Pessoas e utensílios se contaminam por meio do morto. Há maior rigor na pessoa do que nos utensílios, e nos utensílios mais do que na pessoa: pois nos utensílios há três, e na pessoa, dois. Maior rigor na pessoa: pois, sempre que ela está no meio, são quatro; e quando ela não está no meio, são três.
Esta mishná é uma síntese que olha para trás, para as três mishnayot anteriores, e extrai delas um princípio comparativo. Em uma cadeia formada só por utensílios (sem pessoa alguma), a impureza grave de sete dias se estende por três elos — o utensílio que toca no morto, e os utensílios de segundo e até de terceiro grau que tocam nos anteriores — enquanto numa cadeia formada só por pessoas, a impureza grave só chega a dois elos, pois uma terceira pessoa que tocasse na segunda já estaria pura. Nesse sentido, há mais rigor nos utensílios. Mas, por outro lado, quando a pessoa ocupa a posição intermediária de uma cadeia mista (utensílio–pessoa–utensílio), a impureza grave se estende por quatro elos inteiros — mais do que os três elos possíveis numa cadeia só de utensílios. Nesse sentido, há mais rigor na pessoa: sua presença no meio da cadeia é o que permite alcançar o número máximo de elos graves observado em todo o capítulo.
Rambam explica: uma vez compreendido o enunciado desta mishná, ela fica clara, pois já explicamos que os utensílios que tocam no morto, e os utensílios [que tocam] nos utensílios, são impuros com impureza de sete dias, e o terceiro, seja pessoa seja utensílios, é impuro com impureza de véspera — eis que a impureza já preparou, para os utensílios, esses três graus duplicados, e, para a pessoa, apenas dois, como já explicamos anteriormente. E se utensílios tocaram no morto, e uma pessoa nesses utensílios, e utensílios segundos nessa mesma pessoa — sendo a pessoa o elo intermediário entre os utensílios — eis que os três graus duplicados são impuros com impureza de sete dias, e o quarto grau é impuro com impureza de véspera; e já mencionamos todos esses princípios.
O que convém observar aqui é que a pessoa que toca no morto, quando em seguida toca em utensílios, ela os contamina com impureza de sete dias — e aprendemos isto por um raciocínio a fortiori [kal vachomer]: já que explicamos que os utensílios que tocam na pessoa que tocou nos utensílios que tocaram no morto são impuros com impureza de sete dias — isto é, os utensílios segundos —, sendo isto assim, é ainda mais evidente que os utensílios que tocam na pessoa que tocou no próprio morto, sem intermediário, sejam impuros com impureza de sete dias; e assim ficou explicado no Sifrei. Mas fique com você este princípio: a pessoa que se contaminou pelo morto contamina os utensílios com impureza de sete dias, e contamina seu companheiro [outra pessoa] apenas com impureza de véspera — e já nos alongamos na explicação deste princípio e de outros na introdução desta Ordem, onde ficou explicado que os utensílios a que se referem essas leis de impureza do morto são apenas utensílios de metal e vestes, e assim também os demais utensílios sujeitos a impureza, como se verá, para quem entender, a partir desses versículos mencionados no Sifrei.
Sobre “pois nos utensílios há três”: como, por exemplo, utensílios que tocaram no morto, e utensílios [que tocaram] nos utensílios, e ainda utensílios terceiros nos segundos — todos eles são impuros.
Sobre “e na pessoa, dois”: como, por exemplo, uma pessoa [que toca] no morto, e uma segunda pessoa nessa pessoa que se contaminou pelo morto; mas uma terceira pessoa que tocasse na segunda estaria pura.
Sobre “que ela está no meio”: como, por exemplo, utensílios, pessoa e utensílios, pois o quarto, seja pessoa seja utensílios, contamina-se com impureza de véspera, conforme já ouvimos da mishná anterior.