Há uma suposição muito difundida — e muito errada — de que a idolatria começou quando algum povo, em tempos remotos, decidiu negar a existência de D'us e adorar pedras e estrelas em Seu lugar. Se fosse assim, o erro seria grosseiro, óbvio, fácil de evitar. Mas a verdade que o Rambam (Maimônides) descreve é bem mais sutil — e por isso mesmo muito mais perigosa, porque o mesmo erro pode reaparecer hoje entre pessoas que creem sinceramente no Único D'us.
Como a idolatria realmente começou
Nas Hilchot Avodá Zará — as Leis da Idolatria, capítulo primeiro do seu código — o Rambam abre não com uma lei, mas com história. Os homens da geração de Enosh, diz ele, não eram ateus. Pelo contrário: eles acreditavam em D'us, Criador do céu e da terra. O raciocínio deles foi este: D'us criou os astros e as esferas, e os colocou no alto para governar o mundo; é justo, portanto, honrá-los, louvá-los e prestar-lhes reverência — pois honrar os servos de um rei é uma forma de honrar o próprio rei.
Note o ponto exato. O primeiro passo não foi adorar os astros em lugar de D'us. Foi honrá-los por causa de D'us — como ministros, como mediadores, como caminhos para chegar até Ele. Ninguém ali pensava que o sol havia criado o mundo. Pensavam apenas que o sol era um servo digno de reverência, próximo do Trono, capaz de transmitir os pedidos humanos para cima.
Foi exatamente desse ponto, ensina o Rambam, que tudo degenerou. Os falsos profetas surgiram dizendo: "D'us ordenou que se construam altares a este astro, que se lhe ofereçam sacrifícios." Geração após geração, o D'us verdadeiro foi sendo esquecido, e o que restou foi a reverência aos intermediários — agora tratados como poderes em si mesmos. A idolatria, em sua origem, não foi negação de D'us. Foi a introdução de um terceiro entre o homem e D'us.
A raiz do erro: o intermediário
Aqui está a lição decisiva, e ela ultrapassa em muito a história antiga. O pecado fundador não foi negar o Criador — foi inserir uma criatura como ponte até Ele. Por isso a Torá é tão inflexível quanto a dirigir oração, pedido ou serviço a qualquer ser que não seja D'us: anjos, astros, "forças", e — como veremos — também os mortos e os justos falecidos.
O princípio é claro: no instante em que dirijo minha súplica a alguém esperando que ele a leve até D'us, ou que ele tenha poder de me ajudar, reproduzi exatamente o passo da geração de Enosh. Pouco importa que eu continue afirmando, com toda sinceridade, que só existe um D'us. O erro não está na teologia que professo com a boca; está no ato de orar, que passou a ter um destinatário intermediário.
Por isso a tradição racionalista insiste: a idolatria não se define pela crença consciente de que "há outro deus". Define-se pelo ato — pela direção do serviço e da oração. Quem reza a um intermediário esperando dele auxílio ou intercessão atravessou a linha, mesmo crendo num só D'us.
D'us está próximo de quem O chama diretamente
A objeção natural é humana e sincera: "Mas quem sou eu para me dirigir diretamente ao Rei do universo? Não preciso de alguém maior, mais santo, mais próximo d'Ele, que apresente meus pedidos?" A Torá responde a essa angústia de modo categórico — e a resposta é libertadora.
O versículo não diz que D'us está próximo dos grandes, dos santos, dos sábios. Diz: de todos os que O chamam — e os chamam em verdade, isto é, diretamente, sem mediadores. A premissa de que precisamos de um intermediário porque somos pequenos demais é precisamente a premissa que a Torá desmonta. D'us não é um rei distante cercado de cortesãos que filtram quem chega. Ele ouve o pedido mais simples de cada pessoa, na sua própria língua, no seu próprio quarto, sem ninguém entre os dois.
Saadia Gaon, entre os primeiros a sistematizar a fé de Israel pela razão, já fundamentava que D'us, sendo perfeitamente Um e infinito em conhecimento, conhece imediatamente o coração de cada criatura. Um Criador onisciente não necessita de mensageiros para saber o que pedimos, nem de intercessores para ser movido à compaixão. Postular tais intermediários é, no fundo, rebaixar a própria grandeza de D'us — imaginá-Lo como um soberano humano, limitado, que só age por intermédio de seus ministros.
