Seder Moed · Massechet Shekalim · Perek ד׳ · Mishná 5 de 9

O excedente do incenso

מוֹתַר הַקְּטֹרֶת מֶה הָיוּ עוֹשִׂין בָּהּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Volta-se agora ao incenso, cuja quantidade fixa produzida anualmente sempre deixava sobra, e descreve o procedimento delicado usado para movimentar esse excedente sagrado sem violar a regra de que o consagrado só se dessacraliza sobre dinheiro, nunca sobre trabalho.

O excedente do incenso, o que faziam com ele? Separam dele o salário dos artesãos, e o dessacralizam sobre o salário dos artesãos, e o entregam aos artesãos como seu salário, e voltam a comprá-lo com teruma nova. — Como o incenso era preparado anualmente em quantidade fixa — suficiente para trezentos e sessenta e cinco dias mais o punhado extra de Yom Kipur —, quase sempre sobrava um excedente. Para movimentá-lo sem transgredir a regra de que dinheiro consagrado não se converte diretamente em pagamento por serviço, os tesoureiros primeiro separavam da teruma da câmara uma quantia comum equivalente ao salário dos artesãos que prepararam o incenso; depois dessacralizavam o incenso excedente sobre essa quantia — que então se tornava sagrada em lugar do incenso —, e só então entregavam o incenso, já comum, aos artesãos como pagamento; por fim, o Templo recomprava desses mesmos artesãos o incenso com dinheiro de teruma nova, para poder oferecê-lo com fundos do ano corrente.

Se a nova chegou em seu tempo, compram-no com a teruma nova; e se não, com a antiga. — Se ao chegar o momento de recomprar o incenso dos artesãos já haviam chegado shekalim suficientes da nova arrecadação, compravam-no com essa teruma nova; mas se a nova teruma ainda não havia se reunido, recorriam à teruma antiga, já dessacralizada, para não deixar o serviço do incenso interrompido.

מוֹתַר הַקְּטֹרֶת מֶה הָיוּ עוֹשִׂין בָּהּ, מַפְרִישִׁין מִמֶּנָּה שְׂכַר הָאֻמָּנִין, וּמְחַלְּלִין אוֹתָהּ עַל שְׂכַר הָאֻמָּנִין, וְנוֹתְנִין אוֹתָהּ לָאֻמָּנִין בִּשְׂכָרָן, וְחוֹזְרִין וְלוֹקְחִין אוֹתָהּ מִתְּרוּמָה חֲדָשָׁה. אִם בָּא הֶחָדָשׁ בִּזְמַנּוֹ, לוֹקְחִין אוֹתָהּ מִתְּרוּמָה חֲדָשָׁה. וְאִם לָאו מִן הַיְּשָׁנָה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Shemot 30:7-8
וְהִקְטִיר עָלָיו אַהֲרֹן קְטֹרֶת סַמִּים בַּבֹּקֶר בַּבֹּקֶר בְּהֵיטִיבוֹ אֶת־הַנֵּרֹת יַקְטִירֶנָּה׃ וּבְהַעֲלֹת אַהֲרֹן אֶת־הַנֵּרֹת בֵּין הָעַרְבַּיִם יַקְטִירֶנָּה קְטֹרֶת תָּמִיד לִפְנֵי יְהֹוָה לְדֹרֹתֵיכֶם׃
E Arão queimará sobre ele incenso aromático; toda manhã, quando preparar as lâmpadas, o queimará. E quando Arão acender as lâmpadas, ao entardecer, o queimará — incenso perpétuo diante do Eterno, por vossas gerações.

