Seder Zeraim · Massechet Maaser Sheni · Perek Guimel · Mishná 2

"Não se compra teruma com dinheiro do segundo dízimo"

אֵין לוֹקְחִין תְּרוּמָה בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר שֵׁנִי
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná proíbe comprar teruma com dinheiro do segundo dízimo, pois isso reduziria o número de pessoas aptas a consumir o produto: enquanto o dízimo pode ser comido por qualquer israelita puro, a teruma só pode ser comida por sacerdotes (cohanim) em estado de pureza. Rabi Shimon discorda, argumentando por analogia com as oferendas de paz — que, embora sujeitas a leis mais severas (piggul, notar, tumá), podem ser comidas por qualquer israelita; os sábios respondem que a analogia falha, pois justamente o fato de a teruma ser vedada a não-sacerdotes é o que a torna inadequada para ser comprada com dinheiro do dízimo

Não se compra teruma com dinheiro do segundo dízimo, porque isso reduz o número dos que podem comê-la (pois a teruma só pode ser comida por sacerdotes em estado de pureza, ao passo que o segundo dízimo, se comprado como fruto comum, poderia ser comido por qualquer israelita puro — logo, convertê-lo em teruma restringiria seu círculo de consumidores legítimos). Mas Rabi Shimon permite (argumentando que essa restrição não deveria ser motivo suficiente para proibir a compra). Disse-lhes Rabi Shimon: se a lei foi leniente quanto às oferendas de paz — que podem tornar-se piggul, notar ou impuras (estados que as tornam proibidas e sujeitas a punições severas), não deveríamos ser leniente também quanto à teruma? (já que a teruma, ao menos, não está sujeita a essas categorias adicionais de proibição). Disseram-lhe: se a lei foi leniente quanto às oferendas de paz, é porque elas são permitidas aos não-sacerdotes (zarim, ou seja, israelitas comuns), seremos leniente também quanto à teruma, que é proibida aos não-sacerdotes? (a resposta dos sábios inverte o argumento: a leniência com as oferendas de paz se justifica precisamente porque elas continuam acessíveis a todo israelita; a teruma, ao contrário, exclui de saída a maioria do povo, e é exatamente essa exclusão que a Mishná quer evitar ao proibir sua compra com dinheiro do dízimo).

אֵין לוֹקְחִין תְּרוּמָה בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר שֵׁנִי, מִפְּנֵי שֶׁהוּא מְמַעֵט בַּאֲכִילָתוֹ, וְרַבִּי שִׁמְעוֹן מַתִּיר. אָמַר לָהֶם רַבִּי שִׁמְעוֹן, מָה אִם הֵקֵל בְּזִבְחֵי שְׁלָמִים, שֶׁהוּא מְבִיאָן לִידֵי פִגּוּל וְנוֹתָר וְטָמֵא, לֹא נָקֵל בַּתְּרוּמָה. אָמְרוּ לוֹ, מָה אִם הֵקֵל בְּזִבְחֵי שְׁלָמִים, שֶׁהֵן מֻתָּרִים לְזָרִים, נָקֵל בַּתְּרוּמָה, שֶׁהִיא אֲסוּרָה לְזָרִים:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná compara duas categorias distintas de santidade — a teruma, reservada aos sacerdotes, e o segundo dízimo, acessível a todo israelita — para explicar por que uma não pode ser comprada com o dinheiro da outra.

Devarim (Deuteronômio) 14:26 · Bamidbar (Números) 18:11
וְנָתַתָּה הַכֶּסֶף בְּכֹל אֲשֶׁר תְּאַוֶּה נַפְשְׁךָ... כֹּל טָהוֹר בְּבֵיתְךָ יֹאכַל אֹתוֹ.
"E darás o dinheiro por tudo que tua alma desejar" (Devarim 14:26) — este versículo permite que o dinheiro do segundo dízimo seja usado para comprar, em Jerusalém, qualquer produto que sirva de comida ou bebida, para que seja consumido pelo próprio dono. Mas a Torá também estabelece, quanto à teruma dada aos sacerdotes, que "todo puro em tua casa a comerá" (Bamidbar 18:11) — restringindo seu consumo à casa do próprio sacerdote e a seus dependentes ritualmente puros, e proibindo-a a qualquer israelita comum (zar). A Mishná deduz que, se o dinheiro do dízimo fosse usado para comprar teruma, o produto que deveria ser "comido diante do Eterno" por qualquer israelita puro passaria a ser restrito apenas aos sacerdotes — indo contra a própria finalidade do dízimo, que é ampliar, não restringir, o círculo de quem participa da refeição sagrada em Jerusalém.

