Seder Nezikin · Massechet Avodá Zará · Perek Alef · Mishná 4 de 9

A cidade com idolatria e o caso de Beit Shean

עִיר שֶׁיֶּשׁ בָּהּ עֲבוֹדָה זָרָה, חוּצָה לָהּ מֻתָּר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná trata da geografia da proibição: negociar é permitido fora de uma cidade onde há idolatria (e vice-versa), a lei sobre percorrer um caminho exclusivo até o local da festividade, e o caso histórico ocorrido em Beit Shean sobre lojas enfeitadas e não enfeitadas para a ocasião.

Cidade em que há idolatria: fora dela é permitido negociar. Se a idolatria estivesse fora dela, o interior é permitido. Qual é a lei sobre ir até lá? Quando o caminho é exclusivo para aquele lugar, é proibido; mas se pudesse caminhar por ele até outro lugar, é permitido. Cidade em que há idolatria, e havia nela lojas enfeitadas e outras não enfeitadas — este foi um caso ocorrido em Beit Shean — e os Sábios disseram: as enfeitadas são proibidas, e as não enfeitadas são permitidas.Esta mishná desloca o foco do tempo (os dias antes e depois da festividade) para o espaço: onde, geograficamente, a proibição de negociar com gentios em dia de festividade idólatra se aplica. O princípio inicial é de proximidade: se a celebração idólatra ocorre dentro de uma cidade, o comércio é proibido apenas dentro dela, mas permitido do lado de fora — e, simetricamente, se a celebração ocorre fora da cidade (por exemplo, em um templo nos arredores), a cidade em si permanece livre para o comércio. Em seguida, a mishná trata de uma questão de aparência: é permitido percorrer uma estrada que leve até o local onde a festividade acontece? A resposta depende de a estrada ser exclusiva daquele destino ou não — se o único propósito possível de tomar aquele caminho é chegar à celebração idólatra, caminhar por ele é proibido, pois qualquer observador presumirá que a pessoa vai participar da festividade; mas se a mesma estrada também leva a outros lugares, ela pode ser percorrida licitamente, pois há uma explicação alternativa e inocente para o trajeto. A mishná encerra com um caso concreto e memorável, situado na cidade real de Beit Shean (na Galileia): uma cidade tinha lojas voltadas para a idolatria, algumas decoradas especialmente para a ocasião festiva e outras não. Os Sábios distinguiram entre elas com base puramente visual e prática: as lojas enfeitadas para a festividade eram proibidas — presumindo-se que sua decoração indicava vínculo direto com o culto e seus sacerdotes — enquanto as não enfeitadas permaneciam permitidas, por não haver indício de que o comércio ali contribuísse de algum modo para a celebração idólatra.

עִיר שֶׁיֶּשׁ בָּהּ עֲבוֹדָה זָרָה, חוּצָה לָהּ מֻתָּר. הָיָה חוּצָה לָהּ עֲבוֹדָה זָרָה, תּוֹכָהּ מֻתָּר. מַהוּ לֵילֵךְ לְשָׁם? בִּזְמַן שֶׁהַדֶּרֶךְ מְיֻחֶדֶת לְאוֹתוֹ מָקוֹם, אָסוּר. וְאִם הָיָה יָכוֹל לְהַלֵּךְ בָּהּ לְמָקוֹם אַחֵר, מֻתָּר. עִיר שֶׁיֶּשׁ בָּהּ עֲבוֹדָה זָרָה וְהָיוּ בָהּ חֲנֻיּוֹת מְעֻטָּרוֹת וְשֶׁאֵינָן מְעֻטָּרוֹת, זֶה הָיָה מַעֲשֶׂה בְּבֵית שְׁאָן, וְאָמְרוּ חֲכָמִים, הַמְעֻטָּרוֹת אָסוּר, וְשֶׁאֵינָן מְעֻטָּרוֹת מֻתָּר:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Avodá Zará 1:4
עִיר שֶׁיֵּשׁ בָּהּ עֲבוֹדַת כּוֹכָבִים כוּ׳: אָמְרוּ מַהוּ לֵילֵךְ לְשָׁם שֶׁיָּשִׂים אוֹתָהּ דֶּרֶךְ לֵילֵךְ מִשָּׁם לְזוּלָתָהּ, לְפִי שֶׁאָסוּר לְהִכָּנֵס לְעִיר שֶׁיֵּשׁ בָּהּ עֲבוֹדַת כּוֹכָבִים, כָּל שֶׁכֵּן לָדוּר בָּהּ, וְכָל שֶׁכֵּן לִסְחֹר בָּהּ. חֲנֻיּוֹת מְעֻטָּרוֹת — חֲנֻיּוֹת הָעִיר שֶׁמְּיַפִּין אוֹתָם בְּאֵיזֶה מִין מִמִּינֵי הַנּוֹי, שֶׁיֵּעָשֶׂה הַכֹּל הוּא לַעֲבוֹדַת כּוֹכָבִים, וּלְפִיכָךְ כָּל מַה שֶּׁיֵּשׁ בָּהּ אָסוּר בַּהֲנָאָה.

