Seder Nashim · Massechet Ketubot · Perek Vav · Mishná 3 de 7

O acréscimo de um terço e o desconto de um quinto

פָּסְקָה לְהַכְנִיס לוֹ אֶלֶף דִּינָר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná explica como se calcula o valor escrito na ketubá quando a noiva promete trazer um dote — distinguindo entre dinheiro em espécie, que rende juros de imediato e por isso recebe um acréscimo de um terço, e bens avaliados como roupas e joias, que costumam ser supervalorizados por honra à noiva e por isso recebem um desconto de um quinto.

Se ela prometeu trazer-lhe mil dinares, ele escreve, correspondendo a eles, quinze manés. E correspondendo à avaliação, ele escreve um quinto a menos. Avaliação de um maneh que vale um maneh, ele não tem senão um maneh. Avaliação de um maneh, ela dá trinta e um selaim e um dinar. E em quatrocentos, ela dá quinhentos. O que o noivo estabelece, ele escreve um quinto a menos. — Quando a noiva promete trazer ao casamento uma quantia em dinheiro vivo — mil dinares, por exemplo, equivalentes a dez manés —, o noivo escreve na ketubá um valor um terço maior, quinze manés, pois esse dinheiro está disponível para ele investir e gerar lucro imediatamente. Mas quando ela traz bens que precisam de avaliação — roupas e joias — o noivo escreve um quinto a menos do valor avaliado, pois costuma-se, por honra à noiva, avaliar esses bens acima do seu valor real de mercado. A mishná então trabalha exemplos numéricos precisos: se os bens foram avaliados exatamente pelo seu valor de mercado real (sem a supervalorização costumeira), o noivo escreve na ketubá apenas esse valor, sem descontar mais nada; mas se a avaliação seguiu o costume de supervalorizar, então, para que o valor final escrito seja de um maneh, os bens precisam ter sido avaliados em trinta e um selaim e um dinar (um maneh mais um quinto) — e para que o valor final seja de quatrocentos, ela precisa trazer bens avaliados em quinhentos. Em todos os casos, a regra final é a mesma: aquilo que o noivo se compromete a escrever na ketubá em troca de bens avaliados é sempre um quinto a menos do valor da avaliação.

פָּסְקָה לְהַכְנִיס לוֹ אֶלֶף דִּינָר, הוּא פוֹסֵק כְּנֶגְדָּן חֲמִשָּׁה עָשָׂר מָנֶה. וּכְנֶגֶד הַשּׁוּם, הוּא פוֹסֵק פָּחוֹת חֹמֶשׁ. שׁוּם בְּמָנֶה וְשָׁוֶה מָנֶה, אֵין לוֹ אֶלָּא מָנֶה. שׁוּם בְּמָנֶה, הִיא נוֹתֶנֶת שְׁלֹשִׁים וְאֶחָד סֶלַע וְדִינָר. וּבְאַרְבַּע מֵאוֹת, הִיא נוֹתֶנֶת חֲמֵשׁ מֵאוֹת. מַה שֶּׁחָתָן פּוֹסֵק, הוּא פוֹסֵק פָּחוֹת חֹמֶשׁ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Esta mishná é inteiramente uma questão de costume comercial e prática documental instituída pelos sábios para a redação da ketubá, sem derivação direta de um versículo específico.

Devarim (Deuteronômio) 24:1
כִּי יִקַּח אִישׁ אִשָּׁה וּבְעָלָהּ וְהָיָה אִם לֹא תִמְצָא חֵן בְּעֵינָיו כִּי מָצָא בָהּ עֶרְוַת דָּבָר וְכָתַב לָהּ סֵפֶר כְּרִיתֻת
Quando um homem toma uma mulher e se casa com ela, e sucede que ela não encontra graça a seus olhos por ter encontrado nela algo indecoroso, ele lhe escreverá um documento de repúdio.

O costume de redigir um documento formal por ocasião do casamento remonta à própria estrutura bíblica do divórcio, que exige um "sefer" — um documento escrito. A ketubá, instituída pelos sábios como proteção financeira da esposa, segue essa mesma lógica documental: tudo o que a noiva traz ao casamento deve ser registrado por escrito, com valores calculados segundo regras precisas — regras que esta mishná detalha, distinguindo entre dinheiro líquido (que rende de imediato) e bens que exigem avaliação (que tradicionalmente são supervalorizados por consideração à noiva).

Halachot · הֲלָכוֹת

Não há, sobre esta mishná numérica, um comentário direto de Rambam no Perush HaMishná; por isso a explicação principal é trazida por Bartenura, que decompõe cada cálculo passo a passo.

