Seder Nezikin · Massechet Bava Batra · Perek Hei · Mishná 10 de 11

O atacadista limpa suas medidas

הַסִּיטוֹן מְקַנֵּחַ מִדּוֹתָיו אַחַת לִשְׁלשִׁים יוֹם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A décima mishná abre a sequência final do perek, dedicada à justiça nas medidas e nos pesos: a frequência com que cada tipo de comerciante deve limpar seus instrumentos de medição, segundo o volume de seu comércio.

O atacadista deve limpar suas medidas uma vez a cada trinta dias. E o dono de casa, uma vez a cada doze meses. Rabán Shimon ben Gamliel diz: é o contrário. — O comerciante atacadista, que vende óleo e vinho com grande frequência, precisa limpar suas medidas mensalmente, para que o resíduo acumulado de líquido não reduza sua capacidade real; o dono de casa comum, que vende raramente, precisa fazê-lo apenas uma vez por ano. Rabán Shimon ben Gamliel inverte essa lógica: precisamente por vender constantemente, o atacadista não acumula resíduo — que fica sempre fresco e é logo removido no uso contínuo —, enquanto o dono de casa, ao usar a medida raramente, permite que o resíduo resseque e se acumule, exigindo limpeza mais frequente.

O merceeiro limpa suas medidas duas vezes por semana, e limpa seus pesos uma vez por semana; e limpa a balança a cada pesagem. — O pequeno comerciante, que vende em quantidades diárias e constantes, precisa de uma rotina de limpeza ainda mais frequente que a do atacadista: as medidas de líquido duas vezes por semana, os pesos de pedra uma vez por semana, e a própria balança — cujos pratos podem acumular resíduo aderente — a cada vez que pesa algo.

הַסִּיטוֹן מְקַנֵּחַ מִדּוֹתָיו אַחַת לִשְׁלשִׁים יוֹם. וּבַעַל הַבַּיִת, אַחַת לִשְׁנֵים עָשָׂר חֹדֶשׁ. רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר, חִלּוּף הַדְּבָרִים. הֶחָנוָנִי מְקַנֵּחַ מִדּוֹתָיו פַּעֲמַיִם בַּשַּׁבָּת, וּמְמַחֶה מִשְׁקְלוֹתָיו פַּעַם אַחַת בַּשַּׁבָּת, וּמְקַנֵּחַ מֹאזְנַיִם עַל כָּל מִשְׁקָל וּמִשְׁקָל:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam define os termos técnicos "sitón", "mekanéach" e "memaché"; Bartenura desenvolve o raciocínio de Rabán Shimon ben Gamliel para inverter a regra da opinião anônima.

Rambam · Perush HaMishná, Bava Batra 5:10
הַסִּיטוֹן מְקַנֵּחַ מִדּוֹתָיו אַחַת לִשְׁלֹשִׁים יוֹם כו':
סִיטוֹן הוּא הַמְחַלֵּק הַסְּחוֹרוֹת שֶׁל בַּעֲלֵי הַסְּחוֹרוֹת עַל בַּעֲלֵי הַחֲנֻיּוֹת. וּמְקַנֵּחַ שֶׁמֵּסִיר הֶחָלוּדָה וּמַה שֶּׁנִּדְבָּק בַּכְּלִי. וּמְמַחֶה שֶׁרוֹחֵץ בַּמַּיִם:

Rambam define o "sitón" como o grande distribuidor que reparte a mercadoria dos comerciantes de atacado entre os donos de pequenas lojas. Explica que "limpar" (mekanéach) significa remover ferrugem e resíduo aderido ao instrumento, enquanto "esfregar" (memaché) refere-se especificamente a lavar com água.

