Massechet Berachot · Perek Alef · Estudo Comparado
מֵאֵימָתַי

A partir de quando se recita o Shemá à noite?

Bavli 2a (completo)  ‖  Yerushalmi 1:1 (completo)

Neste daf, o Bavli interroga a própria Mishná — de onde ela parte, por que ordena a noite antes da manhã — antes de fixar o sinal do anoitecer (a saída das estrelas) e extrair dele duas lições escondidas. O Yerushalmi testa esse mesmo sinal contra outro costume, resolve de forma direta por que se lê o Shemá na sinagoga antes da hora, e segue por caminhos que o Bavli não toca neste daf: um excurso cosmológico, a harpa de Davi tocada à meia-noite, e o paralelo com a dúvida em outros preceitos.

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

מֵאֵימָתַי קוֹרִין אֶת שְׁמַע בָּעֲרָבִין? מִשָּׁעָה שֶׁהַכֹּהֲנִים נִכְנָסִים לֶאֱכוֹל בִּתְרוּמָתָן, עַד סוֹף הָאַשְׁמוּרָה הָרִאשׁוֹנָה, דִּבְרֵי רַבִּי אֱלִיעֶזֶר. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, עַד חֲצוֹת. רַבָּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר, עַד שֶׁיַּעֲלֶה עַמּוּד הַשָּׁחַר. מַעֲשֶׂה שֶׁבָּאוּ בָנָיו מִבֵּית הַמִּשְׁתֶּה, אָמְרוּ לוֹ, לֹא קָרִינוּ אֶת שְׁמַע. אָמַר לָהֶם, אִם לֹא עָלָה עַמּוּד הַשַּׁחַר, חַיָּבִין אַתֶּם לִקְרוֹת. וְלֹא זוֹ בִּלְבַד, אֶלָּא כָּל מַה שֶּׁאָמְרוּ חֲכָמִים עַד חֲצוֹת, מִצְוָתָן עַד שֶׁיַּעֲלֶה עַמּוּד הַשָּׁחַר. הֶקְטֵר חֲלָבִים וְאֵבָרִים, מִצְוָתָן עַד שֶׁיַּעֲלֶה עַמּוּד הַשָּׁחַר. וְכָל הַנֶּאֱכָלִים לְיוֹם אֶחָד, מִצְוָתָן עַד שֶׁיַּעֲלֶה עַמּוּד הַשָּׁחַר. אִם כֵּן, לָמָּה אָמְרוּ חֲכָמִים עַד חֲצוֹת — כְּדֵי לְהַרְחִיק אֶת הָאָדָם מִן הָעֲבֵרָה.
A partir de quando se recita o Shemá à noite? Desde a hora em que os kohanim entram para comer da sua terumá, até o fim da primeira vigília — palavras de Rabi Eliézer. E os Sábios dizem: até a meia-noite. Rabán Gamliel diz: até que suba a coluna da alva. Certa vez, seus filhos voltaram de uma casa de festa e lhe disseram: "Não recitamos o Shemá." Ele lhes disse: "Se ainda não subiu a coluna da alva, sois obrigados a recitá-lo." E não somente isto — tudo o que os Sábios disseram "até a meia-noite", o seu preceito se estende, na verdade, até que suba a coluna da alva. A queima das gorduras e dos membros — o seu preceito se estende até que suba a coluna da alva. E tudo o que se come num só dia — o seu preceito se estende até que suba a coluna da alva. Se é assim, por que disseram os Sábios "até a meia-noite"? — Para afastar o homem da transgressão.
Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Mishná, Bavli 2a
מֵאֵימָתַי קוֹרִין אֶת שְׁמַע בָּעֲרָבִין. מִשָּׁעָה שֶׁהַכֹּהֲנִים נִכְנָסִים לֶאֱכוֹל בִּתְרוּמָתָן — כֹּהֲנִים שֶׁנִּטְמְאוּ וְטָבְלוּ וְהֶעֱרִיב שִׁמְשָׁן וְהִגִּיעַ עִתָּם לֶאֱכוֹל בִּתְרוּמָה.

"A partir de quando se recita o Shemá à noite? Desde a hora em que os sacerdotes entram para comer da sua terumá" — sacerdotes que se tornaram impuros e se imergiram, e o seu sol já se pôs, e chegou o momento de comerem da terumá.

עַד סוֹף הָאַשְׁמוּרָה הָרִאשׁוֹנָה — שְׁלִישׁ הַלַּיְלָה, כִּדְמְפָרֵשׁ בַּגְּמָרָא (דַּף ג.). וּמִשָּׁם וָאֵילָךְ עָבַר זְמַן דְּלָא מִיקְּרֵי תּוּ זְמַן שְׁכִיבָה, וְלָא קָרִינַן בֵּיהּ "בְּשָׁכְבְּךָ", וּמִקַּמֵּי הָכִי נַמִי לָאו זְמַן שְׁכִיבָה, לְפִיכָךְ הַקּוֹרֵא קוֹדֶם לָכֵן לֹא יָצָא יְדֵי חוֹבָתוֹ. אִם כֵּן, לָמָּה קוֹרִין אוֹתָהּ בְּבֵית הַכְּנֶסֶת? כְּדֵי לַעֲמוֹד בִּתְפִלָּה מִתּוֹךְ דִּבְרֵי תוֹרָה, וְהָכִי תַּנְיָא בִּבְרַיְתָא בְּבֵרָכוֹת יְרוּשַׁלְמִי.

"Até o fim da primeira vigília" — um terço da noite, como se explica na Guemará (folha 3a). E dali em diante já passou o tempo que não se chama mais "tempo de deitar", e não se lê nele "ao deitar-te"; e antes disso também não é "tempo de deitar" — por isso, quem lê antes disso não cumpriu a sua obrigação. Se é assim, por que a lemos na sinagoga? Para permanecer em pé na oração a partir de palavras de Torá — e assim foi ensinado numa baraita, no Talmud Yerushalmi de Berachot. (Rashi já indica aqui, ao comentar a própria Mishná, a mesma pergunta e resposta que o Talmud Yerushalmi traz como sugya independente — ver Movimento 5, abaixo.)

A Guemará · הַגְּמָרָא

01Onde o tanná se apoia, e por que a noite vem primeiro
Bavli · 2a
גְּמָ׳ תַּנָּא הֵיכָא קָאֵי דְּקָתָנֵי ״מֵאֵימָתַי״?

Guemará. Onde se apoia o tanná, que já ensina "a partir de quando"?

וְתוּ: מַאי שְׁנָא דְּתָנֵי בְּעַרְבִית בְּרֵישָׁא? לִתְנֵי דְּשַׁחֲרִית בְּרֵישָׁא!

E mais: o que há de diferente, que ensina primeiro a leitura da noite? Que ensine primeiro a da manhã!

O caminho do debate

O Bavli abre com uma pergunta sobre a própria estrutura da Mishná — de onde ela parte, e por que despreza a ordem natural (manhã antes da noite). O Yerushalmi não tem esse tipo de abertura metodológica; começa direto na substância.

02Duas respostas: o versículo do deitar-te, e a ordem da Criação
Bavli · 2a
תַּנָּא אַקְּרָא קָאֵי, דִּכְתִיב: ״בְּשָׁכְבְּךָ וּבְקוּמֶךָ״. וְהָכִי קָתָנֵי: זְמַן קְרִיאַת שְׁמַע דִּשְׁכִיבָה אֵימַת? — מִשָּׁעָה שֶׁהַכֹּהֲנִים נִכְנָסִין לֶאֱכוֹל בִּתְרוּמָתָן.

O tanná apoia-se no versículo, pois está escrito: "ao deitar-te e ao levantar-te". E assim ensina: o tempo da leitura do Shemá do deitar-se, quando é? — Desde a hora em que os sacerdotes entram para comer da sua terumá.

וְאִי בָּעֵית אֵימָא: יָלֵיף מִבְּרִיָּיתוֹ שֶׁל עוֹלָם, דִּכְתִיב: ״וַיְהִי עֶרֶב וַיְהִי בֹקֶר יוֹם אֶחָד״.

E, se quiseres, dize: aprende-o da criação do mundo, pois está escrito: "e foi tarde e foi manhã, dia um".

O caminho do debate

Duas provas independentes, ambas exclusivas do Bavli, para uma mesma conclusão: a Torá oral espelha a Torá escrita ("ao deitar-te" primeiro), e ambas espelham a ordem do mundo ("foi tarde e foi manhã"). O Yerushalmi assume o mesmo princípio de fundo — o versículo "ao deitar-te" — mas sem construir esta camada argumentativa sobre a ordem da própria Mishná.

03A ordem da própria Mishná: por que voltar à noite depois da manhã?
Bavli · 2a
אִי הָכִי, סֵיפָא דְּקָתָנֵי ״בַּשַּׁחַר מְבָרֵךְ שְׁתַּיִם לְפָנֶיהָ וְאַחַת לְאַחֲרֶיהָ, בָּעֶרֶב מְבָרֵךְ שְׁתַּיִם לְפָנֶיהָ וּשְׁתַּיִם לְאַחֲרֶיהָ״, לִתְנֵי דְּעַרְבִית בְּרֵישָׁא!

