Seder Zeraim · Massechet Terumot · Perek Yud · Mishná 3

"O que retira pão quente"

הָרוֹדֶה פַּת חַמָּה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Uma disputa de três tanaim sobre pão quente colocado sobre a boca de um barril aberto de vinho de teruma: se o vapor e o aroma do vinho, absorvidos pelo pão, contam como "dar sabor" que proíbe — com Rabi Yosei distinguindo entre pão de trigo (permitido) e de cevada (proibido, por absorver mais)

O que retira (do forno) pão quente e o coloca sobre a boca de um barril (aberto) de vinho de teruma (o calor do pão faz com que ele absorva vapor e aroma do vinho que sobe da abertura do barril): Rabi Meir proíbe (considera que o pão absorveu efetivamente sabor de teruma através do vapor, e por isso está proibido a estranhos). Rabi Yehudá permite (entende que a mera absorção de aroma pelo vapor não constitui "dar sabor" no sentido que a halachá exige para proibir — vapor e cheiro não equivalem a substância). Rabi Yosei permite no (caso do pão) de trigo, e proíbe no de cevada, porque a cevada absorve (a cevada, por sua textura porosa e composição, absorve umidade e vapor com muito mais intensidade que o trigo, de modo que o pão de cevada de fato recebe substância líquida do vinho — não apenas aroma — enquanto o pão de trigo permanece relativamente impermeável a esse processo).

הָרוֹדֶה פַּת חַמָּה וּנְתָנָהּ עַל פִּי חָבִית שֶׁל יֵין תְּרוּמָה, רַבִּי מֵאִיר אוֹסֵר, וְרַבִּי יְהוּדָה מַתִּיר. רַבִּי יוֹסֵי מַתִּיר בְּשֶׁל חִטִּים, וְאוֹסֵר בְּשֶׁל שְׂעוֹרִים, מִפְּנֵי שֶׁהַשְּׂעוֹרִים שׁוֹאֲבוֹת:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta disputa entra no detalhe extremo do princípio de mistura: se o mero aroma ou vapor, sem transferência substancial, já configura "dar sabor" o suficiente para proibir.

Bemidbar (Números) 18:12
כֹּל חֵלֶב יִצְהָר וְכָל חֵלֶב תִּירוֹשׁ וְדָגָן, רֵאשִׁיתָם אֲשֶׁר יִתְּנוּ לַיהוָה, לְךָ נְתַתִּים.
"Todo o melhor do azeite, e todo o melhor do vinho e do grão, suas primícias que derem ao Eterno, a ti as dei" (Bemidbar 18:12) — o vinho de teruma, mencionado aqui explicitamente entre os produtos consagrados ao cohen, é o objeto desta mishná. A disputa entre os tanaim reflete a pergunta: até que ponto se estende a "guarda" da santidade da teruma quando ela se manifesta apenas como vapor e aroma, e não como substância diretamente transferida — um refinamento extremo do princípio geral de mistura por sabor (noten taam) já estabelecido nas mishnayot anteriores deste perek.

