Seder Nashim · Massechet Kidushin · Perek Guimel · Mishná 1 de 13

O agente que consagra para si mesmo e o kidushin condicionado a um prazo

הָאוֹמֵר לַחֲבֵרוֹ צֵא וְקַדֵּשׁ לִי
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abrindo o Perek Guimel, a mishná trata do kidushin realizado por um agente infiel que consagra a mulher para si mesmo, e do kidushin condicionado ao decurso de um prazo — casos em que a validade da consagração depende do momento exato em que ela produz efeito.

Aquele que diz a seu companheiro: ‘Vai e consagra para mim a mulher fulana’ — e ele foi e a consagrou para si mesmo —, ela está consagrada [a ele]. E do mesmo modo, aquele que diz a uma mulher: ‘Eis que tu estás consagrada a mim depois de trinta dias’ — e veio outro e a consagrou dentro dos trinta dias —, ela está consagrada ao segundo; [sendo ela] filha de israelita [consagrada] a um cohen, comerá da terumá. [Se disse:] ‘Desde agora e depois de trinta dias’ — e veio outro e a consagrou dentro dos trinta dias —, ela está consagrada e não está consagrada; [sendo ela] filha de israelita [consagrada] a um cohen, ou filha de cohen [consagrada] a um israelita, não comerá da terumá.Esta mishná, que abre o Perek Guimel, trata de dois casos ligados ao kidushin condicionado ao tempo ou realizado por agente. No primeiro caso, o homem enviado como mensageiro genérico (‘vai e consagra para mim’) e que, em vez disso, consagrou a mulher para si mesmo, age com deslealdade — mas, como não foi designado agente exclusivo, seu próprio kidushin é juridicamente válido, e quem o enviou não tem kidushin algum sobre ela. No segundo caso, o kidushin declarado para valer somente ‘depois de trinta dias’ não produz efeito imediato: durante esse prazo a mulher permanece juridicamente livre, e se um segundo homem a consagra nesse intervalo, o kidushin dele é o único válido — por isso, sendo ela filha de israelita, pode comer da terumá do cohen a quem foi consagrada. Mas se o primeiro disse ‘desde agora e depois de trinta dias’ — fórmula ambígua que sugere tanto efeito imediato quanto blindagem contra kidushin concorrente —, o segundo kidushin cria uma dúvida genuína: ela fica ‘consagrada e não consagrada’, presa a ambos, e precisa de get de ambos antes de poder casar-se com qualquer um; por isso não pode comer da terumá em nenhuma das duas direções — a incerteza jurídica bloqueia o privilégio.