Por que a analogia de Rabi Shimon não convence os sábios? Rabi Shimon tenta argumentar do mais leve para o mais pesado (kal vachomer): se a halachá já permite comprar com dinheiro do dízimo até animais destinados a oferendas de paz — que, uma vez consagrados, podem se tornar piggul (quando o sacerdote tem, no momento do sacrifício, a intenção indevida de comê-los fora do prazo), notar (sobra além do prazo permitido) ou impuros, tornando-se proibidos e sujeitos a penas graves —, por que não permitir também a compra de teruma, que não está sujeita a essas três categorias adicionais de risco? Os sábios respondem invertendo o eixo da comparação: o que importa não é o grau de risco ritual, mas o alcance do consumo. As oferendas de paz, apesar de seus riscos, continuam sendo carne que qualquer israelita pode comer — preservando a finalidade do dízimo de ser desfrutado amplamente. A teruma, ainda que "mais segura" em termos de piggul e notar, está de saída vedada a todo não-sacerdote — e é justamente essa exclusão structural, não o risco ocasional, que a Mishná quer evitar ao proibir sua compra com o dinheiro do segundo dízimo.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica o princípio desta mishná em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva (Mishné Torá), capítulo 7, halachá 11, no contexto mais amplo de quais produtos podem e não podem ser comprados com o dinheiro do segundo dízimo. A lei segue os sábios, e não Rabi Shimon.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 7:11
אֵין לוֹקְחִין תְּרוּמוֹת בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר מִפְּנֵי שֶׁהוּא מְמַעֵט אֲכִילָתוֹ וַאֲכִילָתָהּ. שֶׁאֵין אוֹכְלִין אוֹתָהּ אֶלָּא כֹּהֲנִים מְעֹרְבֵי שֶׁמֶשׁ וּמֻתֶּרֶת לְאוֹנֵן וְנֶאֱכֶלֶת בְּכָל מָקוֹם. וְהַמַּעֲשֵׂר מֻתָּר לְזָרִים וְלִטְבוּל יוֹם וְאָסוּר לְאוֹנֵן וְאֵינוֹ נֶאֱכָל אֶלָּא בִּירוּשָׁלַיִם. נִמְצָא מְמַעֵט אֲכִילַת מַעֲשֵׂר וַאֲכִילַת הַתְּרוּמָה.
"Não se compram terumot com dinheiro do dízimo, porque isso reduz sua alimentação e a alimentação dela (reduz tanto o consumo do dízimo quanto o da teruma). Pois a teruma só pode ser comida por sacerdotes que já se purificaram por completo (mearvei shemesh — que já passaram o pôr do sol após a imersão ritual), mas é permitida a um enlutado no dia da morte (onen) e pode ser comida em qualquer lugar. E o dízimo é permitido aos não-sacerdotes e a quem imergiu no mesmo dia mas ainda aguarda o pôr do sol, mas é proibido ao enlutado, e só pode ser comido em Jerusalém. Resulta que se reduz tanto o consumo do dízimo quanto o consumo da teruma" (o Rambam explica com mais detalhe do que a própria mishná: a incompatibilidade é mútua — cada uma das duas categorias tem regras de pureza, luto e localização diferentes e, por vezes, opostas, de modo que fundir as duas santidades numa só compra reduziria as possibilidades legítimas de consumo em ambas as direções, não apenas na direção da teruma).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 3:2
מִפְּנֵי שֶׁהוּא מְמַעֵט בַּאֲכִילָתוֹ. עִנְיָנוֹ שֶׁיְּמַעֵט בַּאֲכִילָתוֹ לְפִי שֶׁהַתְּרוּמָה אֲסוּרָה לְזָרִים וּלְטָבוּל יוֹם, וְהַמַּעֲשֵׂר מֻתָּר לְזָרִים וּלְטָבוּל יוֹם. וְכֵן מְמַעֵט בַּאֲכִילַת תְּרוּמָה, כִּי הַתְּרוּמָה מֻתֶּרֶת לְאוֹנֵן וְתֵאָכֵל בְּכָל מָקוֹם, וּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי אָסוּר לְאוֹנֵן... וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן.

"Porque isso reduz seu consumo": o significado é que se reduz o consumo do dízimo, pois a teruma é proibida aos não-sacerdotes e a quem imergiu no mesmo dia, ao passo que o dízimo é permitido a ambos. E, do mesmo modo, reduz-se o consumo da teruma, pois a teruma é permitida ao enlutado e pode ser comida em qualquer lugar, enquanto o segundo dízimo é proibido ao enlutado (e só pode ser comido em Jerusalém — o Rambam detalha aqui as quatro categorias de pessoas e lugares em que as regras da teruma e do dízimo divergem, mostrando como a fusão das duas santidades restringiria, em ambas as direções, quem pode comer o quê, e onde)... E a lei não segue Rabi Shimon (a decisão final segue a opinião dos sábios, que prevaleceu).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 3:2
מִפְּנֵי שֶׁהוּא מְמַעֵט בַּאֲכִילָתוֹ. דִּתְרוּמָה אֲסוּרָה לִטְבוּל יוֹם וּלְזָרִים.

"Porque isso reduz seu consumo": pois a teruma é proibida a quem imergiu no mesmo dia (mas ainda aguarda o pôr do sol para completar sua purificação) e aos não-sacerdotes (o Bartenura resume, em uma única frase, o motivo central: a teruma é uma categoria de santidade mais restritiva quanto a quem pode comê-la — restrita a sacerdotes já plenamente puros —, e por isso convertê-la a partir do dinheiro do dízimo, que é amplamente acessível, representaria uma perda líquida de possibilidades de consumo lícito).

Massechet Maaser Sheni não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.