E separa-se azeitonas de azeite (destinadas à extração do óleo) sobre azeitonas de conserva (destinadas a serem conservadas inteiras para consumo, em salmoura ou vinagre — pois as de azeite são consideradas melhores), mas não azeitonas de conserva sobre azeitonas de azeite. E vinho não fervido (considerado de melhor sabor) sobre o fervido, mas não do fervido sobre o não fervido. Esta é a regra geral: tudo o que é kilayim com seu companheiro (duas espécies proibidas de serem misturadas por constituírem mistura vedada, como trigo e cevada), não se separa deste sobre aquele, mesmo do melhor sobre o pior (a proibição de kilayim prevalece sobre qualquer consideração de qualidade). E tudo o que não é kilayim com seu companheiro (variedades da mesma espécie ou espécies afins não proibidas), separa-se do melhor sobre o pior, mas não do pior sobre o melhor. E se separou do pior sobre o melhor, sua teruma é teruma (vale, apesar de contrariar a norma ideal), exceto o joio sobre o trigo, pois não é alimento (o joio, sendo impróprio para consumo humano, não pode servir de teruma de forma alguma, mesmo em retrospecto). E o pepino e o melão são a mesma espécie (permitindo separar de um sobre o outro). Rabi Yehudá diz: duas espécies (discordando, e proibindo a separação entre eles).
Esta mishná final do Perek Bet reúne dois exemplos adicionais da regra de "do melhor" (2:4-5), e então enuncia o princípio geral que rege todo o capítulo, distinguindo entre a proibição absoluta de kilayim (base em Vayikrá 19) e a preferência relativa entre variedades de uma mesma espécie (base em Bemidbar 18).
Por que a proibição de kilayim é absoluta — impedindo até separar do melhor sobre o pior —, enquanto entre espécies não-kilayim a separação do pior sobre o melhor, embora desaconselhada, ainda é válida se realizada? A resposta está na natureza distinta das duas proibições. Kilayim é uma proibição bíblica autônoma (Vayikrá 19:19), que torna as duas espécies fundamentalmente incompatíveis para qualquer mistura — inclusive a "mistura" conceitual de servir uma como teruma da outra; por isso nenhuma consideração de qualidade pode superá-la, e mesmo separar do melhor sobre o pior, entre espécies kilayim, é totalmente inválido. Já entre variedades ou espécies afins que não constituem kilayim, a exigência de "separar do melhor" (Bemidbar 18:30, conforme 2:4-5) é apenas uma orientação de qualidade dentro do mesmo círculo de validade — e por isso, mesmo quando descumprida (separando do pior sobre o melhor), o ato retém sua validade retrospectiva, exceto no caso extremo do joio, que sequer é considerado alimento e por isso não pode servir de teruma para o trigo em hipótese alguma.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam, encerrando o quadro das combinações entre produtos de melhor e pior qualidade.
O Rambam registra a mesma lista de exemplos da mishná, situando-os dentro do princípio mais amplo — já visto em 1:4 e 1:8 — de que azeite e vinho recebem tratamento excepcionalmente rigoroso, por envolverem um processo de extração que oneraria o cohen caso a teruma fosse separada do produto ainda bruto.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná, que encerra o Perek Bet.
"Azeitonas de azeite" são as azeitonas preparadas para a extração de seu óleo, pois seu óleo é abundante e melhor do que o óleo das azeitonas que só servem para conserva, por terem pouco óleo. E o Nome, bendito seja, disse (Bemidbar 18:30): "quando separardes o seu melhor dele" — e "seu melhor" é o que há de bom e de belo nele, como se disse (Bereshit 45:18): "e comereis o melhor da terra".
E já explicamos, no início do tratado de Kilayim, que o joio é uma variedade da espécie do trigo, mas degenerada e estragada. E lá se explicou a opinião de Rabi Yehudá, que considera que a kishut (pepino) e o melafefon (melão) — chamados em árabe kiarukta — são kilayim entre si. E a lei não segue Rabi Yehudá.
"Separa-se azeitonas de azeite": as destinadas a extrair seu óleo. "Sobre azeitonas de conserva": azeitonas das quais não se faz óleo, e que se conservam em vinho ou vinagre para preservá-las para consumo. E as azeitonas de azeite são melhores que as de conserva; por isso separa-se das azeitonas de azeite sobre as de conserva, o que constitui separar do melhor sobre o pior.
"E vinho não fervido": melhor para beber que o fervido.
"Tudo o que é kilayim com seu companheiro, não se separa deste sobre aquele": pois diz o versículo (Bemidbar 18): "todo o melhor do azeite, e todo o melhor do vinho e do grão" — disse a Torá: dá o melhor para este, e o melhor para aquele (cada categoria deve receber sua própria porção de melhor qualidade, sem mistura entre elas).
"Exceto o joio": em árabe zuan, e em língua estrangeira vitza, que não é alimento humano, e é conservado como comida para pombos.
"A kishut" (pepino): em árabe fakus. "E o melafefon" (melão): em árabe kiar.
"Uma só espécie": e separa-se de um sobre o outro. "Duas espécies" (segundo Rabi Yehudá): e não se separa de um sobre o outro. E a lei não segue Rabi Yehudá.