Se é assim, o final da Mishná, que ensina "pela manhã abençoa duas antes dela e uma depois dela; à noite abençoa duas antes dela e duas depois dela" — que ensine primeiro a da noite!

תַּנָּא פָּתַח בְּעַרְבִית, וַהֲדַר תָּנֵי בְּשַׁחֲרִית, עַד דְּקָאֵי בְּשַׁחֲרִית, פָּרֵישׁ מִילֵּי דְשַׁחֲרִית, וַהֲדַר פָּרֵישׁ מִילֵּי דְעַרְבִית.

O tanná começou pela noite, e depois ensinou a manhã; e, uma vez tratando da manhã, explicou primeiro todos os detalhes da manhã — e só depois voltou a explicar os detalhes da noite.

O caminho do debate

Um momento em que o Bavli interroga a própria arte de compor da Mishná — por que ela entrelaça noite e manhã em vez de tratar cada uma de uma vez. É um tipo de pergunta (sobre a forma do texto, não sobre a lei) que simplesmente não aparece no registro do Yerushalmi.

04O sinal do anoitecer: a saída das estrelas
Bavli · 2a
אָמַר מָר מִשָּׁעָה שֶׁהַכֹּהֲנִים נִכְנָסִים לֶאֱכוֹל בִּתְרוּמָתָן. מִכְּדִי כֹּהֲנִים אֵימַת קָא אָכְלִי תְּרוּמָה? — מִשְּׁעַת צֵאת הַכּוֹכָבִים, לִתְנֵי: ״מִשְּׁעַת צֵאת הַכּוֹכָבִים״!

Disse o Mestre: "desde a hora em que os sacerdotes entram para comer da sua terumá." Ora, quando comem os sacerdotes da terumá? — Desde a hora da saída das estrelas. Que ensine, então: "desde a hora da saída das estrelas"!

מִלְּתָא אַגַּב אוֹרְחֵיהּ קָמַשְׁמַע לַן — כֹּהֲנִים אֵימַת קָא אָכְלִי בִּתְרוּמָה — מִשְּׁעַת צֵאת הַכּוֹכָבִים. וְהָא קָמַשְׁמַע לַן דְּכַפָּרָה לָא מְעַכְּבָא. כִּדְתַנְיָא: ״וּבָא הַשֶּׁמֶשׁ וְטָהֵר״ — בִּיאַת שִׁמְשׁוֹ מְעַכַּבְתּוֹ מִלֶּאֱכוֹל בִּתְרוּמָה, וְאֵין כַּפָּרָתוֹ מְעַכַּבְתּוֹ מִלֶּאֱכוֹל בִּתְרוּמָה.

Ensina-nos algo de passagem: quando comem os sacerdotes da terumá — desde a hora da saída das estrelas. E também nos ensina que a expiação não retém. Como foi ensinado: "e se pôs o sol, e ficará puro" — o pôr do seu sol o retém de comer da terumá, mas a sua expiação não o retém de comer da terumá.

וּמִמַּאי דְּהַאי ״וּבָא הַשֶּׁמֶשׁ״ בִּיאַת הַשֶּׁמֶשׁ, וְהַאי ״וְטָהֵר״ — טְהַר יוֹמָא?

E de onde se sabe que este "e se pôs o sol" significa o pôr do sol, e este "e ficará puro" significa a purificação do dia? (A Guemará prossegue esta prova no daf seguinte, 2b.)

Yerushalmi · 1:1
אִיתָא חָמֵי מִשָּׁעָה שֶׁהַכֹּהֲנִים נִכְנָסִין לוֹכַל בִּתְּרוּמָתָן יְמָמָא הוּא וְעִם כּוֹכְבַיָּא הוּא. מִשָּׁעָה שֶּׁדֶּרֶךְ בְּנֵי אָדָם נִכְנָסִין לֶאֱכוֹל פִּתָּן בְּלֵילֵי שַׁבָּת שָׁעָה וְתַרְתֵּי לֵיְלִיָּא הוּא. וְאַתְּ אָמַר קְרוֹבִים דִּבְרֵיהֶן לִהְיוֹת שָׁוִין. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי תִּיפְתָּר בְּאִילֵּין כּוּפְרָנַיָּא דְקִיקַיָּיא דְּאוֹרְחֵיהוֹן מִסְתַּלְּקָא עַד דְּהוּא יְמָמָא דְצָדִי לוֹן מִיקַּמֵּי חַיּוּתָא.

Eis: "desde a hora em que os sacerdotes entram para comer da sua terumá" — é de dia, ou é com as estrelas? "Desde a hora em que as pessoas costumam entrar para comer o seu pão nas noites de Shabat" — é uma ou duas horas da noite. E dizes que as suas palavras são próximas de serem iguais? Disse Rabi Yossei: explica-se isto pelas pequenas aldeias, cujo costume é recolher-se ainda de dia, para se protegerem dos animais selvagens antes deles.

O caminho do debate

Os dois textos concordam que o marco final é a saída das estrelas, mas cada um o alcança testando-o de um jeito diferente: o Bavli pergunta por que a Mishná não disse isso diretamente, e descobre duas lições escondidas na formulação escolhida; o Yerushalmi testa o próprio marco contra outra baraita (o costume das aldeias no Shabat), e precisa da explicação de Rabi Yossei para reconciliar as duas.

Yerushalmi · segue sozinho — sem paralelo no Bavli 2a
סִימָן לְדָבָר מִשֶּׁיֵּצְאוּ הַכּוֹכָבִים... כַּמָּה כוֹכָבִים יֵצְאוּ וִיהֵא לַיְלָה? רִבִּי פִינְחָס בְּשֵׁם רִבִּי אַבָּא בַּר פַּפָּא: כּוֹכָב אֶחָד וַדַּאי יוֹם. שְׁנַיִם סָפֵק לַיְלָה. שְׁלֹשָׁה וַדַּאי לַיְלָה.

Um sinal para o assunto: desde que saem as estrelas — e ainda que não haja prova, há uma alusão nele (Nechemia 4:15–16): "e fazíamos o trabalho, e metade deles empunhava as lanças desde a subida da alva até a saída das estrelas... e teremos a noite para guarda e o dia para trabalho." Quantas estrelas devem sair para que seja noite? Disse Rabi Pinchas em nome de Rabi Aba bar Papa: uma estrela, certamente é dia; duas, é dúvida se é noite; três, certamente é noite.

A partir daqui, o Yerushalmi segue por muitos parágrafos aplicando este critério de contagem de estrelas a casos concretos de responsabilidade por trabalho na véspera e na saída do Shabat, à definição precisa do bein hashmashot (crepúsculo) e a outras marcações do dia — um desenvolvimento próprio, bem mais longo e técnico do que qualquer coisa equivalente no Bavli 2a.

05Por que se lê o Shemá na sinagoga antes da hora?

Esta pergunta não é discutida pela própria Guemará no daf 2a — é Rashi, comentando a Mishná, quem a levanta e responde, citando explicitamente o Talmud Yerushalmi (ver o gloss logo após a Mishná).

Yerushalmi · 1:1
תַּנִּי הַקּוֹרֵא קוֹדֶם לָכֵן לֹא יָצָא יְדֵי חוֹבָתוֹ. אִם כֵּן לָמָּה קוֹרִין אוֹתָהּ בְּבֵית הַכְּנֶסֶת. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי אֵין קוֹרִין אוֹתָהּ בְּבֵית הַכְּנֶסֶת בִּשְׁבִיל לָצֵאת יְדֵי חוֹבָתוֹ, אֶלָּא כְדֵי לַעֲמוֹד בִּתְפִילָּה מִתּוֹךְ דָּבָר שֶׁל תּוֹרָה.

Foi ensinado: quem lê antes dessa hora não cumpriu a sua obrigação. Se assim é, por que a lemos na sinagoga? Disse Rabi Yossei: não a lemos na sinagoga para cumprir a obrigação, mas para permanecer em pé na oração a partir de uma palavra de Torá.

O caminho do debate

Aqui os dois Talmudim se tocam diretamente — mas não pelo caminho esperado. A pergunta e a resposta não pertencem à Guemará do Bavli propriamente dita: é Rashi quem as traz, ao comentar a Mishná, remetendo explicitamente à baraita do Yerushalmi. O Talmud Yerushalmi, por sua vez, trata a mesma pergunta como parte da sua própria sugya. É um raro ponto em que se pode ver, às claras, um comentador do Bavli citando o Yerushalmi para preencher algo que a Guemará de Bavli, ali, não discute.

06O paralelo da dúvida: aplicando o mesmo rigor a outros preceitos

O Bavli, no daf 2a, não desenvolve este paralelo com a dúvida (safek) em outros preceitos — é um desenvolvimento exclusivo do Yerushalmi nesta sugya.

