Seder Nezikin · Massechet Sanhedrin · Perek Yud-Alef · Mishná 5 de 6

Eu mesmo cobrarei dele

אָנֹכִי אֶדְרֹשׁ מֵעִמּוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná distingue duas categorias do falso profeta: quem inventa por completo uma profecia — executado pelo tribunal humano — e três outros casos mais sutis, cuja falta é julgada apenas pelo Céu.

O falso profeta que profetiza sobre o que não ouviu, e o que não lhe foi dito, sua morte é pela mão do homem. Mas quem suprime sua profecia, e quem renuncia às palavras de um profeta, e o profeta que transgride suas próprias palavras, sua morte é pela mão do Céu, como está dito: "Eu mesmo cobrarei dele." — A mishná distingue com precisão dois níveis de falta profética. No primeiro, o mais grave, o suposto profeta forja inteiramente sua mensagem — seja anunciando algo que jamais recebeu de Deus, seja apropriando-se de uma revelação genuína dirigida a outra pessoa — e por essa fraude deliberada e verificável é executado pelo tribunal terreno. No segundo nível, agrupam-se três faltas de natureza distinta, todas entregues ao julgamento Divino, e não humano: o profeta que, por medo ou comodismo, cala a mensagem que de fato recebeu; quem, com desprezo, ignora as palavras de um profeta legítimo; e o próprio profeta que, tendo recebido um mandado, falha em cumpri-lo. Em nenhum desses três casos há um ato externo comprovável que permita ao tribunal humano intervir — por isso a Torá reserva a cobrança a Deus mesmo.

נְבִיא הַשֶּׁקֶר הַמִּתְנַבֵּא עַל מַה שֶּׁלֹּא שָׁמַע וּמַה שֶּׁלֹּא נֶאֱמַר לוֹ, מִיתָתוֹ בִידֵי אָדָם. אֲבָל הַכּוֹבֵשׁ אֶת נְבוּאָתוֹ, וְהַמְוַתֵּר עַל דִּבְרֵי נָבִיא, וְנָבִיא שֶׁעָבַר עַל דִּבְרֵי עַצְמוֹ, מִיתָתוֹ בִידֵי שָׁמַיִם, שֶׁנֶּאֱמַר אָנֹכִי אֶדְרשׁ מֵעִמּוֹ:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Devarim 18:19-20
וְהָיָה הָאִישׁ אֲשֶׁר לֹא יִשְׁמַע אֶל דְּבָרַי אֲשֶׁר יְדַבֵּר בִּשְׁמִי, אָנֹכִי אֶדְרֹשׁ מֵעִמּוֹ. אַךְ הַנָּבִיא אֲשֶׁר יָזִיד לְדַבֵּר דָּבָר בִּשְׁמִי אֵת אֲשֶׁר לֹא צִוִּיתִיו לְדַבֵּר, וַאֲשֶׁר יְדַבֵּר בְּשֵׁם אֱלֹהִים אֲחֵרִים, וּמֵת הַנָּבִיא הַהוּא.
"E será que o homem que não ouvir as minhas palavras, que ele falar em meu nome, eu mesmo cobrarei dele. Mas o profeta que se atrever a falar em meu nome palavra que eu não lhe mandei falar, ou que falar em nome de outros deuses, esse profeta morrerá."
O primeiro verso, "eu mesmo cobrarei dele", é a fonte explícita citada pela própria mishná para os três casos entregues ao juízo do Céu. O segundo verso, imediatamente seguinte na Torá, é a fonte da pena capital humana para o falso profeta propriamente dito — aquele "que se atrever a falar em meu nome palavra que eu não lhe mandei falar" — precisamente a primeira categoria da mishná, "o que não ouviu"; a Guemará deriva a segunda categoria, "o que não lhe foi dito", da continuação do mesmo verso, sobre falar em nome de outros deuses o que de fato foi dito a outro profeta legítimo.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Sanhedrin 11:5
מה שלא שמע הוא שיאמר מה שלא באה בו נבואה מאת השם יתברך מעולם, ומה שלא נאמר לו הוא שיתנבא בנבואת זולתו ויאמר לי אמר השם יתברך זה הדבר, ולא נאמר לו אבל נאמר לזולתו... וכבר בארנו בפתיחת ספרינו זה חלוקי הנביאים.

Rambam precisa a distinção entre as duas categorias julgadas pelo tribunal humano: "o que não ouviu" é quem afirma ter recebido uma profecia que, na realidade, jamais lhe foi comunicada por Deus — invenção pura; "o que não lhe foi dito" é quem toma uma revelação genuína, mas dirigida a outro profeta, e a apresenta como se tivesse sido dita a ele mesmo. Remete o leitor à sua introdução geral à Mishná, onde já havia classificado as diferentes categorias de quem se apresenta como profeta, e como se determina, em cada caso, se a pretensão é verdadeira ou falsa.

