A Mishná · הַמִּשְׁנָה
Muda-se o tema: agora, o que se encontra caído ou perdido na estrada. Figos, por se sujarem e se descaracterizarem ao cair, não são reconhecíveis quanto à árvore de origem — por isso são permitidos quanto ao roubo e isentos de dízimo; já azeitonas e alfarrobas, que não se descaracterizam, presumem-se da árvore sob a qual foram achadas, e por isso obrigam
Quem acha figos cortados na estrada, mesmo ao lado de um campo de figos cortados (onde é evidente que caíram dali), e também uma figueira que se inclina sobre a estrada, e achou embaixo dela figos, são permitidos quanto ao roubo e isentos de dízimos (pois se presume que o dono já os deu por perdidos, e além disso os figos, ao caírem, sujam-se e não se reconhece de qual árvore vieram). Mas em azeitonas e alfarrobas, são obrigados (pois estas não se descaracterizam ao cair, e se reconhece que vieram desta árvore). Quem acha figos secos (já processados), se a maioria das pessoas já pisou (seus figos, isto é, já completou seu processamento), é obrigado (pois se presume que estes também já foram processados), e se não, está isento. Quem acha fatias de disco de figo prensado, é obrigado, pois é sabido que vêm de algo já totalmente processado. E quanto às alfarrobas, antes de as reunir no topo do telhado (seu local de secagem final), pode descer delas para o gado, isento, pois isso é devolver o excedente (ao lugar de secagem, não retirando definitivamente do processo).
מָצָא קְצִיצוֹת בַּדֶּרֶךְ, אֲפִלּוּ בְצַד שְׂדֵה קְצִיצוֹת, וְכֵן תְּאֵנָה שֶׁהִיא נוֹטָה עַל דֶּרֶךְ, וּמָצָא תַחְתֶּיהָ תְּאֵנִים, מֻתָּרוֹת מִשּׁוּם גָּזֵל וּפְטוּרוֹת מִן הַמַּעַשְׂרוֹת. וּבְזֵיתִים וּבְחָרוּבִים, חַיָּבִים. מָצָא גְרוֹגָרוֹת, אִם דָּרְסוּ רוֹב בְּנֵי אָדָם, חַיָּב, וְאִם לָאו, פָּטוּר. מָצָא פִלְחֵי דְבֵלָה, חַיָּב, שֶׁיָּדוּעַ שֶׁהֵן מִדָּבָר גָּמוּר. וְהֶחָרוּבִין, עַד שֶׁלֹּא כְנָסָן לְרֹאשׁ הַגַּג, מוֹרִיד מֵהֶם לִבְהֵמָה, פָּטוּר, מִפְּנֵי שֶׁהוּא מַחֲזִיר אֶת הַמּוֹתָר:
Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה
Esta mishná combina dois temas bíblicos: a lei da devolução do achado (hashavat aveidá) e a lei geral de que só se dizima aquilo cujo processamento foi de fato concluído.
Devarim (Deuteronômio) 22:1-3
לֹא תִרְאֶה אֶת שׁוֹר אָחִיךָ אוֹ אֶת שֵׂיוֹ נִדָּחִים וְהִתְעַלַּמְתָּ מֵהֶם, הָשֵׁב תְּשִׁיבֵם לְאָחִיךָ.
"Não verás o boi do teu irmão, ou sua ovelha, desgarrados, e te desviarás deles; sem falta os devolverás ao teu irmão" (Devarim 22:1-3) — este mandamento de devolução do achado (hashavat aveidá) fundamenta a categoria de "muttar mishum gazel" (permitido quanto ao roubo): quando é razoável presumir que o dono já desistiu de recuperar o objeto perdido — porque não há como identificá-lo, ou porque sua natureza indica desistência —, o achador pode ficar com ele, e a obrigação de devolver não se aplica. É exatamente esse raciocínio que a mishná aplica aos figos caídos: por se descaracterizarem, presume-se que o dono os deu por perdidos.
Por que figos são diferentes de azeitonas e alfarrobas? A lei geral de que só se dizima o produto cujo processamento foi concluído (visto nos Perakim Alef e Bet) aqui se cruza com a incerteza sobre a origem do achado. Figos, ao caírem no chão, ficam sujos e alterados em sua aparência — perde-se a capacidade de saber se pertencem à árvore próxima ou a outra, trazidos de outro lugar; por isso presumem-se sem dono definido, permitidos quanto ao roubo (o "gazel" não se aplica a algo cujo dono é desconhecido e presumivelmente já desistiu) e isentos de dízimo, exceto pela leve obrigação do demai por segurança. Já azeitonas e alfarrobas mantêm sua aparência reconhecível mesmo caídas — por isso presume-se com segurança que vieram da árvore sob a qual foram achadas, e o achador deve devolver o que é do dono e, se ficar com elas por serem consideradas do dono desconhecido em sentido diverso, deve dizimar.
Halachot · הֲלָכוֹת
O Rambam codifica quase literalmente esta mishná em Hilchot Tithes, no capítulo dedicado aos casos de achado e aos critérios de conclusão do processamento.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Tithes 3:21
הַמּוֹצֵא קְצִיצוֹת בַּדֶּרֶךְ אֲפִלּוּ בְּצַד שְׂדֵה קְצִיצוֹת, הֲרֵי אֵלּוּ פְּטוּרִין מִן הַמַּעֲשֵׂר. מָצָא גְּרוֹגָרוֹת, אִם דָּרְסוּ רֹב הָאָדָם, חַיָּב לְעַשֵּׂר, שֶׁחֶזְקָתָן מִדָּבָר שֶׁנִּגְמְרָה מְלַאכְתָּן. וְכֵן אִם מָצָא פִּלְחֵי דְּבֵלָה שֶׁיָּדוּעַ שֶׁהֵם מִדָּבָר הַגָּמוּר.
