Quem vê o Cohen Gadol quando lê não vê o touro e o bode sendo queimados, e quem vê o touro e o bode sendo queimados não vê o Cohen Gadol quando lê. — A leitura pública da Torá pelo Cohen Gadol, próxima ao Templo, e a queima do touro e do bode da oferenda de pecado, realizada fora do acampamento, aconteciam simultaneamente, e o percurso entre os dois locais era longo demais para que alguém presenciasse ambas.
E não porque não seja permitido, mas porque havia um caminho distante, e o trabalho de ambos era igual, ao mesmo tempo. — A mishná esclarece que a impossibilidade de ver as duas cerimônias não resulta de nenhuma restrição religiosa contra deixar uma para ver a outra, mas simplesmente do fato de que a distância entre os dois locais tornava fisicamente inviável presenciar ambas, já que se realizavam exatamente no mesmo momento.
O versículo situa a queima do touro e do bode "fora do acampamento" — no caso do Templo em Jerusalém, um percurso considerável desde o Monte do Templo — enquanto a leitura da Torá pelo Cohen Gadol acontecia dentro ou próxima à área sagrada. É exatamente essa distância geográfica, somada ao fato de que a Torá não fixa uma ordem sequencial rígida entre a queima e a leitura, permitindo que ocorressem ao mesmo tempo, que a mishná identifica como a razão pela qual ninguém testemunhava as duas cerimônias no mesmo Yom Kipur.
O Rambam explica que a mishná vem ensinar que é permitido deixar de ver uma cerimônia religiosa para ver outra, sem que isso constitua "passar ao largo de um preceito".
Ensinou-nos que é permitido a uma pessoa deixar de ver uma cerimônia do serviço para ir ver outra cerimônia do serviço.
Bartenura explica o princípio por trás da mishná — que "não se passa ao largo dos preceitos" não se aplica aqui, pois assistir a uma cerimônia do Templo não é, em si, um preceito obrigatório do qual não se pode desviar.
"E não porque não seja permitido" — pois se poderia pensar que quem já vê uma cerimônia do serviço não pode deixá-la para ir ver outra, pelo princípio de que "não se passa ao largo dos preceitos", e assistir ao serviço é considerado um preceito, por causa do versículo "na multidão do povo está a glória do rei". A mishná vem ensinar que não se trata de deixar de lado um preceito, uma vez que a pessoa ainda não está ocupada nele quando escolhe para onde ir.
"Não se passa ao largo dos preceitos" — poder-se-ia pensar que também aqui se trata de "passar ao largo", pois a pessoa deixa uma cerimônia e vai ver a outra. "E que preceito há?" — há um preceito em assisti-las, por causa de "na multidão do povo está a glória do rei". "Vem ensinar-nos" — que não se trata de "passar ao largo", já que a pessoa ainda não está ocupada naquele preceito quando faz a escolha.