O incenso oferecido "toda manhã" e "ao entardecer" é chamado pela própria Torá de "קְטֹרֶת תָּמִיד" — incenso perpétuo — o que exige uma produção anual planejada com precisão para cobrir cada dia do ano sem interrupção. É precisamente essa margem de segurança na quantidade preparada que gera, ano após ano, o excedente cujo destino esta mishná regula.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shekalim 4:12
וְכָךְ הָיוּ עוֹשִׂין בְּמוֹתַר הַקְּטֹרֶת. מִשֶּׁיַגִּיעַ רֹאשׁ חֹדֶשׁ נִיסָן מְחַלְּלִין אוֹתוֹ עַל שְׂכַר הָאֻמָּנִין וְחוֹזְרִין מָעוֹת הַשָּׂכָר לְקֵיץ הַמִּזְבֵּחַ וְנוֹטְלִין הָאֻמָּנִין מוֹתַר הַקְּטֹרֶת בִּשְׂכָרָן וְחוֹזְרִין וְלוֹקְחִין אֶת הַקְּטֹרֶת מֵהֶן מִתְּרוּמָה חֲדָשָׁה... וְאִם אֵין לָהֶן תְּרוּמָה חֲדָשָׁה מַקְטִירִין אוֹתָהּ מִתְּרוּמָה יְשָׁנָה:

E assim faziam com o excedente do incenso: ao chegar o primeiro de Nissan, dessacralizam-no sobre o salário dos artesãos, e o dinheiro do salário volta para a sobremesa do altar, e os artesãos recebem o excedente do incenso como seu salário, e voltam a comprar o incenso deles com teruma nova... e se não têm teruma nova, oferecem-no com teruma antiga.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Shekalim 4:5
מוֹתַר הַקְּטֹרֶת מֶה הָיוּ עוֹשִׂין כוּ׳: אֵין סָפֵק כִּי הַקְּטֹרֶת שֶׁעוֹשִׂין לוֹקְחִין אוֹתָהּ מִתְּרוּמַת הַלִּשְׁכָּה, וְזֶה נִכְלָל מִדִּבְרֵיהֶם שֶׁאָמְרוּ בְּרֹאשׁ הַפֶּרֶק 'וְכָל קָרְבְּנוֹת הַצִּבּוּר'. וּכְשֶׁיִּשָּׁאֵר מִמֶּנָּה מוֹתָר יוֹתֵר עַל מַה שֶּׁאָנוּ צְרִיכִין, נִקַּח מִתְּרוּמַת הַלִּשְׁכָּה כְּמוֹ שְׂכַר הָאֻמָּן הָעוֹשֶׂה הַקְּטֹרֶת: וְאָמְרָם 'מִתְּרוּמַת הַלִּשְׁכָּה הָיוּ מַפְרִישִׁין מִמֶּנָּה שְׂכַר הָאֻמָּנִין' וּמִיָּד יַחֲזֹר אוֹתוֹ הַשָּׂכָר חֻלִּין בְּלִי סָפֵק, וְאַחַר כָּךְ מְחַלְּלִין הַמּוֹתָר שֶׁנִּשְׁאַר מִן הַקְּטֹרֶת עַל שְׂכַר הָאֻמָּנִין שֶׁחָזַר חֻלִּין, וְיַחֲזֹר אוֹתוֹ הַשָּׂכָר קֹדֶשׁ, וּמַחֲזִירִין אוֹתָן לִתְרוּמַת הַלִּשְׁכָּה, וְהַמּוֹתָר שֶׁנִּשְׁאַר מִן הַקְּטֹרֶת חֻלִּין, וְנוֹתְנִין לָהֶם בִּשְׂכָרָן, וְחוֹזְרִין וְלוֹקְחִין אוֹתוֹ מֵהֶם בְּסוֹף הַשָּׁנָה מִתְּרוּמָה חֲדָשָׁה:

"O excedente do incenso, o que faziam com ele etc.": não há dúvida de que o incenso que fazem, compram-no da teruma da câmara, e isso está incluído no que disseram no início do capítulo: "e todos os sacrifícios públicos". E quando resta dele um excedente além do que precisamos, tomamos da teruma da câmara como o salário do artesão que faz o incenso.

