O falso profeta que profetiza sobre o que não ouviu, e o que não lhe foi dito, sua morte é pela mão do homem. Mas quem suprime sua profecia, e quem renuncia às palavras de um profeta, e o profeta que transgride suas próprias palavras, sua morte é pela mão do Céu, como está dito: "Eu mesmo cobrarei dele." — A mishná distingue com precisão dois níveis de falta profética. No primeiro, o mais grave, o suposto profeta forja inteiramente sua mensagem — seja anunciando algo que jamais recebeu de Deus, seja apropriando-se de uma revelação genuína dirigida a outra pessoa — e por essa fraude deliberada e verificável é executado pelo tribunal terreno. No segundo nível, agrupam-se três faltas de natureza distinta, todas entregues ao julgamento Divino, e não humano: o profeta que, por medo ou comodismo, cala a mensagem que de fato recebeu; quem, com desprezo, ignora as palavras de um profeta legítimo; e o próprio profeta que, tendo recebido um mandado, falha em cumpri-lo. Em nenhum desses três casos há um ato externo comprovável que permita ao tribunal humano intervir — por isso a Torá reserva a cobrança a Deus mesmo.
Rambam precisa a distinção entre as duas categorias julgadas pelo tribunal humano: "o que não ouviu" é quem afirma ter recebido uma profecia que, na realidade, jamais lhe foi comunicada por Deus — invenção pura; "o que não lhe foi dito" é quem toma uma revelação genuína, mas dirigida a outro profeta, e a apresenta como se tivesse sido dita a ele mesmo. Remete o leitor à sua introdução geral à Mishná, onde já havia classificado as diferentes categorias de quem se apresenta como profeta, e como se determina, em cada caso, se a pretensão é verdadeira ou falsa.
Bartenura confirma que "o que não ouviu" é quem inventa por completo uma profecia jamais dita a nenhum profeta no mundo, enquanto "o que não lhe foi dito" é quem ouve algo da boca de um colega — a quem de fato foi dito — e se apropria da mensagem como se lhe tivesse sido dirigida diretamente; ambos são falsos profetas cuja morte é por estrangulamento. Quanto aos três casos entregues ao Céu, revela um recurso exegético refinado da Guemará: o mesmo verso "e será que o homem que não ouvir as minhas palavras" pode ser lido de três formas diferentes conforme se vocaliza a mesma grafia consonantal — "não ouvir", "não fizer ouvir [a outros]", e "ele mesmo não for ouvido quanto às minhas palavras" — de modo que as três leituras juntas abarcam exatamente os três culpados da mishná: quem suprime sua profecia, quem despreza a de outro profeta, e o profeta que não cumpre seu próprio mandado.
Sobre a categoria "o profeta que transgride suas próprias palavras" — um dos três casos julgados pelo Céu —, Rashi identifica na Guemará o episódio bíblico usado como ilustração: o colega do profeta Michayahu ben Yimla, que recebera a ordem profética de golpeá-lo simbolicamente em nome de Deus, e se recusou a fazê-lo. Rashi conta o pano de fundo completo: Michayahu havia profetizado naquele mesmo dia que o rei Achav cairia nas mãos da Arã, como punição por ter poupado o rei Ben Hadad, capturado em batalha e libertado em paz — e é a isso que Achav se refere, mais adiante, ao dizer a Yehoshafat que aquele profeta "nunca profetiza coisa boa a meu respeito, mas sempre má". Como o colega se recusou a cumprir a ordem de golpeá-lo, ele próprio se tornou culpado da categoria "profeta que transgride suas próprias palavras" — precisamente o caso que a mishná entrega ao juízo do Céu.