem sustentam os Sábios" — quanto ao sentido de "ao deitar-te", mencionado na Torá.
"Se sustentam como Rabi Eliézer" — que entende "ao deitar-te" como todo o tempo em que as pessoas costumam ir e deitar-se, uns mais cedo, outros mais tarde.
"Que digam como Rabi Eliézer" — que disse "até o fim da primeira vigília", pois certamente todo aquele que pretende dormir já se deitou e está dormindo (a essa hora).
Encerrado o longo excurso sobre Davi, Moshé e a piedade, a Guemará retorna finalmente à Mishná de abertura da massechet, agora para examinar a terceira opinião ali registrada: a dos Sábios, que fixam o limite do Shemá noturno "até a meia-noite" — posição intermediária entre Rabi Eliézer (até o fim da primeira vigília) e Rabán Gamliel (até a alva). A Guemará levanta uma dificuldade lógica: se os Sábios interpretam o versículo "ao deitar-te" da mesma forma que Rabi Eliézer — como o período em que as pessoas em geral se deitam —, então deveriam ter fixado o mesmo limite que ele, o fim da primeira vigília, e não a meia-noite. Esta pergunta abre a sugya que o daf seguinte, 4b, continuará a desenvolver.
Como explicado em 2b, 3a e 3b, a halachá 1:1 do Yerushalmi — correspondente à Mishná de abertura de Berachot — já foi apresentada por completo na página 2a, incluindo a versão paralela da harpa de Davi ali comparada com o Bavli em 3b. A halachá 1:2, conferida diretamente nas fontes também para este daf, continua a tratar exclusivamente de temas do Shemá matinal: a distinção entre os fios azul e branco do tzitzit, o ensino de que quem cumpre o preceito do tzitzit é como quem recebe a Presença Divina, o alcance da visão a quatro amot de distância para reconhecer um conhecido, e o episódio de Rabi Yehudá caminhando atrás de Rabi Elazar ben Azaryá e Rabi Akiva. Nada disso guarda relação com o conteúdo deste daf 4a do Bavli, que completa a identificação dos conselheiros de Davi, examina a harpa e a meia-noite, e desenvolve o longo excurso sobre a piedade de Davi, Mefivoshet e Kilav. Portanto, honestamente: a halachá 1:2 do Yerushalmi ainda não é relevante aqui — permanece em território temático diferente, como já ocorria em 3b, e só voltará a dialogar com o Bavli mais adiante. Esta página, como as anteriores desde 2b, é dedicada por inteiro ao Bavli.
O daf 4a abre completando, com dois movimentos, o que 3b havia deixado pendente: a identificação plena dos conselheiros de Davi (Benaiáhu como o Sanhedrin, Evyatar como o Urim veTumim) e um segundo versículo bíblico, de Salmos 57, confirmando o episódio da harpa. Em seguida, a Guemará oferece duas soluções finais — de Rabi Zeira e de Rav Ashi — para a questão, aberta em 3b, de saber se Davi e Moshé conheciam com exatidão o instante da meia-noite. O centro do daf é ocupado por um extenso excurso sobre a piedade de Davi: seu costume de levantar-se à noite, sua disposição de examinar pessoalmente casos de pureza ritual, sua humildade ao consultar Mefivoshet como discípulo, e a origem dos nomes de seus filhos Kilav (Daniel). A Guemará então questiona essa própria piedade, à luz de um versículo em que Davi expressa incerteza sobre o próprio mérito futuro — resolvida com o paralelo do temor de Yaacov e uma baraita sobre as duas entradas em Israel. O daf termina retomando finalmente a Mishná: por que os Sábios fixaram "até a meia-noite" como limite do Shemá noturno, uma pergunta que ficará para o daf seguinte.
Como em 3b, não há neste daf nenhum trecho novo do Yerushalmi relevante: a halachá 1:1 já foi esgotada em 2a, e a halachá 1:2 continua inteiramente dedicada ao Shemá matinal — tzitzit, quatro amot, e o episódio de Rabi Yehudá com Rabi Elazar ben Azaryá e Rabi Akiva — sem qualquer ponto de contato com a identificação dos conselheiros de Davi, a piedade davídica ou Mefivoshet. Diferentemente de 3b, este daf não tem sequer o encontro retroativo pontual da harpa (já plenamente coberto ali); aqui a única menção à harpa é uma prova textual adicional dentro do próprio Bavli.
Há um movimento de câmera notável neste daf: ele começa no registro público e institucional — os conselheiros de Davi, o Sanhedrin, o Urim veTumim, a cadeia de decisão antes da guerra — e termina no registro mais íntimo possível: a consciência de um rei que se deixava corrigir pelo próprio súdito, que temia o próprio pecado futuro apesar de toda promessa divina, e cuja piedade convivia, sem contradição real, com uma humildade radical diante de D'us.
Assim como em 3b, este daf permanece dedicado quase por inteiro ao Bavli: a halachá do Yerushalmi correspondente à mesma Mishná já foi esgotada em 2a, e a halachá seguinte já mudou de assunto há dois dapim. A comparação seguirá honestamente assimétrica até que os dois Talmudim voltem a tratar do mesmo ponto da Mishná — o que, como já indicado, ainda está por vir.