No sexto dia da criação, antes de formar o homem, a Torá registra uma deliberação singular. Pela primeira vez, a fala criadora hesita, delibera, propõe. E o que propõe é desconcertante.
Logo em seguida, o versículo seguinte confirma o ato:
A dificuldade salta aos olhos de qualquer leitor atento. O judaísmo afirma, no seu núcleo mais profundo, que D'us não tem corpo, não ocupa espaço, não possui forma, contorno ou aparência. Como, então, pode o ser humano ser feito à imagem de Quem não tem imagem alguma? A própria palavra parece exigir uma figura, um molde, um rosto. Estaria a Torá nos dizendo que D'us tem feições, e que as nossas O espelham?
O equívoco que o Rambam vem desfazer
Não é por acaso que o Rambam (Maimônides) abre o seu Guia dos Perplexos — a maior obra de filosofia da tradição judaica — precisamente com esta questão. O primeiro capítulo da obra dedica-se a uma única palavra: tselem, "imagem".
O Rambam observa que a língua hebraica possui um termo próprio para a forma física, o contorno geométrico de um objeto — a palavra to'ar. E essa palavra jamais é aplicada a D'us. Quando a Torá quer falar de configuração corpórea, de aparência visível, ela tem o vocabulário exato para isso, e o reserva apenas às criaturas. O termo tselem, ao contrário, nunca designa a forma exterior de uma coisa. Ele aponta para aquilo que a coisa essencialmente é — sua natureza distintiva, o princípio que faz dela o que ela é e não outra coisa.
A conclusão do Rambam é límpida e revolucionária. Aquilo que constitui a essência do ser humano, e que ele compartilha em alguma medida com o Criador, não é o corpo — partilhamos o corpo com todos os animais. É a sechel: o intelecto, a faculdade de compreender, a inteligência capaz de conhecer, de raciocinar, de abstrair, de distinguir o verdadeiro do falso. É nisso, e somente nisso, que o homem é "imagem de D'us".
D'us é, num sentido absoluto que ultrapassa nossa compreensão, Conhecimento puro. O ser humano, criatura entre as criaturas, recebeu uma centelha dessa capacidade: pode conhecer verdades que nenhum animal alcança, pode contemplar realidades que não vê com os olhos, pode perguntar "por quê?" e buscar a estrutura oculta das coisas. Essa faculdade de apreender a verdade é o reflexo, em escala criada e finita, daquilo que D'us é. O tselem Elokim é o intelecto.
A dignidade infinita que daí decorre
Esta não é uma sutileza de filósofos. Dela depende a totalidade da visão judaica sobre o valor da pessoa humana. Pois se o que há de divino no homem fosse seu corpo, a dignidade humana variaria com a força, a beleza ou a saúde. Mas se o que há de divino é o intelecto — a marca do próprio Criador impressa na alma racional — então cada ser humano carrega em si algo de valor incalculável, independentemente da sua aparência, da sua origem ou da sua condição.
A Mishná, em Pirkei Avot, formula esse princípio com uma delicadeza inesquecível:
"Amado é o homem" — não este ou aquele homem, não os virtuosos ou os sábios, mas o homem enquanto tal, pelo simples fato de ter sido criado portando essa imagem. A dignidade não é conquistada nem merecida; é constitutiva. Ela acompanha o ser humano desde o primeiro instante de sua existência, porque pertence à sua própria definição.
É por isso que a Torá trata o derramamento de sangue humano com uma gravidade que excede todas as outras transgressões contra o próximo. Após o Dilúvio, a proibição é fundamentada não no contrato social, não na utilidade, mas na imagem:
Assassinar não é apenas suprimir uma vida. É apagar, no mundo, uma das janelas pelas quais o conhecimento de D'us poderia brilhar. É diminuir a imagem divina presente na realidade. Por isso a Mishná, ao instruir as testemunhas em casos capitais sobre a gravidade do testemunho, ensina o princípio que se tornou um dos mais célebres de toda a literatura judaica: quem destrói uma única vida, é como se tivesse destruído um mundo inteiro; e quem preserva uma única vida, é como se tivesse preservado um mundo inteiro (Sanhedrin 4:5). Cada pessoa, portadora de um intelecto único e irrepetível, é um universo de possibilidades de conhecimento e de bem.
A igualdade que nasce da mesma fonte
Da mesma raiz brota a igualdade fundamental entre os seres humanos. A mesma Mishná de Sanhedrin observa que o homem foi criado um só no princípio — Adam, um único indivíduo de quem toda a humanidade descende. Por quê? Para que ninguém pudesse dizer ao outro "meu pai é maior que o teu", e para proclamar a grandeza do Criador: do mesmo molde foram cunhadas todas as moedas de um rei, e todas saem idênticas; mas o Rei dos reis cunhou cada ser humano com o selo de Adam, e nenhum é igual ao outro.