הָאוֹמֵר לַחֲבֵרוֹ, צֵא וְקַדֵּשׁ לִי אִשָּׁה פְלוֹנִית וְהָלַךְ וְקִדְּשָׁהּ לְעַצְמוֹ, מְקֻדֶּשֶׁת. וְכֵן הָאוֹמֵר לְאִשָּׁה, הֲרֵי אַתְּ מְקֻדֶּשֶׁת לִי לְאַחַר שְׁלשִׁים יוֹם, וּבָא אַחֵר וְקִדְּשָׁהּ בְּתוֹךְ שְׁלשִׁים יוֹם, מְקֻדֶּשֶׁת לַשֵּׁנִי. בַּת יִשְׂרָאֵל לְכֹהֵן, תֹּאכַל בַּתְּרוּמָה. מֵעַכְשָׁיו וּלְאַחַר שְׁלשִׁים יוֹם, וּבָא אַחֵר וְקִדְּשָׁהּ בְּתוֹךְ שְׁלשִׁים יוֹם, מְקֻדֶּשֶׁת וְאֵינָהּ מְקֻדֶּשֶׁת. בַּת יִשְׂרָאֵל לְכֹהֵן אוֹ בַת כֹּהֵן לְיִשְׂרָאֵל, לֹא תֹאכַל בַּתְּרוּמָה:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Kidushin 3:1
הָאוֹמֵר לַחֲבֵרוֹ צֵא וְקַדֵּשׁ לִי אִשָּׁה פְלוֹנִית כוֹ': אָמַר חֲבֵרוֹ וְלֹא אָמַר שְׁלוּחוֹ לְהוֹדִיעֲךָ וַאֲפִלּוּ שֶׁהוּא אוֹהֲבוֹ שֶׁלֹּא הָיָה רוֹמֶה אוֹתוֹ כְּמוֹ שֶׁרִמָּהוּ, מַה שֶּׁעָשָׂה עָשׂוּי: וְאָמַר מְקֻדֶּשֶׁת לַשֵּׁנִי שֶׁהָרְשׁוּת בְּיָדוֹ לִישָּׂאָהּ כָּל זְמַן שֶׁיִּרְצֶה וַאֲפִלּוּ בְּתוֹךְ אֵלּוּ הַשְּׁלֹשִׁים יוֹם אוֹ אַחַר כֵּן. וְאָמַר בַּת כֹּהֵן לְיִשְׂרָאֵל תֹּאכַל בַּתְּרוּמָה חוֹזֵר עַל הַבָּבָא הָרִאשׁוֹנָה, לְפִיכָךְ אוֹכֶלֶת בַּתְּרוּמָה כָּל אֵלּוּ הַשְּׁלֹשִׁים יוֹם, לְפִיכָךְ אִם אָמַר לָהּ מֵעַכְשָׁיו וּלְאַחַר שְׁלֹשִׁים יוֹם אֵינָהּ אוֹכֶלֶת בַּתְּרוּמָה מִשֶּׁקִּבְּלָה אֵלּוּ הַקִּדּוּשִׁין: וְאָמַר מְקֻדֶּשֶׁת וְאֵינָהּ מְקֻדֶּשֶׁת וַאֲפִלּוּ אַחַר ל' יוֹם, הֲרֵי הִיא מְקֻדֶּשֶׁת וְאֵינָהּ מְקֻדֶּשֶׁת לְכָל אֶחָד מֵהֶם, וּצְרִיכָה גֵט מִזֶּה וּמִזֶּה, דִּלְמָא מַחְלְפָא בְּאֵשֶׁת אִישׁ:

Rambam esclarece que a mishná fala de um mero ‘companheiro’ e não de um ‘agente formal’ — mostrando que, mesmo sem designação exclusiva, se o mensageiro consagrou a mulher para si mesmo, o ato é válido, ainda que seja deslealdade para com quem o enviou. Sobre o segundo caso, ‘consagrada ao segundo’ significa que ele pode desposá-la quando quiser, inclusive dentro dos próprios trinta dias, pois o primeiro kidushin, condicionado a prazo futuro, ainda não produziu efeito. Quanto à terumá: se o primeiro disse apenas ‘depois de trinta dias’, ela pode comer da terumá do cohen a quem será consagrada durante todo o prazo; mas se disse ‘desde agora e depois de trinta dias’, ela deixa de poder comer da terumá assim que aceita esse kidushin ambíguo. E a fórmula final, ‘consagrada e não consagrada’, vale mesmo depois de passados os trinta dias — ela precisa de get de cada um, para não ser confundida com uma mulher casada.

