Não se separa teruma do puro sobre o impuro (por receio de que, ao fazê-lo, se separe sem contiguidade entre o doador e o resto do produto — pois teme-se que, ao afastar-se, o impuro toque o puro e o contamine). E se separaram, sua teruma é teruma (pois o impedimento é apenas uma restrição inicial, não uma condição de validade). Em verdade disseram (expressão que a tradição equipara a uma halachá transmitida a Moshé no Sinai): o bolo de figos secos que ficou parcialmente impuro, separa-se do puro que há nele sobre o impuro que há nele (pois, sendo um único corpo contínuo, considera-se uma contiguidade válida, mesmo que uma parte esteja pura e outra impura). E o mesmo vale para um molho de verduras, e o mesmo para uma pilha (de grãos amontoados). Havia dois bolos, dois molhos, duas pilhas — um impuro e um puro — não se separa deste sobre aquele (pois, sendo dois corpos distintos, não há contiguidade suficiente entre eles). Rabi Eliezer diz: separa-se do puro sobre o impuro (mesmo quando são dois corpos distintos, pois Rabi Eliezer não fez esta restrição adicional — mas a lei não segue sua opinião).
Abre-se com esta mishná o Perek Bet de Massechet Terumot, dedicado às combinações permitidas e proibidas de puro e impuro na separação da teruma. A base é a exigência de que a teruma seja tomada "do que há de melhor" — expressão que a tradição vincula à necessidade de contiguidade entre o produto separado e o restante da colheita.
Por que se proíbe separar teruma do puro sobre o impuro, se a princípio o resultado é mais benéfico para o cohen (que recebe uma porção pura)? A razão não está na qualidade do resultado, mas no receio processual: os sábios temeram que, ao separar de um monte puro para outro impuro, o próprio ato de transporte fizesse a pessoa se afastar do produto original — e, distraída, deixasse a parte impura tocar a pura, contaminando-a sem perceber. Por isso exigiram que a teruma seja sempre separada "do que está contíguo" (מִן הַמֻּקָּף) ao restante do produto, e não de um monte inteiramente à parte. Já a exceção — "em verdade disseram", equiparada pela tradição a uma halachá transmitida a Moshé no Sinai — reconhece que, quando o produto impuro e o puro formam um único corpo físico contínuo (um mesmo bolo de figos, um mesmo molho, uma mesma pilha), a proximidade física já garante a contiguidade exigida, e não há razão para a restrição adicional.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam, no capítulo dedicado às combinações de puro e impuro na separação da teruma.
O Rambam mantém a mesma estrutura da mishná, esclarecendo ainda que a teruma do dízimo (separada pelo levita sobre o próprio dízimo que recebeu) tem regra mais branda, permitida a princípio mesmo do puro sobre o impuro — distinção que a mishná seguinte (2:2, sobre o filho de levi) prepara o terreno para explorar.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná, que abre o Perek Bet.
Disse o Nome, bendito seja, "sua porção consagrada dele" — toma do que está consagrado nele. E em todo lugar onde a mishná diz "em verdade" trata-se de halachá transmitida a Moshé no Sinai.
"O bolo de figos secos": é um pão grande, como uma roda de moinho, feito de figos secos, chamado dvelá; e por ser composto de muitas partes reunidas, não se considera um único corpo para receber impureza por inteiro, como se explicará em seu lugar, no tratado de Tevul Yom. E a mishná traz duas comparações além do bolo: pois o bolo é totalmente um único corpo, enquanto o molho de verduras é composto de corpos separados sem que exista um nome único para todo o conjunto — e ela nos ensina que, assim como é permitido no bolo, também é permitido no molho, que é inferior ao bolo em grau de coesão, e também na pilha, que é ainda mais inferior ao molho em coesão.
"Não se separa teruma do puro sobre o impuro": decreto (dos sábios) por receio de que se venha a separar sem contiguidade, pois se teme que o impuro toque o puro e o contamine — e nós exigimos que quem separa a teruma o faça a partir do que está contíguo.
"Em verdade disseram": sempre que a mishná ensina "em verdade disseram", é como se fosse halachá transmitida a Moshé no Sinai — mas não necessariamente é, de fato, halachá do Sinai; pois no primeiro capítulo de Shabat aprendemos "em verdade disseram: o chazan vê onde as crianças leem" (Shabat 1:3), e essa é uma regra apenas de origem rabínica.
"O bolo de figos secos": ainda que os figos estejam colados uns aos outros dentro do bolo, não se consideram uma conexão para efeito de impureza (cada figo mantém sua condição própria); e se a impureza tocou um dos figos, o outro não se contaminou.
"E o mesmo para um molho de verduras, e o mesmo para uma pilha": ambos são necessários; pois se a mishná ensinasse apenas o bolo, eu diria que apenas o bolo, que é totalmente um único corpo, permite separar assim — mas um molho, que não é um único corpo, não permitiria. E se ensinasse apenas o molho, eu diria que apenas o molho, cujas partes estão todas presas juntas, permite — mas uma pilha, que não está presa em um só punhado, não permitiria. Por isso ambos os casos são necessários.
"Rabi Eliezer diz: separam": a princípio, do puro sobre o impuro — pois Rabi Eliezer não fez o decreto de que se venha a separar sem contiguidade. E a lei não segue Rabi Eliezer.