Yerushalmi · 1:1
רִבִּי זְעִירָא בְּשֵׁם רַב יִרְמְיָה: סָפֵק בֵּירַךְ עַל מְזוֹנוֹ סָפֵק לֹא בֵּירַךְ — צָרִיךְ לְבָרֵךְ, דִּכְתִיב ״וְאָכַלְתָּ וְשָׂבָעְתָּ וּבֵרַכְתָּ״. סָפֵק הִתְפַּלֵּל סָפֵק לֹא הִתְפַּלֵּל — אַל יִתְפַּלֵּל, וּדְלֹא כְרִבִּי יוֹחָנָן, דְּאָמַר רִבִּי יוֹחָנָן: וּלְוַאי שֶׁיִּתְפַּלֵּל אָדָם כָּל הַיּוֹם כּוּלּוֹ, לָמָּה — שֶׁאֵין תְּפִילָּה מַפְסֶדֶת. סָפֵק קָרָא סָפֵק לֹא קָרָא — נִשְׁמָעֶנָּה מִן הֲדָא: הַקּוֹרֵא קוֹדֶם לָכֵן לֹא יָצָא יְדֵי חוֹבָתוֹ, וְקוֹדֶם לָכֵן לָאו סָפֵק הוּא, וְאַתְּ אָמַר צָרִיךְ לִקְרוֹת — הֲדָא אָמְרָה: סָפֵק קָרָא סָפֵק לֹא קָרָא, צָרִיךְ לִקְרוֹת.

Rabi Zeira, em nome de Rav Yirmiyá: se há dúvida se abençoou sobre o seu alimento ou não abençoou, deve abençoar — pois está escrito "e comerás, e ficarás saciado, e abençoarás". Se há dúvida se orou ou não orou, não ore novamente — e isto não é como Rabi Yochanan, pois disse Rabi Yochanan: "e quem dera que o homem orasse o dia inteiro" — por quê? Porque a oração não causa prejuízo algum. Se há dúvida se recitou ou não recitou o Shemá, ouçamos disto: "quem lê antes dessa hora não cumpriu a sua obrigação" — e antes dessa hora não há dúvida alguma, e ainda assim dizes que é preciso ler? Isto ensina: havendo dúvida se recitou ou não recitou, é preciso recitar.

O caminho do debate

A partir da mesma frase-chave ("quem lê antes não cumpriu"), o Yerushalmi constrói um princípio novo sobre dúvidas em geral — comparando o Shemá à bênção após a refeição e à oração, e concluindo que, na dúvida, o preceito deve ser repetido. É um raciocínio por analogia entre três mandamentos diferentes, característico do estilo do Yerushalmi, sem equivalente nesta passagem do Bavli.

O Yerushalmi continua · מַמְשִׁיךְ הַיְּרוּשַׁלְמִי

A partir daqui, a halachá de Berachot 1:1 do Yerushalmi segue por muitos parágrafos que não têm nenhum correspondente no Bavli 2a — nem em forma de pergunta paralela, nem em forma de silêncio comentado. Por isso, o que segue não é apresentado em colunas comparativas: é o texto do Yerushalmi sozinho, do início ao fim, na ordem em que a sugya o traz, para que a leitura de ambos os Talmudim sobre esta mesma Mishná possa ser completada — ainda que não lado a lado.

Y·21A estrela da manhã e a redenção que cresce pouco a pouco
Yerushalmi · sem paralelo no Bavli 2a
אָמַר רִבִּי יוֹסֵי בֵּי רִבִּי בּוּן הֲדָא אַיַילְתָּא דְשַׁחֲרָא, מַאן דְּאָמַר כּוֹכָבְתָא הִיא — טָעְיָא, זִימְנִין דְּהִיא מְקַדְּמָא וְזִימְנִין דְּהִיא מְאַחֲרָה. מַאי כְּדוֹן? כְּמִין תְּרֵין דֻּקוֹרְנִין דִּנְהוֹר דְּסַלְּקִין מִן מַדִּינְחָא וּמְנָהֲרִין. דֶּלְמָא רִבִּי חִיָּיא רַבָּא וְרִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן חֲלַפְתָּא הֲווֹ מְהַלְּכִין בַּהֲדָא בִּקְעַת אַרְבֵּל בִּקְרִיצְתָּא, וְרָאוּ אַיֶּלֶת הַשַּׁחַר שֶׁבָּקַע אוֹרָהּ. אָמַר רִבִּי חִיָּיא רַבָּה לְרִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן חֲלַפְתָּא, בִּירִבִּי: כַּךְ הִיא גְּאוּלָּתָן שֶׁל יִשְׂרָאֵל — בַּתְּחִילָּה קִמְאָה קִמְאָה, כָּל מַה שֶׁהִיא הוֹלֶכֶת הִיא רַבָּה וְהוֹלֶכֶת. מַאי טַעְמָא? ״כִּי אֵשֵׁב בַּחֹשֶׁךְ ה׳ אוֹר לִי״. כָּךְ בַּתְּחִילָּה: ״וּמָרְדֳּכַי יוֹשֵׁב בְּשַׁעַר הַמֶּלֶךְ״. וְאַחַר כָּךְ: ״וַיִּקַּח הָמָן אֶת הַלְּבוּשׁ וְאֶת הַסּוּס״. וְאַחַר כָּךְ: ״וַיָּשָׁב מָרְדֳּכַי אֶל שַׁעַר הַמֶּלֶךְ״. וְאַחַר כָּךְ: ״וּמָרְדֳּכַי יָצָא מִלִּפְנֵי הַמֶּלֶךְ בִּלְבוּשׁ מַלְכוּת״. וְאַחַר כָּךְ: ״לַיְּהוּדִים הָיְתָה אוֹרָה וְשִׂמְחָה״.

Disse Rabi Yossei bei Rabi Bun: quanto a esta "corça da manhã" (aiyelet hashachar) — quem diz que é uma estrela, erra; às vezes ela vem cedo e às vezes vem tarde. O que é, então? É como dois pequenos chifres de luz que sobem do oriente e iluminam. Certa vez, o grande Rabi Chiya e Rabi Shimon ben Chalafta caminhavam pelo vale de Arbel ao amanhecer, e viram a estrela da manhã cuja luz se rompia. Disse o grande Rabi Chiya a Rabi Shimon ben Chalafta, meu mestre: assim é a redenção de Israel — no início, pouco a pouco; à medida que avança, ela cresce e avança. Qual é a razão? "Quando eu me sentar nas trevas, o Eterno é a minha luz." Assim foi no início: "e Mordechai estava sentado à porta do rei." E depois: "e Haman tomou a veste e o cavalo." E depois: "e Mordechai voltou à porta do rei." E depois: "e Mordechai saiu da presença do rei com veste real." E depois: "e para os judeus houve luz e alegria."

Y·22–25A espessura do firmamento, a Árvore da Vida e a solidez dos céus
Yerushalmi · sem paralelo no Bavli 2a
וַאֲתְיָא דְּרִבִּי חֲנִינָה כְּרִבִּי יְהוּדָה, דְּתַנֵּי בְּשֵׁם רִבִּי יְהוּדָה: עָבְיוֹ שֶׁל רָקִיעַ מַהֲלַךְ חֲמִשִּׁים שָׁנָה. אָדָם בֵּינוֹנִי מְהַלֵּךְ אַרְבָּעִים מִיל בַּיּוֹם; עַד שֶׁהַחַמָּה נִכְנֶסֶת בָּרָקִיעַ מְהַלֵּךְ חֲמִשִּׁים שָׁנָה, אָדָם מְהַלֵּךְ אַרְבָּעָה מִיל. נִמְצֵאתָ אוֹמֵר שֶׁעָבְיוֹ שֶׁל רָקִיעַ אֶחָד מֵעֲשָׂרָה בַּיּוֹם. וּכְשֵׁם שֶׁעָבְיוֹ שֶׁל רָקִיעַ מַהֲלַךְ חֲמִשִּׁים שָׁנָה, כָּךְ עָבְיָהּ שֶׁל אֶרֶץ וְעָבְיוֹ שֶׁל תְּהוֹם מַהֲלַךְ חֲמִשִּׁים שָׁנָה.

E a opinião de Rabi Chanina se harmoniza com a de Rabi Yehudá, que ensinou em nome de Rabi Yehudá: a espessura do firmamento é um caminho de cinquenta anos. Um homem mediano caminha quarenta mil por dia; até que o sol entre no firmamento, num caminho de cinquenta anos, o homem caminha quatro mil. Descobre-se, então, que a espessura do firmamento é um décimo do caminho de um dia. E assim como a espessura do firmamento é um caminho de cinquenta anos, também a espessura da terra e a espessura do abismo são um caminho de cinquenta anos — pois está escrito: "que se assenta sobre o círculo da terra", e está escrito: "e traçou um círculo sobre a face do abismo"; "círculo" e "círculo" ensinam por analogia de termos.

תַּנֵּי: עֵץ הַחַיִּים מַהֲלַךְ חֲמֵשׁ מֵאוֹת שָׁנָה. אָמַר רִבִּי יְהוּדָה בֵּי רִבִּי אִלָּעַאי: לֹא סוֹף דָּבָר נוֹפוֹ — אֶלָּא אֲפִלּוּ גִּזְעוֹ. וְכָל פִּלּוּגֵי מֵי בְרֵאשִׁית מִתְפַּלְּגִין מִתַּחְתָּיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָיָה כְּעֵץ שָׁתוּל עַל פַּלְגֵי מָיִם״. תַּנֵּי: עֵץ הַחַיִּים אֶחָד מִשִּׁשִּׁים לַגָּן, וְגָן אֶחָד מִשִּׁשִּׁים לְעֵדֶן. ״וְנָהָר יֹצֵא מֵעֵדֶן לְהַשְׁקוֹת אֶת הַגָּן.״ נִמְצֵאתָ אוֹמֵר: מִצְרַיִם מַהֲלַךְ אַרְבָּעִים יוֹם, וְכוּשׁ מַהֲלַךְ שֶׁבַע שָׁנִים וָעוֹד. וְרַבָּנָן אָמְרִין: כִּימֵי הַשָּׁמַיִם עַל הָאָרֶץ — וּכְשֵׁם שֶׁבֵּין הָאָרֶץ לָרָקִיעַ מַהֲלַךְ חֲמֵשׁ מֵאוֹת שָׁנָה, כָּךְ בֵּין רָקִיעַ לָרָקִיעַ מַהֲלַךְ חֲמֵשׁ מֵאוֹת שָׁנָה, וְעָבְיוֹ מַהֲלַךְ חֲמֵשׁ מֵאוֹת שָׁנָה.