Os mortos não intercedem — e a Torá o proíbe
Resta o caso mais delicado, porque toca o amor e a saudade: a prática de dirigir orações aos falecidos — sobretudo aos justos, aos tzaddikim — ou de ir aos túmulos pedindo que o morto interceda junto a D'us em favor dos vivos.
Sobre isso, dois pontos precisam ser ditos com firmeza e com cuidado. O primeiro é factual: os mortos não têm poder de agir no mundo. A alma do justo retorna ao seu Criador; ela não administra os assuntos terrenos, não distribui bênçãos, não move acontecimentos. O Eclesiastes (Kohelet) ensina que os que partiram já não têm parte em nada do que se faz sob o sol. Atribuir ao falecido poder de interceder ou de agir é atribuir-lhe uma capacidade que ele simplesmente não possui — é mover a esperança para um lugar onde nada pode ser feito.
O segundo ponto é a própria proibição da Torá, explícita entre as práticas abomináveis das nações:
A expressão doresh el ha-metim — "quem indaga aos mortos" — é colocada pela Torá no mesmo rol das práticas mais severamente vedadas. Voltar-se aos mortos como fonte de auxílio, de informação ou de intercessão é caminhar precisamente na direção que a Torá fechou. Não porque o luto e a memória sejam errados — visitar o túmulo de um ente querido, recordá-lo, honrar sua memória, são atos belos e permitidos. O problema surge no instante em que o ato deixa de ser memória e se torna oração dirigida ao morto, como se ele ouvisse e pudesse atender.
Uma distinção que tudo decide
É preciso, em justiça, fazer uma distinção fina — porque nem tudo o que à primeira vista parece semelhante é igual.
Uma coisa é pedir a D'us que tenha misericórdia de nós em mérito dos justos — invocar diante d'Ele a aliança de Avraham, Yitzchak e Yaakov, lembrar a retidão dos que viveram diante d'Ele. Nessa oração, o destinatário continua sendo, do princípio ao fim, o próprio D'us; os justos são apenas o mérito que se evoca, não o ouvinte do pedido. A oração de Israel está cheia desse modelo, e ele é perfeitamente legítimo.
Outra coisa, inteiramente diversa, é rezar ao morto — dirigir-se ao falecido, ao tzaddik, ao anjo, dizendo "intercede por mim", "peça por mim", "ajuda-me", como se ele fosse o destinatário da súplica e o agente da resposta. Aqui o destinatário deixou de ser D'us. E foi justamente esse deslocamento — do Criador para o servo, do Rei para o ministro — que deu origem a toda a idolatria, como o Rambam mostrou no começo.
A diferença entre as duas não é de palavras apenas; é de direção do coração. Numa, ergo os olhos a D'us e menciono os justos diante d'Ele. Na outra, ergo os olhos ao justo e lhe peço que erga os dele por mim. A primeira é oração; a segunda é o primeiro passo do caminho que a Torá nos manda evitar.
Uma correção, não uma acusação
É importante encerrar com clareza sobre o tom. Quem hoje reza num túmulo ou pede a um falecido que interceda quase nunca é um idólatra consciente. Não há, no coração dessa pessoa, intenção de adorar outro deus — há, ao contrário, amor, saudade, e a busca sincera de proximidade com o Céu. É erro, mas erro de quem ama. Por isso a resposta correta não é a condenação, e sim a explicação — exatamente como faz o Rambam, que começa as Leis da Idolatria contando como gente sincera, passo a passo, perdeu o caminho.
A boa notícia da Torá é também a mais simples: você não precisa de ninguém entre você e D'us. Nenhum anjo, nenhum santo, nenhum túmulo, nenhum mediador. Próximo está o Eterno de todos os que O invocam — de você, agora, exatamente como você é. Dirija-Lhe a palavra diretamente. Ele está mais perto do que qualquer intermediário jamais poderia estar.
Texto autoral, na tradição da filosofia racionalista da Torá — a linha do Rambam (Maimônides), de Saadia Gaon e dos grandes pensadores de Israel. As fontes clássicas (Torá, Talmud, Rambam) são citadas ao longo do texto; a redação é original.