Os shiraim e o calach não têm neles kilaim, mas são proibidos por aparência [de ser lã com linho]. Os travesseiros e as almofadas não têm neles kilaim, contanto que sua pele não toque neles. Não há uso ocasional para kilaim; e não se vestirá kilaim, ainda que sobre dez [outras vestes], ainda que para enganar o cobrador de impostos.
A Mishná anterior estabeleceu que apenas lã e linho constituem shaatnez; esta Mishná extrai duas consequências — a proibição rabínica adicional por aparência, e a distinção entre roupa que se veste e tecido em que apenas se recosta.
Por que a seda é proibida por aparência, e por que o travesseiro é permitido. Os shiraim e o calach são tipos de seda — material que, nos tempos da Mishná, não era comumente conhecido ou distinguido do público em geral, e cuja textura lisa lembrava o linho, ao passo que sua maciez lembrava a lã. Embora a seda não seja, por lei da Torá, nem lã nem linho — não constituindo, portanto, shaatnez algum —, os sábios proibiram misturá-la com lã ou linho por marit ha'ayin ("aparência aos olhos"): quem visse alguém vestindo essa combinação suporia, erroneamente, que se tratava de lã com linho, e viria a permitir a si mesmo o shaatnez verdadeiro. A segunda cláusula deriva da expressão "não subirá sobre ti" do versículo: a proibição bíblica recai sobre vestir — cobrir o corpo com a veste, de modo que ela "suba" sobre a pessoa —, não sobre simplesmente sentar ou deitar sobre um tecido de kilaim que serve de base, como um travesseiro rígido e vazio colocado sobre um banco, contanto que a pele não tenha contato direto que gere aquecimento. A Mishná fecha com a regra mais rigorosa do capítulo: não existe "uso ocasional" que isente da proibição — vestir shaatnez mesmo por um instante, mesmo sobre dez outras vestes que impedem qualquer contato físico e qualquer benefício térmico, e mesmo com o propósito ostensivamente lícito de enganar um cobrador de impostos, ainda constitui transgressão plena.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.
O Rambam mantém a estrutura da Mishná quase palavra por palavra, mas acrescenta um detalhe geográfico sobre a origem do calach — um material semelhante à lã, extraído de organismos que crescem sobre pedras no Mar Morto — e confirma que a proibição de shaatnez recai apenas sobre o ato de vestir ou cobrir-se, permitindo a fabricação e a venda de tecidos mistos.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
"Shiraim e calach": são tipos de seda, e assemelham-se como se fossem lã e linho, porque um desses tipos é liso como o linho, e o outro tem certa rigidez e é felpudo como a lã.
"Não há uso ocasional para kilaim": quer dizer que é proibido vesti-los mesmo de maneira ocasional, como se explicou dizendo "não vestirá kilaim ainda que sobre outras vestes, uma sobre a outra"; e mesmo para enganar o cobrador de impostos, não tem permissão de vesti-lo — e assim era o costume deles.
"Os shiraim e o calach": são tipos de seda; e o calach cresce nas cidades marítimas, e sua forma é como a forma do ouro, e é extremamente macio e semelhante à lã.
"Mas são proibidos": porque se pode confundi-los com lã e linho — e como não eram comuns entre eles, não os reconheciam bem, e viriam a confundir; por isso são proibidos por aparência aos olhos. Mas hoje, quando a seda é comum entre nós e todos a conhecem e reconhecem, nenhum tipo de seda é proibido com lã ou linho; e o mesmo vale para o cânhamo, permitido tanto com lã quanto com linho, pois todos o reconhecem.
"Os travesseiros e as almofadas não têm neles kilaim": porque são feitos para deitar-se, e a Torá disse "não subirá sobre ti" — mas é permitido a ti estendê-lo sob ti. E isso vale quando são rígidos e vazios e colocados sobre um banco; então são permitidos, quando sua pele não os toca; mas se são macios ou cheios, ou mesmo vazios mas colocados sobre uma cama — mesmo dez colchões um sobre o outro com kilaim embaixo — é proibido dormir sobre eles, pois se dobram por baixo e se enrolam sobre a pele.