Foi ensinado: a Árvore da Vida é um caminho de quinhentos anos. Disse Rabi Yehudá bei Rabi Ilai: não somente a sua copa, mas também o seu tronco. E todas as divisões das águas da Criação se dividem debaixo dela, pois está escrito: "e será como árvore plantada junto a ribeiros de águas". Foi ensinado: a Árvore da Vida é um sessenta avos do Jardim, e o Jardim é um sessenta avos do Éden. "E um rio sai do Éden para regar o Jardim." Descobre-se, então: o Egito é um caminho de quarenta dias, e Cush é um caminho de sete anos e mais. E os Sábios dizem: como os dias do céu sobre a terra — e assim como entre a terra e o firmamento há um caminho de quinhentos anos, também entre um firmamento e outro há um caminho de quinhentos anos, e a sua espessura é um caminho de quinhentos anos.

אָמַר רִבִּי בּוּן: ״יְהִי רָקִיעַ בְּתוֹךְ הַמָּיִם״ — יְהִי רָקִיעַ בְּתָוֶךְ. רַב אָמַר: לַחִים הָיוּ שָׁמַיִם בַּיּוֹם הָרִאשׁוֹן, וּבַשֵּׁנִי קָרְשׁוּ. רַב אָמַר: ״יְהִי רָקִיעַ״ — יְחַזֵּק הָרָקִיעַ, יִקְרַשׁ הָרָקִיעַ, יִגְלֹד הָרָקִיעַ, יִמָּתַח הָרָקִיעַ. אָמַר רִבִּי יְהוּדָה בֶּן פַּזִּי: יֵעָשֶׂה כְּמִין מַטְלִית הָרָקִיעַ, כְּמָה דְּאַתְּ אָמַר: ״וַיְרַקְּעוּ אֶת פַּחֵי הַזָּהָב״ וְגוֹ׳.

Disse Rabi Bun: "haja firmamento no meio das águas" — haja firmamento no meio delas. Disse Rav: os céus estavam úmidos no primeiro dia, e no segundo se solidificaram. Disse Rav: "haja firmamento" — que o firmamento se fortaleça, que o firmamento se solidifique, que o firmamento se encouraçe, que o firmamento se estenda. Disse Rabi Yehudá ben Pazi: que o firmamento seja feito como uma espécie de lâmina estendida, como quando dizes: "e estenderam as lâminas de ouro" etc.

תַּנֵּי בְּשֵׁם רִבִּי יְהוֹשֻׁעַ: עָבְיוֹ שֶׁל רָקִיעַ כִּשְׁתֵּי אֶצְבָּעוֹת. מִלְּתֵיהּ דְּרִבִּי חֲנִינָא פְּלִיגָא, דְּאָמַר רִבִּי אָחָא בְּשֵׁם רִבִּי חֲנִינָא: ״תַּרְקִיעַ עִמּוֹ לִשְׁחָקִים, חֲזָקִים כִּרְאִי מוּצָק״ — ״תַּרְקִיעַ״ מְלַמֵּד שֶׁהֵן עֲשׂוּיִין כְּטַס. יָכוֹל שֶׁאֵינָן בְּרִיאִים — תַּלְמוּד לוֹמַר ״חֲזָקִים״. יָכוֹל שֶׁהֵן מִתְרַפִּים — תַּלְמוּד לוֹמַר ״כִּרְאִי מוּצָק״: בְּכָל שָׁעָה וְשָׁעָה נִרְאִים מוּצָקִים.

Foi ensinado em nome de Rabi Yehoshua: a espessura do firmamento é como dois dedos. A opinião de Rabi Chanina discorda, pois disse Rabi Acha em nome de Rabi Chanina: "estenderás com ele os céus, fortes como espelho fundido" — "estenderás" ensina que são feitos como uma lâmina; poderia eu pensar que não são firmes — o texto diz "fortes"; poderia eu pensar que se enfraquecem — o texto diz "como espelho fundido": a cada momento parecem recém-fundidos.

רִבִּי יוֹחָנָן וְרִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ. רִבִּי יוֹחָנָן אָמַר: בְּנֹהַג שֶׁבָּעוֹלָם, אָדָם מוֹתֵחַ אֹהֶל — לְאַחַר שָׁהוּת הוּא רוֹפֶה. בְּרַם הָכָא: ״וַיִּמְתָּחֵם כָּאֹהֶל לָשָׁבֶת״, וּכְתִיב ״חֲזָקִים״. רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ אָמַר: בְּנֹהַג שֶׁבָּעוֹלָם, אָדָם נוֹסֵךְ כֵּלִים — לְאַחַר שָׁהוּת הוּא מַעֲלֶה חֲלוּדָה. בְּרַם הָכָא: ״כִּרְאִי מוּצָק״, בְּכָל שָׁעָה וְשָׁעָה הֵן נִרְאִים כִּשְׁעַת יְצִיקָתָן. אָמַר רִבִּי עֲזַרְיָה עַל הָא דְּרִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ: ״וַיְכֻלּוּ הַשָּׁמַיִם וְהָאָרֶץ וְכָל צְבָאָם. וַיְכַל אֱלֹהִים בַּיּוֹם הַשְּׁבִיעִי... וַיְבָרֶךְ אֱלֹהִים אֶת יוֹם הַשְּׁבִיעִי.״ מַה כְּתִיב בַּתְרֵיהּ? ״אֵלֶּה תוֹלְדוֹת הַשָּׁמַיִם...״ — וְכִי מָה עִנְיָן זֶה אֵצֶל זֶה? אֶלָּא: יוֹם נִכְנָס וְיוֹם יוֹצֵא, שַׁבָּת נִכְנֶסֶת וְשַׁבָּת יוֹצֵאת, חֹדֶשׁ נִכְנָס וְחֹדֶשׁ יוֹצֵא, שָׁנָה נִכְנֶסֶת וְשָׁנָה יוֹצֵאת. וּכְתִיב: ״אֵלֶּה תוֹלְדוֹת הַשָּׁמַיִם וְהָאָרֶץ בְּהִבָּרְאָם, בְּיוֹם עֲשׂוֹת ה׳ אֱלֹהִים אֶרֶץ וְשָׁמָיִם.״

Rabi Yochanan e Rabi Shimon ben Lakish. Disse Rabi Yochanan: segundo o costume do mundo, quando um homem estica uma tenda, depois de um tempo ela afrouxa; mas aqui: "e os estendeu como tenda para habitar", e está escrito "fortes". Disse Rabi Shimon ben Lakish: segundo o costume do mundo, quando um homem funde utensílios, depois de um tempo criam ferrugem; mas aqui: "como espelho fundido" — a cada momento parecem no instante mesmo em que foram fundidos. Disse Rabi Azaria sobre isto de Rabi Shimon ben Lakish: "e foram concluídos os céus e a terra e todo o seu exército; e concluiu Deus no sétimo dia... e abençoou Deus o sétimo dia." O que está escrito depois? "Estas são as gerações dos céus..." — e que relação há entre uma coisa e outra? Antes: o dia entra e o dia sai, o Shabat entra e o Shabat sai, o mês entra e o mês sai, o ano entra e o ano sai. E está escrito: "estas são as gerações dos céus e da terra quando foram criados, no dia em que o Eterno Deus fez terra e céus."

Este longo excurso — medidas do firmamento, da Árvore da Vida, do Éden, do Egito e de Cush, e o debate se os céus são sólidos e permanentes ou se, como qualquer coisa criada, também "entram e saem" — nasce de uma pergunta lateral sobre a espessura dos céus, mas não tem qualquer equivalente no Bavli 2a. É um exemplo do gosto do Yerushalmi por cosmologia, aqui inserido quase como digressão dentro da própria discussão sobre os horários do dia.

Y·26–28As quatro vigílias, a "vigília do meio", e a harpa que Davi ouvia ao vento norte
Yerushalmi · sem paralelo no Bavli 2a
רִבִּי אוֹמֵר: אַרְבַּע אַשְׁמוּרוֹת בַּיּוֹם וְאַרְבַּע אַשְׁמוּרוֹת בַּלַּיְלָה. הָעוֹנָה אֶחָד מֵעֶשְׂרִים וְאַרְבָּעָה לְשָׁעָה. הָעֵת אֶחָד מֵעֶשְׂרִים וְאַרְבָּעָה לָעוֹנָה. הָרֶגַע אֶחָד מֵעֶשְׂרִים וְאַרְבָּעָה לָעֵת. כַּמָּה הוּא הָרֶגַע? רִבִּי בֶּרֶכְיָה בְּשֵׁם רִבִּי חֶלְבּוֹ: כְּדֵי לְאָמְרוֹ. וְרַבָּנָן אָמְרִין: הָרֶגַע כְּהֶרֶף עַיִן. תַּנֵּי שְׁמוּאֵל: הָרֶגַע אֶחָד מֵחֲמִשִּׁים וְשִׁשָּׁה אֶלֶף וּשְׁמוֹנֶה מֵאוֹת אַרְבָּעִים וּשְׁמוֹנֶה לְשָׁעָה. רִבִּי נָתָן אוֹמֵר: שָׁלֹשׁ — ״רֹאשׁ הָאַשְׁמֹרֶת הַתִּיכוֹנָה״.