"Quem acha frutos cortados na estrada, mesmo ao lado de um campo de frutos cortados, estes estão isentos de dízimo. Se achou figos secos, se a maioria das pessoas já os pisou, é obrigado a dizimar, pois presumem-se de algo cujo processamento se completou. E o mesmo se achou fatias de disco de figo prensado, pois é sabido que vêm de algo já totalmente processado" (o Rambam segue quase literalmente a mishná, confirmando que o critério decisivo é sempre a presunção sobre a conclusão do processamento, e não apenas a questão da propriedade).
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Tithes 3:24
הַמּוֹצֵא זֵיתִים תַּחַת הַזַּיִת וְחָרוּבִין תַּחַת הֶחָרוּב, חַיָּבִים בְּמַעֲשֵׂר, שֶׁחֶזְקָתָן שֶׁמֵּאִילָן זֶה נָפְלוּ. מָצָא תְּאֵנִים תַּחַת הַתְּאֵנָה, הֲרֵי הֵם סָפֵק, שֶׁהֲרֵי מִשְׁתַּנּוֹת וּמִתְלַכְלְכוֹת בֶּעָפָר, שֶׁמָּא מִתְּאֵנָה זוֹ נָפְלוּ אוֹ מִתְּאֵנִים שֶׁנִּתְעַשְּׂרוּ.
"Quem acha azeitonas sob a oliveira, ou alfarrobas sob a alfarrobeira, são obrigados ao dízimo, pois se presume que caíram desta árvore. Quem acha figos sob a figueira, estes são dúvida, pois se alteram e se sujam com a terra — talvez tenham caído desta figueira, ou de figos já dizimados de outra origem" (o Rambam esclarece o motivo exato da distinção: não é que os figos sejam menos valiosos, mas que sua alteração física ao cair torna impossível determinar a origem com a mesma segurança que se tem com azeitonas e alfarrobas, que preservam sua forma reconhecível).
Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.
Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maasrot 3:4
קְצִיצוֹת. גַּרְגְּרִים תְּלוּשִׁים מֵאֵי זֶה אִילָן שֶׁיִּהְיוּ. בְּזֵיתִים וּבְחָרוּבִים חַיָּבִים בִּתְנַאי שֶׁיִּמָּצֵא הַזֵּיתִים תַּחַת אִילַן הַזֵּיתִים וְהַחֲרוּבִין תַּחַת אִילַן הַחֲרוּבִין... אֲבָל הַתְּאֵנִים שֶׁמִּתְלַכְלְכִין וּמִשְׁתַּנּוֹת בְּצוּרָתָן כְּשֶׁמָּצָא אוֹתָן תַּחַת הַתְּאֵנָה, אֵינוֹ מַכִּיר אִם מִזּוֹ הַתְּאֵנָה נָפְלוּ וְנִשְׁתַּנּוּ... וּמִפְּנֵי זֶה אֵין בָּהֶם מִשּׁוּם גָּזֵל וּפְטוּרִים מִן הַמַּעֲשֵׂר, אֲבָל יְעַשֵּׂר דְּמַאי בִּלְבַד.
"Ketzitzot": grãos destacados de qualquer árvore que sejam. Em azeitonas e alfarrobas, são obrigados, com a condição de que se achem as azeitonas sob a oliveira e as alfarrobas sob a alfarrobeira (isto é, sob a árvore correspondente). Mas os figos, que se sujam e se alteram em sua forma, quando os acha sob a figueira, não se reconhece se caíram desta figueira e se alteraram, ou se vieram de outro lugar sem que o dono da figueira tenha direito sobre eles — e por isso não há neles questão de roubo, e estão isentos de dízimo; mas deve dizimá-los apenas como demai (dízimo duvidoso, por precaução).
Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maasrot 3:4
וַאֲפִלּוּ בְצַד שְׂדֵה קְצִיעוֹת. דְּמוֹכְחָא מִלְּתָא דְּמֵהַךְ שָׂדֶה נָפוּל, אֲפִלּוּ הָכִי מֻתָּרוֹת מִשּׁוּם גָּזֵל, דְּמִסְּתָמָא נִתְיָאֲשׁוּ הַבְּעָלִים מֵהֶן... פִּלְחֵי דְבֵלָה. אַחַר שֶׁנִּדְרְסוּ בָעִגּוּל מְחַלְּקִים הָעִגּוּל לְכַמָּה פְּלָחִין, וְיֵשׁ בְּפֶלַח הַרְבֵּה דְבֵלוֹת דְּבוּקוֹת זוֹ בָזוֹ: עַד שֶׁלֹּא כְנָסָן לְרֹאשׁ הַגַּג. לַעֲשׂוֹת מֵהֶן עֲרֵמָה, שֶׁהוּא גָרְנָן שֶׁל חָרוּבִין לַמַּעֲשֵׂר.
"Mesmo ao lado de um campo de discos secos": ainda que seja evidente que caíram deste campo, mesmo assim são permitidos quanto ao roubo, pois presumivelmente os donos já desistiram deles (dada a impossibilidade de identificar com certeza a que produção pertencem). "Fatias de disco de figo prensado": depois de pisados em círculo, o disco se divide em várias fatias, e em cada fatia há muitos figos secos colados uns aos outros. "Antes de as reunir no topo do telhado": para fazer delas um monte, que é o local de processamento final das alfarrobas para o dízimo.
Massechet Maasrot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.