Bartenura (como fonte halachica principal) · Ketubot 6:3
וְהוּא פוֹסֵק כְּנֶגְדָּן חֲמִשָּׁה עָשָׂר מָנֶה. אֶלֶף דִּינָר הֵן עֲשָׂרָה מָנֶה, וּכְשֶׁבָּא הֶחָתָן לְקַבֵּל עָלָיו וְלִכְתֹּב בַּכְּתֻבָּה, כּוֹתֵב שְׁלִישׁ יוֹתֵר, שֶׁהֵן חֲמֵשׁ עֶשְׂרֵה מָנֶה, אִם הִכְנִיסָה לוֹ הַכַּלָּה דִּינָרִין בְּעַיִן, מִפְּנֵי שֶׁהוּא מִשְׂתַּכֵּר בָּהֶן. וּכְנֶגֶד הַשּׁוּם. וְאִם הִכְנִיסָה לוֹ בְּגָדִים וְתַכְשִׁיטִים שֶׁצְּרִיכִין שׁוּמָא, הוּא פוֹסֵק פָּחוֹת חֹמֶשׁ, שֶׁדֶּרֶךְ הַבָּאִים לָשׁוּם הַבְּגָדִים וּנְכָסִים שֶׁל הַכַּלָּה לְשׁוּמָם יוֹתֵר מִשָּׁוְיָם לִכְבוֹד הַכַּלָּה וּלְחַבְּבָהּ עַל בַּעְלָהּ

Bartenura explica passo a passo: mil dinares equivalem a dez manés (quatro dinares por selá, e vinte e cinco selaim por maneh); como esse dinheiro está pronto para uso imediato e gera lucro, o noivo escreve um terço a mais na ketubá — quinze manés. Já quando a noiva traz roupas e joias que precisam de avaliação, o noivo escreve um quinto a menos, porque é costume dos avaliadores supervalorizar os bens da noiva, por consideração e para torná-la mais estimada aos olhos do marido — e esse desconto de um quinto compensa exatamente essa supervalorização costumeira, trazendo o valor de volta ao real.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, sobre a Guemará, confirma os mesmos cálculos numéricos e a lógica comercial por trás de cada um.

Bartenura · רע"ב
Ketubot 6:3
שׁוּם בְּמָנֶה וְשָׁוֶה מָנֶה. אֵין לוֹ אֶלָּא מָנֶה. שׁוּם בְּמָנֶה הִיא נוֹתֶנֶת שְׁלֹשִׁים וְאֶחָד סֶלַע וְדִינָר. שׁוּם שֶׁהוּא מְקַבְּלָהּ בְּמָנֶה, צָרִיךְ שֶׁיָּשׁוּמוּ אוֹתוֹ בְּבֵית הַחֲתוּנָה שְׁלֹשִׁים וְאֶחָד סֶלַע וְדִינָר, שֶׁהוּא מָנֶה וְחֻמְשׁוֹ

Bartenura detalha os dois casos numéricos da mishná: se os bens foram avaliados sem a supervalorização costumeira — isto é, pelo seu valor real de mercado —, o noivo escreve exatamente esse valor na ketubá, sem descontar mais nada, pois já não há excesso a corrigir. Mas se a avaliação seguiu o costume de supervalorizar, então, para que o valor final escrito na ketubá seja de um maneh, os bens precisam ter sido avaliados originalmente em trinta e um selaim e um dinar — que é exatamente um maneh acrescido de um quinto —, de modo que, depois do desconto de um quinto, reste precisamente o maneh.

Rashi · רַש"י
Sobre a Guemará, Ketubot 66a
הוּא פוֹסֵק כְּנֶגְדָּן ט"ו מָנֶה — שְׁלִישׁ יוֹתֵר יְקַבְּלֵם עָלָיו לִכְתֹּב בִּכְתֻבָּתָהּ, לְבַד תּוֹסֶפֶת שֶׁהוּא מוֹסִיף, לְפִי שֶׁמִּשְׁתַּכֵּר בָּהֶן. אֶלֶף דִּינָר הֵן עֲשָׂרָה מָנֶה. וּכְנֶגֶד הַשּׁוּם — אִם בָּא חָתָן לִכְתֹּב, קִבֵּל עָלָיו כְּנֶגֶד אֶלֶף דִּינָר שֶׁל שׁוּם שֶׁתַּכְנִיס לוֹ בְּגָדִים אוֹ כֵלִים הַמִּשְׁתַּמְּשִׁין בָּהֶן וְהֵן פּוֹחֲתִין... הוּא פוֹסֵק פָּחוֹת חֹמֶשׁ — לֹא מִבָּעְיָא דְּלֹא מוֹסִיף, אֶלָּא שֶׁפּוֹחֵת, שֶׁאִם הִכְנִיסָה שׁוּם שֶׁל אֶלֶף דִּינָר הוּא כּוֹתֵב שְׁמוֹנֶה מֵאוֹת זוּז

Rashi confirma o cálculo básico: mil dinares equivalem a dez manés, e o acréscimo de um terço eleva o valor escrito para quinze manés, pois se trata de dinheiro pronto para gerar lucro. Sobre os bens avaliados — roupas e utensílios de uso, que se desgastam com o tempo — Rashi explica que, ao contrário do dinheiro, eles não apenas deixam de receber acréscimo, como sofrem desconto: se a noiva trouxe bens avaliados em mil dinares, o noivo escreve apenas oitocentos zuz na ketubá, um quinto a menos, refletindo tanto a supervalorização costumeira quanto a natureza depreciável desses bens.