Rabi (Yehudá Hanassi) diz: quatro vigílias há de dia e quatro vigílias de noite. A oná é um vinte e quatro avos da hora. O et é um vinte e quatro avos da oná. O rega é um vinte e quatro avos do et. Quanto é o rega? Disse Rabi Berechia em nome de Rabi Chelbo: o tempo de pronunciá-lo. E os Sábios dizem: o rega é como um piscar de olhos. Ensinou Shmuel: o rega é um de cinquenta e seis mil oitocentos e quarenta e oito avos da hora. Rabi Natan diz: três — "no início da vigília do meio".

רִבִּי זְרִיקָן וְרִבִּי אַמֵּי בְּשֵׁם רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ: טַעֲמוֹ שֶׁל רִבִּי — ״חֲצוֹת לַיְלָה אָקוּם לְהוֹדוֹת לָךְ עַל מִשְׁפְּטֵי צִדְקֶךָ״, וּכְתִיב ״קִדְּמוּ עֵינַי אַשְׁמֻרוֹת״. רִבִּי חִזְקִיָּה אָמַר: רִבִּי זְרִיקָן וְרִבִּי בָּא, חַד אָמַר טַעֲמֵיהּ דְּרִבִּי, וְחָרִינָא אָמַר טַעֲמֵיהּ דְּרִבִּי נָתָן... מָאן מְקַיֵּים רִבִּי נָתָן טַעֲמֵיהּ דְּרִבִּי? ״חֲצוֹת לַיְלָה״? פְּעָמִים ״חֲצוֹת לַיְלָה״ וּפְעָמִים ״קִדְּמוּ עֵינַי אַשְׁמֻרוֹת״. הָא כֵּיצַד? בְּשָׁעָה שֶׁהָיָה דָּוִד סוֹעֵד סְעוּדַת מְלָכִים — ״חֲצוֹת לַיְלָה״. וּבְשָׁעָה שֶׁהָיָה סוֹעֵד סְעוּדַת עַצְמוֹ — ״קִדְּמוּ עֵינַי אַשְׁמֻרוֹת״. מִכָּל מָקוֹם, לֹא הָיָה הַשַּׁחַר בָּא וּמוֹצֵא אֶת דָּוִד יָשֵׁן. הוּא שֶׁדָּוִד אָמַר: ״עוּרָה כְבוֹדִי, עוּרָה הַנֵּבֶל וְכִנּוֹר, אָעִירָה שָּׁחַר״. אֵעוֹר יְקָרִי מִלִּפְנֵי יְקָרוֹ שֶׁל בּוֹרְאִי — יְקָרִי אֵינוֹ חָשׁוּב כְּלוּם לִפְנֵי יְקָרוֹ שֶׁל בּוֹרְאִי. ״אָעִירָה שָּׁחַר״ — אֲנִי מְעוֹרֵר אֶת הַשַּׁחַר, וְאֵין הַשַּׁחַר מְעוֹרֵר אוֹתִי. וְהָיָה יִצְרוֹ מְקַטְרְגוֹ וְאוֹמֵר לוֹ: דָּוִד, דַּרְכָּן שֶׁל מְלָכִים שֶׁהַשַּׁחַר מְעוֹרְרָם, וְאַתָּה אוֹמֵר ״אָעִירָה שָּׁחַר״! דַּרְכָּן שֶׁל מְלָכִים לִהְיוֹת יְשֵׁנִים עַד שָׁלֹשׁ שָׁעוֹת, וְאַתָּה אוֹמֵר ״חֲצוֹת לַיְלָה אָקוּם״! וְהוּא אוֹמֵר: ״עַל מִשְׁפְּטֵי צִדְקֶךָ״. וּמָה הָיָה דָּוִד עוֹשֶׂה? רִבִּי פִּנְחָס בְּשֵׁם רִבִּי אֶלְעָזָר בְּרִבִּי מְנַחֵם: הָיָה נוֹטֵל נֵבֶל וְכִנּוֹר וְנוֹתְנוֹ מֵרַאֲשׁוֹתָיו, וְעוֹמֵד בַּחֲצִי הַלַּיְלָה וּמְנַגֵּן בָּהֶם, כְּדֵי שֶׁיִּשְׁמְעוּ חֲבֵרָיו בַּתּוֹרָה. וּמָה הָיוּ חֲבֵרָיו בַּתּוֹרָה אוֹמְרִים? וּמָה אִם דָּוִד הַמֶּלֶךְ עוֹסֵק בַּתּוֹרָה, אָנוּ עַל אַחַת כַּמָּה וְכַמָּה! אָמַר רִבִּי לֵוִי: כִּנּוֹר הָיָה תָּלוּי כְּנֶגֶד חַלּוֹנוֹתָיו שֶׁל דָּוִד, וְהָיְתָה רוּחַ צְפוֹנִית מְנַשֶּׁבֶת בַּלַּיְלָה וּמְנַפְנֶפֶת בּוֹ, וְהָיָה מְנַגֵּן מֵאֵלָיו. הַיְנוּ דִּכְתִיב: ״וְהָיָה כְּנַגֵּן הַמְנַגֵּן״ — ״כְּנַגֵּן בַּמְּנַגֵּן״ אֵין כָּתוּב כָּאן, אֶלָּא ״כְּנַגֵּן הַמְנַגֵּן״: הַכִּנּוֹר הָיָה מְנַגֵּן מֵאֵלָיו.

Rabi Zerikan e Rabi Ami em nome de Rabi Shimon ben Lakish: a razão de Rabi (que fala em "meia-noite") é "à meia-noite me levanto para agradecer-te pelos teus justos juízos", e está escrito "meus olhos antecipam as vigílias". Disse Rabi Chizquiá: Rabi Zerikan e Rabi Ba — um dizia a razão de Rabi, e o outro dizia a razão de Rabi Natan... Quem sustenta que Rabi Natan concorda com a razão de Rabi, "à meia-noite"? Às vezes "à meia-noite", e às vezes "meus olhos antecipam as vigílias". Como assim? Quando Davi fazia um banquete de reis — "à meia-noite"; e quando fazia a sua própria refeição simples — "meus olhos antecipam as vigílias". De todo modo, jamais o amanhecer chegava e encontrava Davi dormindo. Foi isto que Davi disse: "Desperta, minha glória; desperta, harpa e lira; eu despertarei a alva." Que a minha glória desperte diante da glória do meu Criador — a minha glória não vale nada diante da glória do meu Criador. "Eu despertarei a alva" — eu desperto a alva, e a alva não me desperta a mim. E o seu instinto o acusava, dizendo-lhe: Davi, o costume dos reis é que a alva os desperte, e tu dizes "eu despertarei a alva"! O costume dos reis é dormir até três horas do dia, e tu dizes "à meia-noite me levanto"! E ele respondia: "pelos teus justos juízos". E o que fazia Davi? Disse Rabi Pinchas em nome de Rabi Elazar bei Rabi Menachem: tomava a harpa e a lira e as colocava à cabeceira, e se levantava à meia-noite e tocava nelas, para que os seus companheiros de estudo de Torá o ouvissem. E o que diziam os seus companheiros de estudo de Torá? Se o rei Davi se ocupa da Torá, quanto mais nós! Disse Rabi Levi: uma lira estava pendurada diante das janelas de Davi, e o vento norte soprava de noite e a agitava, e ela tocava sozinha. É o que está escrito: "e sucedia que, quando o tangedor tangia" — não está escrito "quando se tangia a lira", mas "quando o tangedor tangia": a harpa tocava por si mesma.

מַה מְקַיֵּים רִבִּי טַעֲמוֹ שֶׁל רִבִּי נָתָן — ״רֹאשׁ הָאַשְׁמֹרֶת הַתִּיכוֹנָה״? אָמַר רִבִּי הוּנָא: סוֹפָהּ שֶׁל שְׁנִיָּה וְרֹאשָׁהּ שֶׁל שְׁלִישִׁית הֵן מְתַוְּכוֹת אֶת הַלַּיְלָה. אָמַר רִבִּי מָנָא: וְיָאוֹת? מִי כְּתִיב ״תִּיכוֹנוֹת״? לֹא, ״תִּיכוֹנָה״! הָרִאשׁוֹנָה אֵינָהּ נֶחְשֶׁבֶת, שֶׁעַד עַכְשָׁו הַבְּרִיּוֹת עֵרוֹת.

Como sustenta Rabi a razão de Rabi Natan, "no início da vigília do meio"? Disse Rabi Huna: o fim da segunda e o início da terceira são o meio da noite. Disse Rabi Mana: e está certo? Está escrito "vigílias do meio"? Não — "vigília do meio", no singular! A primeira não conta, pois até agora as criaturas ainda estão acordadas.

