Cidade em que há idolatria: fora dela é permitido negociar. Se a idolatria estivesse fora dela, o interior é permitido. Qual é a lei sobre ir até lá? Quando o caminho é exclusivo para aquele lugar, é proibido; mas se pudesse caminhar por ele até outro lugar, é permitido. Cidade em que há idolatria, e havia nela lojas enfeitadas e outras não enfeitadas — este foi um caso ocorrido em Beit Shean — e os Sábios disseram: as enfeitadas são proibidas, e as não enfeitadas são permitidas. — Esta mishná desloca o foco do tempo (os dias antes e depois da festividade) para o espaço: onde, geograficamente, a proibição de negociar com gentios em dia de festividade idólatra se aplica. O princípio inicial é de proximidade: se a celebração idólatra ocorre dentro de uma cidade, o comércio é proibido apenas dentro dela, mas permitido do lado de fora — e, simetricamente, se a celebração ocorre fora da cidade (por exemplo, em um templo nos arredores), a cidade em si permanece livre para o comércio. Em seguida, a mishná trata de uma questão de aparência: é permitido percorrer uma estrada que leve até o local onde a festividade acontece? A resposta depende de a estrada ser exclusiva daquele destino ou não — se o único propósito possível de tomar aquele caminho é chegar à celebração idólatra, caminhar por ele é proibido, pois qualquer observador presumirá que a pessoa vai participar da festividade; mas se a mesma estrada também leva a outros lugares, ela pode ser percorrida licitamente, pois há uma explicação alternativa e inocente para o trajeto. A mishná encerra com um caso concreto e memorável, situado na cidade real de Beit Shean (na Galileia): uma cidade tinha lojas voltadas para a idolatria, algumas decoradas especialmente para a ocasião festiva e outras não. Os Sábios distinguiram entre elas com base puramente visual e prática: as lojas enfeitadas para a festividade eram proibidas — presumindo-se que sua decoração indicava vínculo direto com o culto e seus sacerdotes — enquanto as não enfeitadas permaneciam permitidas, por não haver indício de que o comércio ali contribuísse de algum modo para a celebração idólatra.
Rambam explica que a pergunta "qual é a lei sobre ir até lá" pressupõe que a pessoa toma aquele caminho apenas para segui-lo até outro destino, pois, em princípio, é proibido entrar numa cidade onde há idolatria — quanto mais morar nela, e quanto mais ainda negociar ali. "Lojas enfeitadas" são as lojas da cidade decoradas com algum tipo de ornamento, sendo que toda essa decoração é feita em honra à idolatria; e por isso tudo o que nelas se encontra é proibido para proveito. Rambam acrescenta uma reflexão pessoal e histórica: se uma cidade inteira que contém uma casa de idolatria já é proibida para se atravessar deliberadamente — e quanto mais para morar nela —, ainda que "nós, sob o domínio deles por nossos pecados e habitando em suas terras, estejamos ali como forçados" — quanto mais se aplica essa proibição à própria casa de idolatria, que quase nos é proibido sequer olhar, e muito mais entrar nela.
Bartenura explica que "cidade em que há idolatria" significa que naquele dia os habitantes da cidade celebram festividade idólatra local. "Fora dela" — mesmo muito próximo da cidade, é permitido negociar com os que residem fora dela, pois não são arrastados pelo vínculo com aquela idolatria específica. Quanto ao caminho: quando a estrada pavimentada dali até aquela cidade é exclusiva daquele destino, é proibido percorrê-la, pois pareceria que a pessoa vai até lá para praticar idolatria. E "havia nela lojas enfeitadas" é sinal de que aquelas lojas estavam vinculadas à idolatria, para que os sacerdotes pagãos (kemarim) cobrassem delas um tributo em honra ao culto — daí a distinção prática entre as lojas decoradas e as que não o eram.
A Guemará questiona por que a mishná não se preocupa com a proximidade física entre a cidade com idolatria e os que habitam fora dela — já que, em outros contextos legais, o rabinato costuma se preocupar quando uma proibição e uma permissão estão fisicamente muito próximas, temendo confusão entre elas. Rashi explica a resposta: mesmo que os habitantes da cidade proibida estejam muito próximos dos que residem fora dela — que não têm festividade idólatra naquele dia —, os Sábios não se preocuparam com a possível confusão, porque a diferença está na pessoa e no dia, não na localização física em si. Sobre o caso das lojas de Beit Shean, Rashi acrescenta que as lojas enfeitadas eram identificáveis como vinculadas aos sacerdotes idólatras (komarim) — seja porque os próprios comerciantes ali eram cambistas que trabalhavam para o culto, seja porque repassavam parte de seus lucros ao proprietário sacerdotal — enquanto as lojas não enfeitadas não tinham qualquer vínculo demonstrável com o culto e seus sacerdotes.