Bartenura · Sanhedrin 11:5
מַה שֶּׁלֹּא שָׁמַע. מַה שֶּׁלֹּא נֶאֱמַר בִּנְבוּאָה לְשׁוּם נָבִיא בָעוֹלָם. וּמַה שֶּׁנֶּאֱמַר לַחֲבֵרוֹ וְלֹא לוֹ, וּשְׁמָעָהּ מִפִּי חֲבֵרוֹ וּבָא וְאָמַר שֶׁנֶּאֶמְרָה לוֹ — שְׁנֵי אֵלּוּ נְבִיאֵי הַשֶּׁקֶר הֵם, וּמִיתָתָן בְּחֶנֶק: מִיתָתָן בִּידֵי שָׁמַיִם. דִּכְתִיב וְהָיָה הָאִישׁ אֲשֶׁר לֹא יִשְׁמַע אֶל דְּבָרַי, קָרֵי בֵיהּ לֹא יִשְׁמַע, וּקְרִי בֵיהּ לֹא יַשְׁמִיעַ, וּקְרִי בֵיהּ לֹא יִשָּׁמַע הוּא עַצְמוֹ אֶל דְּבָרַי, הֲרֵי שְׁלָשְׁתָּן בַּכְּלָל.

Bartenura confirma que "o que não ouviu" é quem inventa por completo uma profecia jamais dita a nenhum profeta no mundo, enquanto "o que não lhe foi dito" é quem ouve algo da boca de um colega — a quem de fato foi dito — e se apropria da mensagem como se lhe tivesse sido dirigida diretamente; ambos são falsos profetas cuja morte é por estrangulamento. Quanto aos três casos entregues ao Céu, revela um recurso exegético refinado da Guemará: o mesmo verso "e será que o homem que não ouvir as minhas palavras" pode ser lido de três formas diferentes conforme se vocaliza a mesma grafia consonantal — "não ouvir", "não fizer ouvir [a outros]", e "ele mesmo não for ouvido quanto às minhas palavras" — de modo que as três leituras juntas abarcam exatamente os três culpados da mishná: quem suprime sua profecia, quem despreza a de outro profeta, e o profeta que não cumpre seu próprio mandado.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Sanhedrin 89b, s.v. חבריה דמיכה
חַבְרֵיהּ דְּמִיכָה — דִּכְתִיב וְאִישׁ אֶחָד מִבְּנֵי הַנְּבִיאִים אָמַר אֶל רֵעֵהוּ בִּדְבַר ה' הַכֵּנִי נָא, זֶה הָיָה מִיכָיְהוּ בֶּן יִמְלָא שֶׁנִּתְנַבֵּא אוֹתוֹ הַיּוֹם עַל אַחְאָב לִיפֹּל בְּיַד אֲרָם, מִפְּנֵי שֶׁנָּפַל בֶּן הֲדַד בְּיָדוֹ וְשִׁלְּחוֹ לְשָׁלוֹם, וְהַיְנוּ דְּקָאָמַר אַחְאָב לִיהוֹשָׁפָט לֹא יְדַבֵּר עָלַי טוֹב כִּי אִם רָע, מִפְּנֵי שֶׁנִּתְנַבֵּא כְּבָר אֶת זוֹ עָלָיו; וְלֹא קִבֵּל חֲבֵרוֹ אֶת דְּבָרָיו, דִּכְתִיב וַיְמָאֵן הָאִישׁ לְהַכּוֹתוֹ.

Sobre a categoria "o profeta que transgride suas próprias palavras" — um dos três casos julgados pelo Céu —, Rashi identifica na Guemará o episódio bíblico usado como ilustração: o colega do profeta Michayahu ben Yimla, que recebera a ordem profética de golpeá-lo simbolicamente em nome de Deus, e se recusou a fazê-lo. Rashi conta o pano de fundo completo: Michayahu havia profetizado naquele mesmo dia que o rei Achav cairia nas mãos da Arã, como punição por ter poupado o rei Ben Hadad, capturado em batalha e libertado em paz — e é a isso que Achav se refere, mais adiante, ao dizer a Yehoshafat que aquele profeta "nunca profetiza coisa boa a meu respeito, mas sempre má". Como o colega se recusou a cumprir a ordem de golpeá-lo, ele próprio se tornou culpado da categoria "profeta que transgride suas próprias palavras" — precisamente o caso que a mishná entrega ao juízo do Céu.