Nota comparativa. A imagem de Davi que se levanta à meia-noite ao som de uma harpa tocada sozinha pelo vento norte é um dos motivos mais conhecidos da literatura talmúdica sobre este tema — mas, nesta página, ela aparece apenas aqui, no Yerushalmi. O mesmo motivo também existe no Talmud Bavli, com variações de detalhe (lá, é geralmente contado que a harpa ficava pendurada acima da cama de Davi, e o vento a fazia tocar pouco antes da meia-noite, despertando-o para o estudo) — mas essa versão bavlaica está no daf 3b, fora do escopo desta página dedicada a 2a. Assim, dentro dos limites deste estudo comparado, o motivo da harpa de Davi é uma exclusividade do Yerushalmi.

Y·29–30Lê-se o Shemá depois da meia-noite? E as três justaposições
Yerushalmi · sem paralelo no Bavli 2a
פִּיסְקָא. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים עַד חֲצוֹת. רִבִּי יָסָא בְּשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן: הֲלָכָה כַּחֲכָמִים. רִבִּי יָסָא מְפַקֵּד לְחַבְרַיָּא: אִין בָּעִיתוּן מִתְעַסְּקָא בְאוֹרַיְתָא, אַתּוּן קְרוֹן שְׁמַע קֹדֶם חֲצוֹת וּמִתְעַסְּקִין. מִלְּתֵיהּ אָמְרָה שֶׁהֲלָכָה כַּחֲכָמִים; מִלְּתֵיהּ אָמְרָה שֶׁאָמַר דְּבָרִים אַחַר ״אֱמֶת וְיַצִּיב״. תַּנֵּי: הַקּוֹרֵא אֶת שְׁמַע בְּבֵית הַכְּנֶסֶת בְּשַׁחֲרִית — יָצָא יְדֵי חוֹבָתוֹ; בָּעֶרֶב — לֹא יָצָא יְדֵי חוֹבָתוֹ. מַה בֵּין הַקּוֹרֵא בְּשַׁחֲרִית לְהַקּוֹרֵא בְּעַרְבִית? רִבִּי הוּנָא בְּשֵׁם רַב יוֹסֵף: מַה טַעַם אָמְרוּ אָדָם צָרִיךְ לִקְרוֹת שְׁמַע בְּבֵיתוֹ בָּעֶרֶב? בִּשְׁבִיל לְהַבְרִיחַ אֶת הַמַּזִּיקִין. מִלְּתֵיהּ אָמְרָה שֶׁאֵין אוֹמְרִים דְּבָרִים אַחַר ״אֱמֶת וְיַצִּיב״.

Retomando o texto: "e os Sábios dizem: até a meia-noite." Disse Rabi Yassa em nome de Rabi Yochanan: a halachá segue os Sábios. Rabi Yassa ordenava aos seus colegas: se quiserdes ocupar-vos da Torá, recitai o Shemá antes da meia-noite e depois ocupai-vos dela. As suas próprias palavras indicam que a halachá segue os Sábios; e as suas próprias palavras indicam que se pode falar depois de "Emet veYatziv". Foi ensinado: quem lê o Shemá na sinagoga pela manhã cumpriu a sua obrigação; à noite, não cumpriu a sua obrigação. Qual é a diferença entre quem lê pela manhã e quem lê à noite? Disse Rabi Huna em nome de Rav Yossef: por que razão disseram que o homem deve recitar o Shemá em sua casa à noite? Para afugentar os demônios. As suas palavras indicam que não se fala depois de "Emet veYatziv".

מִלְּתֵיהּ דְּרִבִּי שְׁמוּאֵל בַּר נַחְמָנִי אָמְרָה כֵן. רִבִּי שְׁמוּאֵל בַּר נַחְמָנִי, כַּד הֲוָה נָחִית לְעִבּוּרָא, הֲוָה מְקַבֵּל גַּבֵּי רִבִּי יַעֲקֹב גָּרוֹסָה, וַהֲוָה רִבִּי זְעִירָא מִטַּמֵּר בֵּינֵי קוּפַיָּא, מִשְׁמַע הֵיךְ הֲוָה קָרֵי שְׁמַע, וַהֲוָה קָרֵי וְחָזַר וְקָרֵי, עַד דַּהֲוָה שָׁקֵעַ מִנֵּיהּ בְּגוֹ שֵׁינָתֵיהּ. וּמַאי טַעְמָא? רִבִּי אַחָא וְרִבִּי תַּחְלִיפָא חָמוּי בְּשֵׁם רִבִּי שְׁמוּאֵל בַּר נַחְמָן: ״רִגְזוּ וְאַל תֶּחֱטָאוּ, אִמְרוּ בִלְבַבְכֶם עַל מִשְׁכַּבְכֶם וְדֹמּוּ סֶלָה״.

A opinião de Rabi Shmuel bar Nachmani ensina o mesmo. Quando Rabi Shmuel bar Nachmani descia para o assunto da intercalação do calendário, era recebido na casa de Rabi Yaacov, o moleiro; e Rabi Zeira se escondia entre as cestas para ouvir como ele recitava o Shemá. E ele recitava, e voltava a recitar, e voltava a recitar, até que adormecia no meio da sua própria recitação. E qual é a razão? Rabi Acha e Rabi Tachlifa, seu sogro, em nome de Rabi Shmuel bar Nachman: "tremei e não pequeis; falai em vossos corações sobre os vossos leitos, e calai-vos, Selá."

מִלְּתֵיהּ דְּרִבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי פְּלִיגָא, דְּרִבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי קָרֵי מִזְמוֹרִים בַּתְרֵיהּ. וְהָא תַּנֵּי אֵין אוֹמְרִים דְּבָרִים אַחַר ״אֱמֶת וְיַצִּיב״! פָּתַר לָהּ בֶּ״אֱמֶת וְיַצִּיב״ שֶׁל שַׁחֲרִית. דְּאָמַר רִבִּי זְעִירָא בְּשֵׁם רַב אַבָּא בַּר יִרְמְיָה: שָׁלֹשׁ תְּכִיפוֹת הֵן — תֵּכֶף לִסְמִיכָה שְׁחִיטָה, תֵּכֶף לִנְטִילַת יָדַיִם בְּרָכָה, תֵּכֶף לִגְאֻלָּה תְּפִלָּה. תֵּכֶף לִסְמִיכָה שְׁחִיטָה — ״וְסָמַךְ... וְשָׁחַט״. תֵּכֶף לִנְטִילַת יָדַיִם בְּרָכָה — ״שְׂאוּ יְדֵיכֶם קֹדֶשׁ וּבָרְכוּ אֶת ה׳״. תֵּכֶף לִגְאֻלָּה תְּפִלָּה — ״יִהְיוּ לְרָצוֹן אִמְרֵי פִי״, מַה כְּתִיב בַּתְרֵיהּ? ״יַעַנְךָ ה׳ בְּיוֹם צָרָה״.

A opinião de Rabi Yehoshua ben Levi discorda, pois Rabi Yehoshua ben Levi recitava salmos depois disso. Mas não foi ensinado que não se fala depois de "Emet veYatziv"? Explica-se isso do "Emet veYatziv" da manhã. Pois disse Rabi Zeira em nome de Rav Abba bar Yirmiyá: há três justaposições — logo após a colocação das mãos (semichá) vem o abate (shechitá); logo após a lavagem das mãos vem a bênção; logo após a redenção vem a oração. Logo após a colocação das mãos vem o abate — "e colocará a mão... e abaterá". Logo após a lavagem das mãos vem a bênção — "levantai as vossas mãos em santidade e abençoai o Eterno". Logo após a redenção vem a oração — "sejam agradáveis as palavras da minha boca"; o que está escrito depois? "Que o Eterno te responda no dia da angústia".

אָמַר רִבִּי יוֹסֵי בֵּי רִבִּי בּוּן: כָּל מִי שֶׁהוּא תּוֹכֵף סְמִיכָה לִשְׁחִיטָה — אֵין פְּסוּל נוֹגֵעַ בְּאוֹתוֹ קָרְבָּן. וְכָל מִי שֶׁהוּא תּוֹכֵף לִנְטִילַת יָדַיִם בְּרָכָה — אֵין הַשָּׂטָן מְקַטְרֵג בְּאוֹתָהּ סְעוּדָה. וְכָל מִי שֶׁהוּא תּוֹכֵף גְּאֻלָּה לִתְפִלָּה — אֵין הַשָּׂטָן מְקַטְרֵג בְּאוֹתוֹ הַיּוֹם.

Disse Rabi Yossei bei Rabi Bun: todo aquele que justapõe a colocação das mãos ao abate, nenhuma invalidação atinge aquele sacrifício. E todo aquele que justapõe a bênção à lavagem das mãos, o Satã não acusa naquela refeição. E todo aquele que justapõe a oração à redenção, o Satã não acusa naquele dia.

Rabi Zeira contou que, por seguir este costume à risca, certa vez foi recrutado para um trabalho forçado — levar mirra ao palácio — no meio da oração; disseram-lhe que era uma honra, pois há quem pague para ver o interior do palácio. E Rabi Imi ensinou: quem não justapõe a redenção à oração é como o amigo de um rei que vem de longe e bate à porta do rei — quando o rei sai para ver o que ele deseja, encontra que já se foi, e então o próprio rei também se retira.