E disseram "da teruma da câmara separam o salário dos artesãos" — e imediatamente esse salário volta a ser dinheiro comum sem dúvida; e depois dessacralizam o excedente que restou do incenso sobre esse salário que voltou a ser comum, e esse salário volta a ser sagrado, e o devolvem à teruma da câmara; e o excedente do incenso, já comum, dão-no a eles como salário, e voltam a comprá-lo deles no fim do ano com teruma nova.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Shekalim 4:5
מוֹתַר הַקְּטֹרֶת. הַנּוֹתָר בְּכָל שָׁנָה: מֶה הָיוּ עוֹשִׂין בָּהּ. לְהַקְטִירָהּ לַשָּׁנָה הַבָּאָה, שֶׁאֵין לְךָ שָׁנָה שֶׁאֵין בָּהּ מוֹתָר, שֶׁהַקְּטֹרֶת הָיְתָה נַעֲשֵׂית שְׁלֹשׁ מֵאוֹת שִׁשִּׁים וּשְׁמֹנָה מָנִים: שְׁלֹשׁ מֵאוֹת שִׁשִּׁים וַחֲמִשָּׁה כְּמִנְיַן יְמוֹת הַחַמָּה, וּשְׁלֹשָׁה מָנִים שֶׁמֵּהֶם כֹּהֵן גָּדוֹל מַכְנִיס מְלֹא חָפְנָיו בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים: מַפְרִישִׁין מִמֶּנָּה. מִן הַלִּשְׁכָּה: שְׂכַר הָאֻמָּנִין. מִפַּטָּמֵי הַקְּטֹרֶת, שֶׁנּוֹטְלִים שְׂכָרָן מִתְּרוּמַת הַלִּשְׁכָּה, וּמְזַכִּין הַמָּעוֹת לָאֻמָּנִין עַל יַד אֶחָד מִן הַגִּזְבָּרִים, וַהֲרֵי הֵן חֻלִּין. וְאַחֲרֵי שֶׁזָּכוּ בַּמָּעוֹת מְחַלְּלִין הַקְּטֹרֶת עַל אוֹתָן הַמָּעוֹת, וְהַמָּעוֹת קְדוֹשִׁים לִתְרוּמָה יְשָׁנָה, וְנוֹתְנִים הַקְּטֹרֶת לָאֻמָּנִים בִּשְׂכָרָם, וְחוֹזְרִין וְקוֹנִין אוֹתָהּ מֵהֶן בְּמָעוֹת שֶׁל תְּרוּמָה חֲדָשָׁה: אִם בָּא הֶחָדָשׁ בִּזְמַנּוֹ. שֶׁהֵבִיאוּ שְׁקָלִים חֲדָשִׁים קֹדֶם רֹאשׁ חֹדֶשׁ נִיסָן, לוֹקְחִים מוֹתַר הַקְּטֹרֶת מִתְּרוּמָה חֲדָשָׁה עַל יְדֵי חִלּוּל: וְאִם לָאו. שֶׁלֹּא הֵבִיאוּ שְׁקָלִים חֲדָשִׁים עֲדַיִן, לוֹקְחִים אוֹתָהּ מִן הַתְּרוּמָה יְשָׁנָה, אִם חִלְּלוּהָ כְּבָר; וְאִם לֹא חִלְּלוּהָ, מַקְטִירִין אוֹתָהּ:

"Excedente do incenso" — o que resta a cada ano. "O que faziam com ele" — oferecê-lo no ano seguinte, pois não há ano sem excedente, já que o incenso era feito com trezentos e sessenta e oito manés — trezentos e sessenta e cinco conforme os dias solares, e três dos quais o sumo sacerdote toma um punhado no Dia do Perdão.

"Separam dele" — da câmara. "Salário dos artesãos" — dos que preparam o incenso, que recebem seu salário da teruma da câmara, transferido por meio de um dos tesoureiros, tornando-se comum; depois dessacralizam o incenso sobre esse dinheiro, que fica sagrado como teruma antiga, e dão o incenso aos artesãos como salário, e voltam a comprá-lo deles com dinheiro de teruma nova.

"Se a nova chegou em seu tempo" — se trouxeram shekalim novos antes do primeiro de Nissan, compram o excedente do incenso com a teruma nova por meio de dessacralização. "E se não" — compram-no da teruma antiga, se já a dessacralizaram; e se não, oferecem-no, pois é preciso trazer do antigo enquanto o novo não chega.

Massechet Shekalim não possui Guemará no Talmud Bavli — este tratado só tem Guemará no Talmud Yerushalmi, restando no Bavli apenas a Mishná e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.