Bartenura · Kidushin 3:1
הָאוֹמֵר לַחֲבֵרוֹ צֵא וְקַדֵּשׁ לִי אִשָּׁה פְלוֹנִית וְהָלַךְ וְקִדְּשָׁהּ לְעַצְמוֹ. אָמְרִינַן בַּגְּמָרָא מַאי וְהָלַךְ, שֶׁהָלַךְ בְּרַמָּאוּת, וּלְהָכִי תְּנַן הָאוֹמֵר לַחֲבֵרוֹ וְלֹא תְּנַן הָאוֹמֵר לִשְׁלוּחוֹ, לְאַשְׁמוֹעִינַן דְּאַף עַל גַּב דְּלֹא עֲשָׂאוֹ שָׁלִיחַ מִתְּחִלָּה לְכָךְ, אֶלָּא שֶׁאָמַר לוֹ קַדֵּשׁ לִי אִשָּׁה פְלוֹנִית, אִם קִדְּשָׁהּ לְעַצְמוֹ קָרִינַן בֵּיהּ שֶׁהָלַךְ בְּרַמָּאוּת וְרַמַּאי הֲוֵי: וּבָא אַחֵר וְקִדְּשָׁהּ בְּתוֹךְ שְׁלֹשִׁים יוֹם מְקֻדֶּשֶׁת לַשֵּׁנִי, וְיָכוֹל לְכָנְסָהּ אֲפִלּוּ בְּתוֹךְ אֵלּוּ הַשְּׁלֹשִׁים יוֹם: בַּת כֹּהֵן לְיִשְׂרָאֵל, אִם בַּת כֹּהֵן הִיא זוֹ שֶׁנִּתְקַדְּשָׁה לְאַחַר שְׁלֹשִׁים יוֹם, כָּל אוֹתָן שְׁלֹשִׁים יוֹם תֹּאכַל בַּתְּרוּמָה, שֶׁלֹּא נִפְסְלָה מִלֶּאֱכֹל בִּתְרוּמַת בֵּית אָבִיהָ, וְאִם בַּת יִשְׂרָאֵל לְכֹהֵן הִיא, לֹא תֹאכַל בַּתְּרוּמָה שֶׁעֲדַיִן אֵינָהּ אֵשֶׁת כֹּהֵן: מְקֻדֶּשֶׁת, וּצְרִיכָה גֵט מִתַּרְוַיְהוּ:

Bartenura explica, com base na Guemará, que a expressão ‘e foi’ pressupõe deslealdade (ramaut) — e por isso a mishná diz ‘aquele que diz a seu companheiro’, e não ‘a seu agente’, para ensinar que mesmo sem designação formal de agência, se o mensageiro a consagrou para si mesmo, ele é chamado de trapaceiro, mas seu kidushin vale. Sobre a filha de cohen consagrada a um israelita depois de trinta dias, durante esses trinta dias ela continua comendo da terumá da casa de seu pai, pois ainda não deixou de ser filha de cohen; e sobre a filha de israelita consagrada a um cohen, ela ainda não come da terumá, pois ainda não é esposa de cohen. Por fim, sobre o caso de dúvida, ela precisa de get de ambos os pretendentes antes de poder casar-se com qualquer um deles.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Kiddushin 58b, s.v. מתני' האומר מקודשת ואינה מקודשת; בת ישראל לכהן לא תאכל בתרומה
מַתְנִיתִין הָאוֹמֵר מְקֻדֶּשֶׁת וְאֵינָהּ מְקֻדֶּשֶׁת – לִשְׁנֵיהֶם, דַּאֲסוּרָה לִשְׁנֵיהֶם אֶלָּא אִם כֵּן נָתַן הָאֶחָד גֵּט, וּלְאָדָם אַחֵר אֲסוּרָה עַד שֶׁיִּתְּנוּ שְׁנֵיהֶם גֵּט, וּבַגְּמָרָא פְּלִיגֵי בָּהּ וּמְפָרֵשׁ טַעְמָא: בַּת יִשְׂרָאֵל לְכֹהֵן לֹא תֹאכַל בַּתְּרוּמָה – שֶׁמָּא אֵינָן קִדּוּשִׁין, וּבַת כֹּהֵן לְיִשְׂרָאֵל נַמִּי לֹא תֹאכַל בִּתְרוּמַת בֵּית אָבִיהָ, שֶׁמָּא הָווּ קִדּוּשִׁין וְזָר פּוֹסֵל בְּקִדּוּשִׁין אֶת בַּת כֹּהֵן מִן הַתְּרוּמָה:

Rashi explica a fórmula final ‘consagrada e não consagrada’: a mulher fica proibida a ambos os pretendentes, e não pode se casar com nenhum deles a menos que um lhe dê o get — e mesmo para se casar com um terceiro, precisa do get de ambos, questão que a Guemará discute e explica. Sobre a regra final, Rashi esclarece a lógica de cada proibição de terumá: a filha de israelita, consagrada a um cohen, não pode comer da terumá porque talvez o kidushin não seja válido; e a filha de cohen, consagrada a um israelita, também não pode continuar comendo da terumá da casa de seu pai, porque talvez o kidushin seja válido — e um homem não-cohen que tem kidushin sobre ela desqualifica a filha do cohen de comer terumá.