Y·31–36Por que Rabán Gamliel pôde discordar dos Sábios e agir segundo sua própria opinião
Yerushalmi · sem paralelo no Bavli 2a
פִּיסְקָא. רַבָּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר עַד שֶׁיַּעֲלֶה עַמּוּד הַשַּׁחַר. אַתְיָא דְּרַבָּן גַּמְלִיאֵל כְּרִבִּי שִׁמְעוֹן, דְּתַנֵּי בְּשֵׁם רִבִּי שִׁמְעוֹן: פְּעָמִים שֶׁאָדָם קוֹרֵא אֶת שְׁמַע אַחַת לִפְנֵי עַמּוּד הַשַּׁחַר וְאַחַת לְאַחַר עַמּוּד הַשַּׁחַר, וְנִמְצָא יוֹצֵא יְדֵי חוֹבָתוֹ שֶׁל יוֹם וְשֶׁל לַיְלָה. הָא רַבָּן גַּמְלִיאֵל כְּרִבִּי שִׁמְעוֹן בְּעַרְבִית — אַף בְּשַׁחֲרִית כֵּן? אוֹ יְהֵא בָהּ כְּמָה דְּאָמַר רִבִּי זְעִירָא, תַּנָּאֵי אֲחוֹי דְּרַב חִיָּיא בַּר אַשִּׁי וּדְרַב אַבָּא בַּר חָנָה: הַקּוֹרֵא עִם אַנְשֵׁי מִשְׁמָר לֹא יָצָא, כִּי מַשְׁכִּימִין הָיוּ.

Retomando: "Rabán Gamliel diz: até que suba a coluna da alva." A opinião de Rabán Gamliel se harmoniza com a de Rabi Shimon, que ensinou em nome de Rabi Shimon: às vezes um homem recita o Shemá duas vezes — uma antes de subir a coluna da alva, e uma depois de subir a coluna da alva — e assim cumpre a sua obrigação tanto do dia quanto da noite. Assim, se Rabán Gamliel concorda com Rabi Shimon quanto à noite, será também assim quanto à manhã? Ou será como disse Rabi Zeira, ensinaram os irmãos de Rav Chiya bar Ashi e de Rav Aba bar Chana: quem recita junto com os homens da guarda (mishmar) não cumpriu a sua obrigação, pois eles se levantavam cedo demais.

וְרַבָּן גַּמְלִיאֵל פָּלֵיג עַל רַבָּנָן וְעָבַד עוּבְדָּא כְּוָתֵיהּ? וְהָא רִבִּי מֵאִיר פָּלֵיג עַל רַבָּנָן וְלָא עָבַד עוּבְדָּא כְּוָתֵיהּ! וְהָא רִבִּי עֲקִיבָא פָּלֵיג עַל רַבָּנָן וְלָא עָבַד עוּבְדָּא כְּוָתֵיהּ!

Mas Rabán Gamliel discordou dos Sábios e agiu segundo a sua própria opinião? Mas Rabi Meir discordou dos Sábios e não agiu segundo a sua própria opinião! E Rabi Akiva discordou dos Sábios e não agiu segundo a sua própria opinião!

וְהֵן אַשְׁכַּחְנָן דְּרִבִּי מֵאִיר פָּלֵיג עַל רַבָּנָן וְלָא עָבַד עוּבְדָּא כְּוָתֵיהּ, דְּתַנֵּי: סָכִין אַלְוּוֹנְתִּית לְחוֹלֶה בְּשַׁבָּת, אֵימָתַי? בִּזְמַן שֶׁטְּרָפוֹ בְּיַיִן וּבְשֶׁמֶן מֵעֶרֶב שַׁבָּת; אֲבָל אִם לֹא טְרָפוֹ מֵעֶרֶב שַׁבָּת — אָסוּר. תַּנֵּי, אָמַר רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן אֶלְעָזָר: מַתִּיר הָיָה רִבִּי מֵאִיר לִטְרֹף יַיִן וְשֶׁמֶן וְלָסוּךְ לְחוֹלֶה בְּשַׁבָּת; וּכְבָר חָלָה, וּבִקַּשְׁנוּ לַעֲשׂוֹת לוֹ כֵן, וְלֹא הִנִּיחַ לָנוּ. וְאָמַרְנוּ לוֹ: רַבִּי, דְּבָרֶיךָ מְבַטֵּל בְּחַיֶּיךָ? וְאָמַר לָנוּ: אַף עַל פִּי שֶׁאֲנִי מֵקֵל לַאֲחֵרִים, מַחְמִיר אֲנִי עַל עַצְמִי, שֶׁהֲרֵי חֲבֵרַי חוֹלְקִים עָלַי.

E de fato constatamos que Rabi Meir discordou dos Sábios e não agiu segundo a sua própria opinião, pois foi ensinado: unge-se com alvonit (unguento medicinal) um doente no Shabat — quando? Quando foi misturado com vinho e óleo na véspera do Shabat; mas, se não foi misturado na véspera do Shabat, é proibido. Foi ensinado, disse Rabi Shimon ben Elazar: Rabi Meir permitia misturar vinho e óleo e ungir um doente no Shabat; e certa vez ele mesmo adoeceu, e quisemos fazer isso por ele, e não nos deixou. E lhe dissemos: Mestre, tu invalidas as tuas próprias palavras em vida? E ele nos disse: ainda que eu seja leniente para com os outros, sou rigoroso comigo mesmo, pois os meus colegas discordam de mim.

וְהֵן אַשְׁכַּחְנָן דְּרִבִּי עֲקִיבָא פָּלֵיג עַל רַבָּנָן וְלָא עָבַד עוּבְדָּא כְּוָתֵיהּ, כְּמָה דְּתַנִּינָן תַּמָּן: הַשִּׁדְרָה וְהַגֻּלְגֹּלֶת מִשְּׁנֵי מֵתִים, אֵבֶר מִן הַמֵּת מִשְּׁנֵי מֵתִים, רְבִיעִית דָּם מִשְּׁנֵי מֵתִים, וְרֹבַע עֲצָמוֹת מִשְּׁנֵי מֵתִים, אֵבֶר מִן הַחַי מִשְּׁנֵי אֲנָשִׁים — רִבִּי עֲקִיבָא מְטַמֵּא, וַחֲכָמִים מְטַהֲרִין. תַּנֵּי מַעֲשֶׂה שֶׁהֵבִיאוּ קֻפָּה מְלֵאָה עֲצָמוֹת מִכְּפַר טַבִּי, וְהִנִּיחוּהָ בַּאֲוִיר הַכְּנֶסֶת בְּלוֹד. וְנִכְנַס תּוֹדְרוֹס הָרוֹפֵא, וְנִכְנְסוּ כָּל הָרוֹפְאִים עִמּוֹ. אָמַר תּוֹדְרוֹס הָרוֹפֵא: אֵין כָּאן שִׁדְרָה מִמֵּת אֶחָד וְלֹא גֻּלְגֹּלֶת מִמֵּת אֶחָד. אָמְרוּ: הוֹאִיל וְיֵשׁ כָּאן מְטַהֲרִין וְיֵשׁ כָּאן מְטַמְּאִין, נַעֲמֹד עַל הַמִּנְיָן. הִתְחִילוּ מֵרִבִּי עֲקִיבָא — וְטִהֵר. אָמְרוּ לוֹ: הוֹאִיל וְהָיִיתָ מְטַמֵּא וְטִהַרְתָּ — טָהוֹר.

E de fato constatamos que Rabi Akiva discordou dos Sábios e não agiu segundo a sua própria opinião, como foi ensinado ali: a espinha e o crânio de dois mortos, um membro de um morto proveniente de dois mortos, um quarto de log de sangue de dois mortos, um quarto de kav de ossos de dois mortos, um membro de um vivo proveniente de dois homens — Rabi Akiva declara impuro, e os Sábios declaram puro. Foi ensinado: aconteceu que trouxeram um cesto cheio de ossos de Kfar Tabi e o depositaram ao ar livre da sinagoga em Lod. E entrou Teodoro, o médico, e entraram com ele todos os médicos. Disse Teodoro, o médico: não há aqui espinha de um só morto, nem crânio de um só morto. Disseram: já que há aqui quem declare puro e quem declare impuro, façamos uma votação. Começaram por Rabi Akiva — e ele declarou puro. Disseram-lhe: já que declaravas impuro e agora declaraste puro — é puro.

וְהֵן אַשְׁכַּחְנָן דְּרִבִּי שִׁמְעוֹן פָּלֵיג עַל רַבָּנָן וְלָא עָבַד עוּבְדָּא כְּוָתֵיהּ, כְּמָה דְּתַנִּינָן תַּמָּן: רִבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, כָּל הַסְּפִיחִים מֻתָּרִים חוּץ מִסְּפִיחֵי כְּרוּב, שֶׁאֵין כַּיּוֹצֵא בָּהֶם בְּיַרְקוֹת שָׂדֶה. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים: כָּל הַסְּפִיחִים אֲסוּרִים. רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַאי עָבַד עוֹבְדָּא בִּשְׁמִיטָּה: חָמָא חַד מְלַקֵּט סְפִיחֵי שְׁבִיעִית, אָמַר לֵיהּ: וְלֵית אָסוּר? וְלָאו סְפִיחִין אִנּוּן? אָמַר לֵיהּ: וְלֹא אַתָּה הוּא שֶׁאַתָּה מַתִּיר? אָמַר לוֹ: וְאֵין חֲבֵרַי חוֹלְקִים עָלַי? וְקָרָא עָלָיו ״וּפֹרֵץ גָּדֵר יִשְּׁכֶנּוּ נָחָשׁ״, וְכֵן הָיְתָה לוֹ.

