Dobram-se as roupas — ao despi-las — mesmo quatro ou cinco vezes — no próprio Shabat, para voltar a vesti-las ainda naquele dia, contanto que seja uma só pessoa dobrando roupas brancas e novas, sem que se pareça com o ato de consertar as vestes — e arrumam-se as camas da noite de Shabat — isto é, na própria noite de sexta-feira que entra o Shabat, prepara-se a cama — para o dia de Shabat — para se deitar nela durante o Shabat — mas não de Shabat para o final de Shabat — pois não se pode realizar no Shabat um ato cujo único propósito é preparar algo para um dia comum que virá depois dele. Rabi Yishmael diz: dobram-se as roupas e arrumam-se as camas de Yom Kipur para Shabat — quando Yom Kipur cai numa sexta-feira, pois a santidade do Shabat é maior que a de Yom Kipur, sendo permitido preparar-se em Yom Kipur para o Shabat que virá — e as gorduras de Shabat são oferecidas em Yom Kipur — as partes gordurosas de sacrifícios trazidos no Shabat, se não puderam ser queimadas sobre o altar naquele dia, podem sê-lo no Yom Kipur seguinte — mas não as de Yom Kipur em Shabat — pois isso equivaleria a oferecer no Shabat uma oferenda de dia comum, já que a santidade do Shabat excede a de Yom Kipur. Rabi Akiva diz: nem as de Shabat são oferecidas em Yom Kipur, nem as de Yom Kipur são oferecidas em Shabat — pois, em sua opinião, as santidades de Shabat e Yom Kipur são equivalentes, e a oferenda de gordura de um dia não pode ser trazida no outro.
Esta mishná encerra o Perek Tet-Vav afastando-se do tema dos nós para tratar de um princípio relacionado, mas distinto: a proibição de hachaná, preparar no Shabat algo destinado a um dia posterior que não seja o próprio Shabat — seja dobrando roupas e arrumando camas, seja, no plano mais elevado do serviço do Templo, oferecendo as gorduras sacrificiais de um dia sagrado no outro.
O princípio de que o Shabat não prepara para o dia comum. Embora dobrar roupas e arrumar camas não sejam, em si, nenhuma das trinta e nove melachot proibidas pela Torá, os sábios restringiram esses atos quando praticados no Shabat com a finalidade exclusiva de beneficiar o dia seguinte — o que se conhece como a proibição rabínica de hachaná. A Guemará (Shabat 113a) explica que o mesmo princípio orienta a hierarquia entre Shabat e Yom Kipur no serviço do Templo: por ser a santidade do Shabat superior, é permitido usar o Shabat para preparar-se para Yom Kipur quando este vier depois, mas não o inverso, pois seria como usar o dia mais sagrado para servir ao menos sagrado. A disputa entre Rabi Yishmael e Rabi Akiva sobre as gorduras sacrificiais mostra que essa hierarquia entre os dois dias santos não era unânime entre os sábios.
Como o Rambam codifica a lei de dobrar as roupas no Shabat, em Hilchot Shabat, capítulo vinte e dois, no bloco das leis contra atos que aparentam consertar ou preparar.
Os comentadores explicam as quatro condições para dobrar roupas e a disputa sobre a hierarquia entre Shabat e Yom Kipur.
"Dobram-se as roupas mesmo quatro ou cinco vezes etc." — "dobrar" aqui significa as roupas que as pessoas costumam dobrar e guardar; e disseram que esse dobrar tem quatro condições, e só então é permitido desfazer sua dobra: que quem dobra seja uma só pessoa, e não que os que dobram sejam dois; que a roupa dobrada seja nova; que não seja tingida, mas branca; e que não tenha outra roupa para trocar por causa da honra do Shabat — e, por isso, é permitido dobrá-la e desfazer sua dobra, para que se veja que agora sua dobra foi desfeita.
E "arrumam-se" — arranjos de roupas sobre as camas, para dormir sobre elas; e há muitas palavras semelhantes, como "cama arrumada", sendo esta uma expressão hebraica, "leito de minha cama" (Bereshit 49:4).
E a halachá não segue Rabi Yishmael.
"Dobram-se as roupas" — roupas que, ao despi-las, dobram-se mesmo quatro ou cinco vezes, para voltar a vesti-las naquele mesmo dia; e não ensinaram isso senão quanto a uma só pessoa, mas não quanto a duas pessoas, pois parecem estar consertando.
E, quanto a uma só pessoa, também não o disseram senão de roupas novas, que são rígidas e não se amarrotam depressa; mas as velhas, seu dobrar as conserta ainda mais, e parece um conserto. E, quanto às novas, também não o disseram senão das brancas; mas as tingidas não, pois nas tingidas o dobrar as conserta ainda mais. E, quanto às brancas, também não o disseram senão de quem não tem outras roupas para trocar; mas quem tem outras roupas para trocar em honra do Shabat, é proibido dobrar.
"De Yom Kipur para Shabat" — quando Yom Kipur cai em véspera de Shabat, pois o Shabat é mais grave que Yom Kipur.
"E as de Yom Kipur não são oferecidas em Shabat" — pois seria como uma oferenda de dia comum em Shabat.
"Rabi Akiva diz" — são equivalentes, e a oferenda de um deles não é oferecida em lugar da do outro. E a halachá segue Rabi Akiva.
"Mishná: dobram-se as roupas" — vestes que, ao despi-las, dobram-se, pois se amolecem com a lavagem e se amarrotam quando não estão dobradas.
"Mesmo quatro ou cinco vezes" — para voltar a vesti-las naquele mesmo dia.
"De Yom Kipur para Shabat" — quando Yom Kipur cai em véspera de Shabat.
"São oferecidas em Yom Kipur" — quando este cai no final do Shabat.
Guemará: "com duas pessoas" — quando duas pessoas as dobram, alisam suas dobras e parecem estar consertando.
"Velhas" — seu dobrar as conserta mais que às novas, pois as novas são rígidas por si mesmas e não se amarrotam depressa.
"Tingidas" — seu dobrar as conserta.
"Tem" — outras para trocar naquele dia; "não tem" — não tem.
O encerramento do Perek Tet-Vav. Com esta mishná se conclui o Perek Tet-Vav, que abriu definindo o critério do nó "duradouro e de ofício" que gera responsabilidade plena por atar no Shabat, percorreu a lista dos nós cotidianos permitidos por não serem duradouros, e encerra com a proibição rabínica de preparar no Shabat aquilo que só beneficiará o dia seguinte — seja dobrando roupas, seja oferecendo gorduras sacrificiais de um dia sagrado no outro. O perek seguinte tratará de um tema de urgência prática: o que se pode salvar de um incêndio no Shabat, e os limites impostos à ação diante do perigo iminente aos bens e aos livros sagrados.