Rambam explica que a pergunta "qual é a lei sobre ir até lá" pressupõe que a pessoa toma aquele caminho apenas para segui-lo até outro destino, pois, em princípio, é proibido entrar numa cidade onde há idolatria — quanto mais morar nela, e quanto mais ainda negociar ali. "Lojas enfeitadas" são as lojas da cidade decoradas com algum tipo de ornamento, sendo que toda essa decoração é feita em honra à idolatria; e por isso tudo o que nelas se encontra é proibido para proveito. Rambam acrescenta uma reflexão pessoal e histórica: se uma cidade inteira que contém uma casa de idolatria já é proibida para se atravessar deliberadamente — e quanto mais para morar nela —, ainda que "nós, sob o domínio deles por nossos pecados e habitando em suas terras, estejamos ali como forçados" — quanto mais se aplica essa proibição à própria casa de idolatria, que quase nos é proibido sequer olhar, e muito mais entrar nela.

Bartenura · Avodá Zará 1:4
עִיר שֶׁיֶּשׁ בָּהּ עֲבוֹדָה זָרָה. שֶׁיּוֹם אֵיד יֵשׁ לִבְנֵי הָעִיר הַיּוֹם לָעֲבוֹדָה זָרָה שֶׁבָּעִיר. חוּצָה לָהּ. וַאֲפִלּוּ סָמוּךְ לָעִיר מְאֹד, מֻתָּר לָשֵׂאת וְלָתֵת עִם הַיּוֹשְׁבִים חוּץ לָעִיר, שֶׁאֵין נִמְשָׁכִים אַחַר אוֹתָהּ עֲבוֹדָה זָרָה. בִּזְמַן שֶׁהַדֶּרֶךְ מְיֻחֶדֶת לְאוֹתָהּ הָעִיר. שֶׁהַדֶּרֶךְ הַכְּבוּשָׁה מִכָּאן לְאוֹתָהּ הָעִיר מְיֻחֶדֶת לְאוֹתָהּ הָעִיר לְבַדָּהּ, אָסוּר לֵילֵךְ שָׁם, מִפְּנֵי שֶׁנִּרְאֶה כִמְהַלֵּךְ שָׁם לַעֲבֹד עֲבוֹדָה זָרָה. הָיוּ בָהּ חֲנֻיּוֹת מְעֻטָּרוֹת. וְסִימָן הוּא לָהֶם שֶׁאוֹתָם חֲנֻיּוֹת שֶׁל עֲבוֹדָה זָרָה, לִטֹּל הַכְּמָרִים מֵהֶם מֶכֶס.

Bartenura explica que "cidade em que há idolatria" significa que naquele dia os habitantes da cidade celebram festividade idólatra local. "Fora dela" — mesmo muito próximo da cidade, é permitido negociar com os que residem fora dela, pois não são arrastados pelo vínculo com aquela idolatria específica. Quanto ao caminho: quando a estrada pavimentada dali até aquela cidade é exclusiva daquele destino, é proibido percorrê-la, pois pareceria que a pessoa vai até lá para praticar idolatria. E "havia nela lojas enfeitadas" é sinal de que aquelas lojas estavam vinculadas à idolatria, para que os sacerdotes pagãos (kemarim) cobrassem delas um tributo em honra ao culto — daí a distinção prática entre as lojas decoradas e as que não o eram.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Avodá Zará 12a–13a
וְלֹא חָשׁוּ חֲכָמִים — אַף עַל פִּי שֶׁסָּמוּךְ אִסּוּר אֵצֶל הֶתֵּר מְאֹד, הָכָא נַמִי אַף עַל פִּי שֶׁבְּנֵי הָעִיר הָאֲסוּרִין סְמוּכִין לִבְנֵי חוּצָה לָהּ שֶׁאֵין לָהֶם עֲבוֹדַת כּוֹכָבִים הַיּוֹם, לֹא חָשׁוּ. מְהַנְיָא לֹא כׇּל שֶׁכֵּן — וְהָא מְהַנְיָא הוּא, שֶׁהַחֶנְוָנִין שֶׁבְּתוֹכָן סוֹחֲרֵי מָעוֹת שֶׁל כּוֹמָרִים הֵן, אִי נַמִי הוּא יָהִיב לֵיהּ לְבַעַל הַמָּעוֹת מִסְּחוֹרָתוֹ שֶׁעוֹשֶׂה שָׁם וּמַטְיָא לְהוּ הֲנָאָה, אֲבָל שֶׁאֵינָן מְעֻטָּרוֹת לָאו דְּכוֹמָרִים הֵן.

A Guemará questiona por que a mishná não se preocupa com a proximidade física entre a cidade com idolatria e os que habitam fora dela — já que, em outros contextos legais, o rabinato costuma se preocupar quando uma proibição e uma permissão estão fisicamente muito próximas, temendo confusão entre elas. Rashi explica a resposta: mesmo que os habitantes da cidade proibida estejam muito próximos dos que residem fora dela — que não têm festividade idólatra naquele dia —, os Sábios não se preocuparam com a possível confusão, porque a diferença está na pessoa e no dia, não na localização física em si. Sobre o caso das lojas de Beit Shean, Rashi acrescenta que as lojas enfeitadas eram identificáveis como vinculadas aos sacerdotes idólatras (komarim) — seja porque os próprios comerciantes ali eram cambistas que trabalhavam para o culto, seja porque repassavam parte de seus lucros ao proprietário sacerdotal — enquanto as lojas não enfeitadas não tinham qualquer vínculo demonstrável com o culto e seus sacerdotes.