E de fato constatamos que Rabi Shimon discordou dos Sábios e não agiu segundo a sua própria opinião, como foi ensinado ali: Rabi Shimon diz, todo rebroto é permitido, exceto o rebroto de repolho, pois não há nada semelhante a ele entre as verduras silvestres; e os Sábios dizem: todo rebroto é proibido. Rabi Shimon bar Yochai agiu, num ano sabático (shemitá): viu um homem colhendo rebrotos do sétimo ano. Disse-lhe: não é isso proibido? Não são rebrotos? Disse-lhe o homem: não és tu quem permite isso? Respondeu-lhe: acaso os meus colegas não discordam de mim? E recitou sobre ele: "e quem rompe uma cerca, a serpente o morderá" — e assim lhe sucedeu.

וְרַבָּן גַּמְלִיאֵל פָּלֵיג עַל רַבָּנָן וְעָבַד עוּבְדָּא כְּוָתֵיהּ? שַׁנְיָא הָכָא, שֶׁהִיא לְשִׁנּוּן. מֵעַתָּה, אַף מִשֶּׁיַּעֲלֶה עַמּוּד הַשַּׁחַר? וְאִית דְּבָעֵי מֵימַר: תַּמָּן הָיוּ יְכוֹלִין לְקַיֵּים דִּבְרֵי חֲכָמִים, בְּרַם הָכָא כְּבָר עָבַר חֲצוֹת וְלֹא הָיוּ יְכוֹלִין לְקַיֵּים דִּבְרֵי חֲכָמִים — אָמַר לוֹן: עֲבִידוּ עוּבְדָּא כְּוָתֵיהּ.

Mas Rabán Gamliel discordou dos Sábios e agiu segundo a sua própria opinião? Diferente é o caso aqui, pois se trata de estudo (repetição, shinun). Sendo assim, valeria também depois que subisse a coluna da alva? E há quem queira dizer: naqueles casos, ainda era possível cumprir as palavras dos Sábios; mas aqui já havia passado a meia-noite, e não era mais possível cumprir as palavras dos Sábios — por isso ele lhes disse: agi segundo a minha própria opinião.

O ponto retórico é notável: Rabi Meir, Rabi Akiva e Rabi Shimon discordaram teoricamente dos Sábios, mas na prática seguiram a maioria — cada um com sua própria história ilustrativa. Rabán Gamliel é a exceção que a sugya precisa justificar: ele não apenas discordou, mas agiu segundo sua própria opinião mesmo depois de discordar. A resposta final do Yerushalmi é pragmática — não havia mais tempo, à meia-noite, para cumprir a opinião da maioria; por isso ele instruiu seus filhos a seguir a sua própria posição.

Y·37–38A comida de Pesach nas versões da Mishná, e a razão final de "até a meia-noite"
Yerushalmi · sem paralelo no Bavli 2a
אֲנַן תַּנִּינָן ״אֲכִילַת פְּסָחִים״. אִית דְּלָא תָנֵי ״אֲכִילַת פְּסָחִים״. מַאן תַּנָּא ״אֲכִילַת פְּסָחִים״? רַבָּנָן. וּמַאן דְּלָא תָנֵי ״אֲכִילַת פְּסָחִים״? רִבִּי אֱלִיעֶזֶר. וּמַאי טַעְמֵיהּ דְּרִבִּי אֱלִיעֶזֶר? נֶאֱמַר כַּאן ״לַיְלָה״ וְנֶאֱמַר לְהַלָּן ״לַיְלָה״ — מַה ״לַיְלָה״ שֶׁנֶּאֱמַר לְהַלָּן חֲצוֹת, אַף כַּאן חֲצוֹת. אָמַר רִבִּי חוּנָה: וְלֵית כַּן ״אֲכִילַת פְּסָחִים״ אֲפִלּוּ כְּרַבָּנָן, דְּתַנִּינָן: הַפֶּסַח אַחַר חֲצוֹת מְטַמֵּא אֶת הַיָּדַיִם.

Nós ensinamos "a comida dos sacrifícios de Pesach"; há quem não ensine "a comida dos sacrifícios de Pesach". Quem ensina "a comida dos sacrifícios de Pesach"? Os Sábios. E quem não ensina "a comida dos sacrifícios de Pesach"? Rabi Eliézer. E qual é a razão de Rabi Eliézer? Está dito aqui "noite" e está dito ali "noite" — assim como "noite", dito ali, significa meia-noite, também aqui significa meia-noite. Disse Rabi Chuna: e não é assim mesmo segundo os Sábios quanto à "comida dos sacrifícios de Pesach", pois foi ensinado: o sacrifício de Pesach, depois da meia-noite, torna impuras as mãos.

כָּל הַנֶּאֱכָלִים לְיוֹם אֶחָד — קָדְשֵׁי קָדָשִׁים. וְאִם כֵּן, לָמָּה אָמְרוּ חֲכָמִים וְכוּ׳? אִם אַתְּ אוֹמֵר עַד שֶׁיַּעֲלֶה עַמּוּד הַשַּׁחַר — הוּא סָבוּר שֶׁלֹּא עָלָה עַמּוּד הַשַּׁחַר, נִמְצָא אוֹכֵל וּמִתְחַיֵּיב. מִתּוֹךְ שֶׁאַתְּ אוֹמֵר לוֹ עַד חֲצוֹת, אֲפִלּוּ הוּא אוֹכֵל אַחַר חֲצוֹת אֵינוֹ מִתְחַיֵּיב.

"Tudo o que se come num só dia" refere-se aos sacrifícios de santidade suprema. Se é assim, por que disseram os Sábios "até a meia-noite" etc.? Se lhe dissesses "até que suba a coluna da alva", ele poderia pensar que a coluna da alva ainda não subiu, e assim comeria e se tornaria culpado. Mas, ao lhe dizeres "até a meia-noite", mesmo que ele coma depois da meia-noite, não se torna culpado.

Assim se encerra a halachá do Yerushalmi sobre esta Mishná: a mesma lógica protetora que explica por que os Sábios disseram "até a meia-noite" para o Shemá — afastar o homem da transgressão, mesmo que o prazo real, segundo a Torá, se estenda até a alva — é aplicada aqui também ao prazo de comer o sacrifício pascal, fechando o círculo com o final da própria Mishná.

Comentário geral · לְאָן מוֹלִיךְ

Bavli · o percurso do daf 2a

O Bavli abre interrogando a própria Mishná — de onde ela parte, por que ordena a noite antes da manhã, por que retoma a noite depois de tratar da manhã — antes de sequer chegar à pergunta prática do horário. Uma vez lá, extrai da formulação escolhida pelo tanná duas lições implícitas (o momento exato e a regra da expiação). É um percurso que examina a arquitetura do próprio texto tanto quanto a lei que ele contém.

Yerushalmi · o percurso de 1:1

O Yerushalmi não questiona a estrutura da Mishná — parte direto para testar o marco do anoitecer contra outro costume (o das aldeias no Shabat), abre dali um longo exame técnico de quantas estrelas marcam a noite, resolve a mesma pergunta sobre a sinagoga em termos práticos, e estende o mesmo rigor da dúvida a outros dois preceitos (bênção e oração). Dali segue ainda mais longe: a estrela da manhã como figura da redenção, um excurso cosmológico sobre a espessura dos céus, a harpa de Davi tocada pelo vento à meia-noite, a halachá prática sobre ler o Shemá depois da meia-noite, a pergunta retórica sobre por que Rabán Gamliel pôde discordar da maioria e ainda assim agir por conta própria, e por fim o paralelo com o prazo do sacrifício pascal. Menos arquitetura do texto, muito mais casuística, cosmologia e narrativa.

Semelhanças

Ambos partem da mesma Mishná e chegam ao mesmo marco final — a saída das estrelas. E, no ponto mais notável desta comparação, respondem à mesma pergunta sobre a leitura antecipada na sinagoga em termos quase idênticos — só que um a trata como comentário de Rashi sobre a Mishná, e o outro como sugya própria da Guemará. Vale notar ainda que o motivo da harpa de Davi tocada pelo vento à meia-noite, que aqui aparece só no Yerushalmi, também existe no Bavli — mas no daf seguinte (3b), fora do escopo direto desta página.

Diferenças

O Bavli dedica boa parte do daf 2a a perguntas sobre a própria forma da Mishná (por que esta ordem, por que esta formulação); o Yerushalmi não faz esse tipo de pergunta, mas se estende muito mais na contagem técnica das estrelas, no paralelo do safek com outros preceitos, e depois segue por territórios que o Bavli 2a nem toca — cosmologia, o exemplo retórico de Rabán Gamliel contra a maioria, e o fechamento com a lei do sacrifício pascal.