O paradoxo é deliberado. Todos partilham a mesma origem e a mesma imagem — e nisso são absolutamente iguais em dignidade. E, no entanto, cada um é único e insubstituível. A igualdade judaica não nivela; ela reconhece que a mesma imagem divina, presente em todos, floresce de maneira singular em cada pessoa. Não há raça, nação ou classe que possua mais ou menos dessa imagem. O intelecto que torna o homem semelhante a D'us foi dado à humanidade inteira.
Imagem como dom e como tarefa
Mas a imagem de D'us não é apenas um dado que recebemos passivamente. É também um chamado. Possuir intelecto é ser responsável por aquilo que dele se faz. A Torá não nos diz apenas o que somos; diz-nos o que devemos vir a ser.
Daí o mandamento que o Rambam, em suas Hilchot Deot — as Leis das Disposições da Alma — coloca no centro da vida moral: vehalachta bidrachav, "e andarás nos Seus caminhos". Imitar a D'us. Assim como Ele é misericordioso, sê misericordioso; assim como Ele é compassivo e paciente, sê tu também. Como pode uma criatura imitar o Criador? Apenas porque carrega Sua imagem — porque o intelecto que distingue o bem do mal pode também escolher o bem e moldar o caráter à semelhança das vias divinas. Ser tselem Elokim é receber a tarefa de tornar-se, pela razão e pela ação, cada vez mais semelhante a Quem nos criou.
O intelecto, ensina a tradição racionalista, não é um ornamento da alma — é o que nela há de mais elevado e o que nela pode tornar-se imortal. Aperfeiçoá-lo no conhecimento da verdade, e sobretudo no conhecimento de D'us, é a realização mais plena daquilo que o ser humano foi criado para ser.
A imagem que se aperfeiçoa ou se obscurece
Há, porém, uma advertência implícita em tudo isso. Se a imagem de D'us no homem é o intelecto, então essa imagem não é uma posse garantida e estática — ela pode crescer ou definhar. Quem dedica sua faculdade racional a conhecer a verdade, a contemplar a sabedoria que sustenta a criação, a refinar o caráter e a aproximar-se do conhecimento de D'us, faz a imagem divina resplandecer com mais força em si. A sechel se aperfeiçoa.
Mas quem entrega o intelecto ao serviço exclusivo do apetite — quem usa a inteligência apenas para satisfazer o desejo, e renuncia a perguntar o que é verdadeiro e o que é bom — obscurece em si a imagem que recebeu. Os Sábios falam, então, de um homem que se rebaixa "como os animais", não porque tenha perdido o corpo que com eles partilha, mas porque deixou de exercer aquilo que dos animais o distingue. A imagem não foi retirada; foi velada pela negligência. O grande risco da liberdade humana é precisamente este: a mesma faculdade que nos eleva acima de toda a criação pode ser deixada adormecida, e então o que havia de mais divino em nós permanece estéril.
A base de uma ética universal
Eis, enfim, por que a doutrina do tselem Elokim é o alicerce de uma ética que não conhece fronteiras. Se cada ser humano — sem exceção — carrega a imagem de D'us, então respeitar o outro deixa de ser uma questão de simpatia, de afinidade ou de pertencimento ao mesmo grupo. Torna-se uma exigência absoluta, fundada não em quem o outro é para mim, mas em quem o outro é diante de D'us.
Humilhar uma pessoa é ofender a imagem divina que ela carrega. Explorá-la, desprezá-la, reduzi-la a um instrumento, é tratar como descartável aquilo que o Criador marcou com Seu próprio selo. E cuidar do estrangeiro, do pobre, do que nada pode me oferecer em troca, é reconhecer que neles brilha a mesma centelha que brilha em mim. A grande pensadora racionalista da Torá já apontava, séculos antes das declarações modernas de direitos, que a dignidade do ser humano não depende do reconhecimento dos outros homens: ela está inscrita em sua própria criação.
Compreender o tselem Elokim como o intelecto, e não como a forma, não esvazia a frase do Gênesis — pelo contrário, é o que a torna infinitamente mais profunda. Não fomos feitos para parecer com D'us. Fomos feitos para conhecê-Lo, para imitá-Lo no bem, e para reconhecer, em cada rosto humano que encontramos, o reflexo da mesma luz que nos foi dada.
Texto autoral, na tradição da filosofia racionalista da Torá — a linha do Rambam (Maimônides) e de Saadia Gaon. As fontes clássicas estão citadas ao longo do texto: Bereshit 1:26-27 e 9:6; Mishná Sanhedrin 4:5; Pirkei Avot 3:14; o Guia dos Perplexos I:1 e as Hilchot Deot do Rambam. A análise e a redação são originais.