Seder Moed · Massechet Shabat · Perek Kaf-Gimel · Mishná 1

Emprestar sem dizer "empresta-me"; a fórmula certa entre vizinhos

שׁוֹאֵל אָדָם מֵחֲבֵרוֹ כַּדֵּי יַיִן וְכַדֵּי שֶׁמֶן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Pede-se emprestado ao vizinho jarros de vinho e jarros de azeite, contanto que não se diga "empresta-me"; e assim também a mulher à sua vizinha, pães. E se não confia nele, deixa o manto junto dele e acerta as contas depois de Shabat. E assim também na véspera de Pêssach em Jerusalém que cai em Shabat: deixa o manto junto dele e recebe o seu cordeiro pascal, e acerta as contas depois do Yom Tov.

Pede-se emprestado ao vizinhoum israelita a outro, em pleno Shabat — jarros de vinho e jarros de azeitemedidas domésticas comuns de líquidos, para uso imediato da refeição — contanto que não se diga "empresta-me"pois a palavra "empresta-me" sugere um empréstimo por prazo prolongado, do tipo que se costuma anotar em um caderno de contas; e temendo que o credor venha a esquecer e escrever o valor emprestado, os Sábios vedaram essa expressão em Shabat — e assim também a mulher à sua vizinhao mesmo princípio se aplica entre mulheres — pãesoutro item de uso corriqueiro entre vizinhas — e se não confia nelese aquele que empresta receia que o outro esqueça a dívida — deixa o manto junto delecomo penhor, uma garantia física que não constitui em si nenhuma transação proibida, pois não há registro nem palavra escrita envolvida — e acerta as contas depois de Shabatsomente após a saída do dia sagrado é que se calcula o valor e se resolve a dívida — e assim também na véspera de Pêssach em Jerusalém que cai em Shabatquando o quatorze de Nissan coincide com o sétimo dia — deixa o manto junto dele e recebe o seu cordeiro pascalpois é preciso ainda providenciar o animal para o sacrifício pascal, mesmo em Shabat, e o mesmo princípio do penhor se aplica — e acerta as contas depois do Yom Tova liquidação da dívida espera até que termine também o dia festivo seguinte.

שׁוֹאֵל אָדָם מֵחֲבֵרוֹ כַּדֵּי יַיִן וְכַדֵּי שֶׁמֶן, וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יֹאמַר לוֹ הַלְוֵנִי, וְכֵן הָאִשָּׁה מֵחֲבֶרְתָּהּ כִּכָּרוֹת. וְאִם אֵינוֹ מַאֲמִינוֹ, מַנִּיחַ טַלִּיתוֹ אֶצְלוֹ וְעוֹשֶׂה עִמּוֹ חֶשְׁבּוֹן לְאַחַר שַׁבָּת. וְכֵן עֶרֶב פֶּסַח בִּירוּשָׁלַיִם שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּשַׁבָּת, מַנִּיחַ טַלִּיתוֹ אֶצְלוֹ וְנוֹטֵל אֶת פִּסְחוֹ, וְעוֹשֶׂה עִמּוֹ חֶשְׁבּוֹן לְאַחַר יוֹם טוֹב:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim 5:12-15
שָׁמוֹר אֶת יוֹם הַשַּׁבָּת לְקַדְּשׁוֹ כַּאֲשֶׁר צִוְּךָ ה׳ אֱלֹהֶיךָ׃ שֵׁשֶׁת יָמִים תַּעֲבֹד וְעָשִׂיתָ כָּל מְלַאכְתֶּךָ׃ וְיוֹם הַשְּׁבִיעִי שַׁבָּת לַה׳ אֱלֹהֶיךָ לֹא תַעֲשֶׂה כָל מְלָאכָה אַתָּה וּבִנְךָ וּבִתֶּךָ וְעַבְדְּךָ וַאֲמָתֶךָ וְשׁוֹרְךָ וַחֲמֹרְךָ וְכָל בְּהֶמְתֶּךָ וְגֵרְךָ אֲשֶׁר בִּשְׁעָרֶיךָ לְמַעַן יָנוּחַ עַבְדְּךָ וַאֲמָתְךָ כָּמוֹךָ׃ וְזָכַרְתָּ כִּי עֶבֶד הָיִיתָ בְּאֶרֶץ מִצְרַיִם וַיֹּצִאֲךָ ה׳ אֱלֹהֶיךָ מִשָּׁם בְּיָד חֲזָקָה וּבִזְרֹעַ נְטוּיָה עַל כֵּן צִוְּךָ ה׳ אֱלֹהֶיךָ לַעֲשׂוֹת אֶת יוֹם הַשַּׁבָּת׃
Guarda o dia de Shabat para santificá-lo, como Hashem teu Elohim te ordenou. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é Shabat para Hashem teu Elohim; não farás nenhum trabalho, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu servo, nem tua serva, nem teu boi, nem teu jumento, nem nenhum dos teus animais, nem teu estrangeiro que está dentro de tuas portas, para que descansem teu servo e tua serva como tu. E lembra-te de que foste escravo na terra do Egito, e Hashem teu Elohim te tirou de lá com mão forte e braço estendido; por isso Hashem teu Elohim te ordenou fazer o dia de Shabat.