Por que Rabi Yosei distingue trigo de cevada, e o que essa distinção revela sobre a natureza do "dar sabor"? A disputa entre Rabi Meir e Rabi Yehudá gira em torno de uma questão conceitual: reicha milta hi — "o cheiro é uma coisa" (isto é, conta como substância para fins de proibição) — ou reicha lav milta hi — "o cheiro não é uma coisa" (não conta, sendo consequência etérea e não substancial). Rabi Meir adota a primeira posição; Rabi Yehudá, a segunda. Rabi Yosei propõe uma terceira via, mais empírica: a questão não é filosófica, mas física — o pão de cevada, por sua estrutura porosa, de fato "puxa" (sho'evet) umidade líquida do vinho através do vapor, o que já não é mero aroma, mas transferência real de substância; o pão de trigo, mais denso e compacto, não faz o mesmo, e ali o efeito é puramente olfativo. A halachá acaba adotando a posição de que "cheiro não é uma coisa" como princípio geral (seguindo Rabi Yehudá), mas a distinção física de Rabi Yosei entre tipos de pão permanece instrutiva sobre como avaliar, caso a caso, se houve ou não transferência substancial.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica esta halachá seguindo a posição de Rabi Yosei, adotada como lei final.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Terumot 15:13
הָרוֹדֶה פַּת חַמָּה וּנְתָנָהּ עַל פִּי חָבִית שֶׁל יֵין תְּרוּמָה. אִם הָיְתָה פַּת חִטִּים הֲרֵי זוֹ מֻתֶּרֶת, וְשֶׁל שְׂעוֹרִים אֲסוּרִים מִפְּנֵי שֶׁשּׁוֹאֲבוֹת.
"O que retira pão quente e o coloca sobre a boca de um barril de vinho de teruma: se era pão de trigo, eis que é permitido; e o de cevada é proibido, porque absorve" (o Rambam codifica diretamente a posição de Rabi Yosei como halachá final, sem sequer mencionar explicitamente as opiniões divergentes de Rabi Meir e Rabi Yehudá — sinal de que a disputa entre eles foi resolvida pela distinção mais precisa e empiricamente fundamentada proposta por Rabi Yosei, que incorpora o princípio geral de que o cheiro sozinho não proíbe, mas a absorção efetiva de substância, sim).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Terumot 10:3
הסרת הפת מן התנור נקרא רודה, ואומר בכאן כי כשרודה ככר אחת חמה ונתנה ע"פ חבית שיהא מזיעה ושואבת ומתלחלחת מן היין שיש באותה חבית, ושואבת כמו מושכת, והלכה כר' יוסי.

A retirada do pão do forno chama-se rodeh (o termo técnico para tirar o pão assado do forno quente). E diz aqui que, quando se retira um pão quente e o coloca sobre a boca de um barril, ele transpira e absorve, e se umedece a partir do vinho que há naquele barril (o calor do pão fresco cria uma troca de umidade com o vapor que sobe do vinho abaixo). E sho'evet (absorve/puxa) é como "atrai" (a raiz do termo indica um movimento ativo de sucção, não apenas uma exposição passiva ao aroma). E a halachá segue Rabi Yosei (o Rambam confirma explicitamente qual das três opiniões foi adotada como lei final, resolvendo a disputa a favor da posição intermediária e mais tecnicamente precisa).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Terumot 10:3
הָרוֹדֶה. הוֹצָאַת הַפַּת מִן הַתַּנּוּר נִקְרֵאת רְדִיָּה: וּנְתָנָהּ עַל פִּי חָבִית שֶׁל יַיִן שֶׁל תְּרוּמָה. דְּהַשְׁתָּא הַפַּת קוֹלֶטֶת וְשׁוֹאֶבֶת מֵרֵיחַ הַיַּיִן: רַבִּי מֵאִיר אוֹסֵר. דְּסָבַר רֵיחָא מִלְּתָא הִיא: וְרַבִּי יְהוּדָה מַתִּיר. דְּסָבַר רֵיחָא לָאו מִלְּתָא הִיא: מִפְּנֵי שֶׁהַשְּׂעוֹרִים שׁוֹאֲבוֹת. מוֹשְׁכוֹת מִלַּחְלוּחִית יַיִן שֶׁל תְּרוּמָה. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי.

"O que retira": a retirada do pão do forno chama-se redyiá.

"E o colocou sobre a boca de um barril de vinho de teruma": pois agora o pão capta e absorve do aroma do vinho.

"Rabi Meir proíbe": porque entende que reicha milta hi — o cheiro é uma coisa (conta como transferência substancial suficiente para proibir).

"E Rabi Yehudá permite": porque entende que reicha lav milta hi — o cheiro não é uma coisa (mero aroma, sem substância transferida, não configura "dar sabor" proibitivo).

"Porque a cevada absorve": puxa da umidade do vinho de teruma (fisicamente extrai líquido, e não apenas capta aroma, o que a diferencia do pão de trigo). E a halachá segue Rabi Yosei (confirmando a mesma conclusão do Rambam — a posição intermediária de Rabi Yosei, fundamentada na física real da absorção, prevalece sobre as posições mais abstratas de Rabi Meir e Rabi Yehudá).

Massechet Terumot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.