Seder Nashim · Massechet Ketubot · Perek Alef · Mishná 10 de 10 — fim do perek

Fecho do Perek Alef: a menina na fonte, e a dupla maioria de Rabi Yochanan ben Nuri

מַעֲשֶׂה בְתִינוֹקֶת שֶׁיָּרְדָה לְמַלֹּאת מַיִם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A última mishná do perek encerra a série sobre a aptidão à kehuná com um relato concreto de Rabi Yosei e a resposta de Rabi Yochanan ben Nuri, que formula pela primeira vez explicitamente o critério da maioria da cidade como suficiente, a princípio, para permitir o casamento com um kohen.

Disse Rabi Yosei: aconteceu com uma menina que desceu para tirar água da fonte, e foi violentada. Disse Rabi Yochanan ben Nuri: se a maioria dos homens da cidade casam com a kehuná, ela poderá se casar com a kehuná.Diferentemente dos casos anteriores, aqui não há sequer uma identificação verbal do agressor — a menina simplesmente foi violentada por um desconhecido, sem que ninguém soubesse quem ele era. Rabi Yosei relata o caso como precedente histórico; Rabi Yochanan ben Nuri estabelece o critério decisivo: se a maioria dos homens daquela cidade eram aptos para se casar com a kehuná (isto é, israelitas de linhagem legítima, e não natinim ou mamzerim), então, seguindo o princípio geral de que se segue a maioria em casos de dúvida, presume-se que o agressor também pertencia a essa maioria apta, e a menina permanece apta a se casar futuramente com um kohen. Este caso fecha o perek retornando ao tema de abertura — a proteção da mulher e sua condição perante o casamento — agora resolvido não pela palavra dela, mas pela força estatística da maioria da comunidade.

אָמַר רַבִּי יוֹסֵי, מַעֲשֶׂה בְתִינוֹקֶת שֶׁיָּרְדָה לְמַלֹּאת מַיִם מִן הָעַיִן, וְנֶאֱנְסָה. אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן בֶּן נוּרִי, אִם רֹב אַנְשֵׁי הָעִיר מַשִּׂיאִין לַכְּהֻנָּה, הֲרֵי זוֹ תִנָּשֵׂא לַכְּהֻנָּה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Shemot (Êxodo) 23:2
לֹא־תִהְיֶה אַחֲרֵי־רַבִּים לְרָעֹת... אַחֲרֵי רַבִּים לְהַטֹּת
Não seguirás a maioria para o mal... [em julgamento, inclina-te] após a maioria.

Este versículo é a fonte bíblica clássica do princípio de "seguir a maioria" (achare rabim lehatot) em matéria de julgamento — o mesmo princípio que Rabi Yochanan ben Nuri aplica aqui para resolver a dúvida sobre a identidade do agressor da menina. A mishná, no entanto, não se contenta com uma única maioria simples: como a Guemará e Bartenura explicam, em questões de pureza de linhagem (yuchasin) os sábios impuseram um padrão mais exigente — a dupla maioria (trei rubei) — reconhecendo que, embora a Torá autorize seguir a maioria, a gravidade das consequências para toda uma linhagem familiar exige um grau adicional de segurança antes de permitir o casamento a princípio.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, explica a exigência da dupla maioria e confirma a decisão conforme Rabi Yosei.

Rambam · Perush HaMishná, Ketubot 1:10
זֶה הַמַּעֲשֶׂה הָיָה חוּץ מִן הַמְּדִינָה שֶׁרֻבָּהּ כְּשֵׁרִים, וְהָיָה חוּץ מִזֹּאת הַמְּדִינָה סִיעָה רֻבָּן כְּשֵׁרִים כְּמוֹ כֵן, וּפֵרַשׁ אֶחָד מִזֹּאת הַסִּיעָה וַאֲנָסָהּ, וְהָיוּ תְּרֵי רוּבָּא... וְזֹאת הִיא חֻמְרָא שֶׁאֵין אָנוּ צְרִיכִים אֶלָּא חַד רֻבָּא, אֲבָל מַעֲלָה עָשׂוּ בְּיוֹחֲסִין שֶׁלֹּא תִנָּשֵׂא לְכַתְּחִלָּה אֶלָּא בִּתְרֵי רוּבֵי. וְהִלְכָתָא כְּרַבִּי יוֹסֵי

Rambam explica que o caso relatado por Rabi Yosei envolvia duas maiorias simultâneas: a maioria dos homens da própria cidade eram aptos, e havia também uma caravana de viajantes passando por perto da fonte cuja maioria também era apta — e foi um homem dessa caravana quem se afastou e violentou a menina. Isso constitui uma dupla maioria (trei rubei). Embora, em princípio, uma única maioria já bastasse para resolver a dúvida em qualquer outra área da halachá, os sábios impuseram, especificamente em questões de pureza de linhagem, o padrão mais rigoroso da dupla maioria antes de permitir, a princípio, o casamento com a kehuná. A halachá segue Rabi Yosei.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura confirma a exigência da dupla maioria como medida de elevação (maalá) específica para questões de linhagem, fechando o Perek Alef.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Ketubot 1:10
אִם רֹב הָעִיר מַשִּׂיאִין לַכְּהֻנָּה. אַף עַל גַּב דְּרֻבָּא חַד סַגִּי בְּעָלְמָא, מַעֲלָה עָשׂוּ בְּיוֹחֲסִין, וְהָכָא אַצְרְכוּהָ רַבָּנָן תְּרֵי רֻבֵּי, רֹב סִיעָה הָעוֹבֶרֶת שָׁם וְרֹב הָעִיר. וְאֵין מַשִּׂיאִין לְכַתְּחִלָּה לַכְּהֻנָּה אֶלָּא בִּתְרֵי רֻבֵּי, וְכֵן הֲלָכָה

Bartenura confirma que, embora em geral uma única maioria seja suficiente para resolver qualquer dúvida halachica, os sábios criaram uma elevação (maalá) específica para as questões de pureza de linhagem, exigindo aqui a dupla maioria: tanto a maioria da caravana de viajantes que passava pelo local quanto a maioria da própria cidade. Só nessas condições permite-se, a princípio, o casamento com a kehuná — encerrando assim o Perek Alef, que percorreu, do início ao fim, os diferentes graus de confiabilidade da palavra da mulher e da força da maioria comunitária na determinação de sua aptidão para o casamento israelita e sacerdotal.