Palavra versus escrita. Esta mishná abre o Perek Kaf-Gimel com um princípio que atravessa todo o capítulo: em Shabat, o próprio ato de falar sobre negócios, dívidas e contratações é restringido pelos Sábios — não porque a fala em si seja uma melachá da Torá, mas por um decreto preventivo (gezerá) contra o hábito de kotev (escrever), pois quem trata de assuntos financeiros tende a anotá-los para não esquecer. Por isso a mishná ensina a fórmula certa: "empresta-me" (linguagem de dívida formal, sujeita a registro) é vedada, mas o pedido informal de um jarro de vinho ou de um pão entre vizinhos — sem intenção de contrato — é perfeitamente permitido, ainda que o valor venha a ser acertado depois de Shabat (Rambam, Hilchot Shabat 23:12).

Halachot · הֲלָכוֹת

Como o Rambam codifica, em Hilchot Shabat, a distinção entre "emprestar e pedir emprestado" (permitido) e "tomar e dar em empréstimo formal" (vedado por decreto).

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 23:12
כּוֹתֵב מֵאֲבוֹת מְלָאכוֹת. לְפִיכָךְ אָסוּר לִכְחל בַּפּוּךְ וְכַיּוֹצֵא בּוֹ בְּשַׁבָּת מִפְּנֵי שֶׁהוּא כְּכוֹתֵב. וְאָסוּר לִלְווֹת וּלְהַלְווֹת גְּזֵרָה שֶׁמָּא יִכְתֹּב. וְכֵן אָסוּר לִקְנוֹת וְלִמְכֹּר וְלִשְׂכֹּר וּלְהַשְׂכִּיר גְּזֵרָה שֶׁמָּא יִכְתֹּב. לֹא יִשְׂכֹּר אָדָם פּוֹעֲלִים בְּשַׁבָּת וְלֹא יֹאמַר לַחֲבֵרוֹ לִשְׂכֹּר לוֹ פּוֹעֲלִין. אֲבָל לִשְׁאל וּלְהַשְׁאִיל מֻתָּר. שׁוֹאֵל אָדָם מֵחֲבֵרוֹ כַּדֵּי יַיִן וְכַדֵּי שֶׁמֶן וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יֵאָמֵר לוֹ הַלְוֵינִי:
Escrever é uma das trinta e nove categorias-mãe de melachá; por isso é proibido passar sombra nos olhos com pó de kohl e coisas semelhantes em Shabat, porque isso se assemelha a escrever. E é proibido tomar emprestado e emprestar formalmente, por decreto, para que não se venha a escrever. E do mesmo modo é proibido comprar e vender, contratar e alugar, por decreto, para que não se venha a escrever. Não se contrata trabalhadores em Shabat, nem se diz ao vizinho que contrate trabalhadores para si; mas pedir emprestado e emprestar é permitido. Pede-se emprestado ao vizinho jarros de vinho e jarros de azeite, contanto que não se diga a ele "empresta-me".

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Abertura do Perek Kaf-Gimel: os comentadores explicam por que "empresta-me" é a única palavra vedada, e como o penhor do manto resolve o problema da confiança sem violar Shabat.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Shabat 23:1
שואל אדם מחבירו כדי יין וכדי שמן כו': הטעם לאסור שיאמר אדם הלוני גזירה שמא יכתוב ויתר הדברים מובנים ומבוארים:

"Pede-se emprestado ao vizinho jarros de vinho e jarros de azeite etc." — o motivo de se proibir dizer "empresta-me" é o decreto preventivo, para que não se venha a escrever; e o restante das palavras da mishná é compreensível e claro por si mesmo.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Shabat 23:1
שׁוֹאֵל אָדָם מֵחֲבֵרוֹ כַּדֵּי יַיִן. אֲבָל לֹא יֹאמַר לוֹ הַלְוֵינִי, לְפִי שֶׁהַלְוָאָה נִכְתֶּבֶת, וְאָתֵי לְמִכְתַּב. וּמֵאַחַר שֶׁלֹּא הִזְכִּיר לְשׁוֹן הַלְוָאָה, אֶלָּא לְשׁוֹן שְׁאֵלָה, לָא אָתֵי לְמִכְתַּב:

"Pede-se emprestado ao vizinho jarros de vinho" — mas não se diz a ele "empresta-me", pois o empréstimo formal costuma ser registrado por escrito, e viria a escrever. E uma vez que não se mencionou a expressão de empréstimo, mas sim a expressão de pedido, não se chega a escrever.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Shabat 148a
מתני' שואל. שלא יאמר הלויני - מפרש בגמרא: שחל להיות בשבת - ולא נזכר מע"ש לקנות: לאחר יו"ט - ליום שלישי: גמ' הלויני - משמע לזמן מרובה וקיי"ל במסכת מכות (דף ג:) סתם הלואה ל' יום ואתי מלוה זה לכתוב על פנקסו כך וכך הלויתי כדי שלא ישכח:

"Pede-se emprestado" — "que não diga 'empresta-me'" é explicado na Guemará. "Que cai em Shabat" — e não se lembrou já na véspera de Shabat de comprar o cordeiro pascal. "Depois do Yom Tov" — refere-se ao terceiro dia (após o Shabat e o dia festivo seguinte).

Na Guemará: "Empresta-me" — dá a entender um empréstimo por prazo longo, e estabelecemos no tratado Makot (3b) que um empréstimo comum é de trinta dias; e esse credor viria a escrever em seu caderno "emprestei tal quantia a fulano", para que não esqueça.