Bartenura · Bava Batra 5:10
הַסִּיטוֹן. סוֹחֵר שֶׁקּוֹנֶה הַרְבֵּה בְּיַחַד וְחוֹזֵר וּמוֹכֵר לַחֶנְוָנִים מְעַט מְעַט: מְקַנֵּחַ מִדּוֹתָיו. בִּשְׁבִיל הַיַּיִן וְהַשֶּׁמֶן שֶׁנִּקְרָשׁ בְּתוֹכָם וְהַמִּדָּה מִתְמַעֶטֶת: וּבַעַל הַבַּיִת. שֶׁאֵינוֹ מוֹכֵר תָּדִיר כַּסִּיטוֹן, מְקַנֵּחַ פַּעַם אַחַת בְּשָׁנָה: וּמְמַחֶה. מְקַנֵּחַ אַבְנֵי מִשְׁקְלוֹתָיו שֶׁשּׁוֹקֵל בָּהֶן דָּבָר לַח: עַל כָּל מִשְׁקָל וּמִשְׁקָל. כָּל פַּעַם שֶׁשּׁוֹקֵל מְקַנֵּחַ:

Bartenura descreve o "sitón" como o comerciante que compra grandes quantidades de uma vez e revende aos poucos aos merceeiros. Explica que a limpeza das medidas serve para remover o vinho e o azeite que endurecem dentro delas, reduzindo sua capacidade real — e que o dono de casa comum, por vender com muito menos frequência que o atacadista, precisa limpar apenas uma vez por ano. Esclarece que "esfregar" refere-se especificamente às pedras de peso usadas para pesar substâncias úmidas, como carne, e que a balança precisa ser limpa a cada pesagem, pois seus pratos côncavos acumulam resíduo com mais facilidade que os próprios pesos.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashbam sobre o daf 88a define o termo "sitón" como empréstimo do grego, e observa que a explicação de Rabán Shimon ben Gamliel para sua posição invertida aparece detalhada na mishná seguinte.

Rashbam · רשב״ם
Bava Batra 88a, sobre a mishná (no lugar de Rashi)
מַתְנִי׳ הַסִּיטוֹן — הוּא חֶנְוָנִי גָּדוֹל שֶׁקּוֹנֶה הַרְבֵּה יַחַד וּמוֹכֵר לַחֶנְוָנִים קְטַנִּים: סִיטוֹן — חִטִּין בְּלָשׁוֹן יָוָן, וּמִשּׁוּם שֶׁקּוֹנֶה הַרְבֵּה חִטִּין בְּיַחַד קוֹרֵא לוֹ סִיטוֹן: מְקַנֵּחַ מִדּוֹתָיו — בִּשְׁבִיל שֶׁנִּקְבַּץ בָּהֶן הַיַּיִן וְהַשֶּׁמֶן וְנִקְרַשׁ לְתוֹכָן וּמִתְמַעֶטֶת הַמִּדָּה, וּבִכְלִי הַלַּח מוֹקֵי לַהּ לְקַמָּן: חִלּוּף הַדְּבָרִים. סִיטוֹן פַּעַם אַחַת בְּשָׁנָה, דְּכֵיוָן שֶׁמּוֹכֵר תָּדִיר אֵין הַמַּשְׁקֶה נִקְרָשׁ בְּתוֹכוֹ, אֲבָל בַּעַל הַבַּיִת שֶׁאֵינוֹ מוֹכֵר תָּדִיר נִקְרָשׁ וּמִתְיַבֵּשׁ הַמַּשְׁקֶה בְּתוֹכוֹ:

Rashbam descreve o "sitón" como o grande merceeiro que compra em grandes quantidades e revende a pequenos merceeiros, e explica que a própria palavra deriva do grego "sítos" (trigo), aplicada por associação a quem negocia grandes volumes. Explica que as medidas precisam ser limpas porque o vinho e o azeite se acumulam e endurecem dentro delas, reduzindo sua capacidade real de medição — sendo essa a razão vinculada especificamente a recipientes de líquido. E detalha a lógica invertida de Rabán Shimon ben Gamliel: como o atacadista vende constantemente, o líquido nunca chega a endurecer dentro da medida; já o dono de casa comum, que vende raramente, permite que o líquido resseque e se solidifique dentro do recipiente, exigindo limpeza mais frequente.