Quem lê a Torá pela primeira vez logo encontra um problema. Em uma página, D'us "estende a mão poderosa"; em outra, "desce" para ver a cidade que os homens construíram; em outra, ainda, "se arrepende" de ter criado o homem e fica "entristecido em Seu coração". Mas a mesma Torá insiste que D'us não tem corpo, não muda e não pode ser comparado a nada. Como conciliar?
A resposta da tradição racionalista não é fugir do problema nem fingir que ele não existe. É reconhecer que a Torá possui níveis de leitura, e que ler bem significa saber em qual nível cada passagem fala. Os dois mais fundamentais têm nomes antigos: pshat, o sentido simples e direto das palavras, e drash, a interpretação mais profunda, homilética, que extrai do texto o que sua superfície apenas sugere.
O que são pshat e drash
O pshat é o ponto de partida de toda leitura honesta. É o que o texto diz quando lido na sua gramática, no seu contexto, na sua intenção evidente. Quando a Torá ordena "não matarás", o pshat é exatamente isso — não há metáfora a buscar. Ignorar o sentido simples em favor de invenções engenhosas é trair o texto.
O drash, por sua vez, é a camada que os Sábios extraem ao examinar o texto com mais profundidade: uma palavra incomum, uma repetição aparentemente supérflua, uma ordem invertida. O drash não substitui o pshat; ele se acrescenta a ele, revelando ensinamentos morais, jurídicos e filosóficos que o sentido simples carrega em germe. Um verso pode ter pshat e drash ao mesmo tempo — são lentes, não rivais.
A pergunta decisiva, então, não é "qual nível é o verdadeiro?", mas "quando devo ler uma passagem ao pé da letra e quando devo entendê-la como figura de linguagem?". E aqui a filosofia racionalista oferece um critério limpo.
O critério do Rambam: a razão demonstrada
Na introdução ao Guia dos Perplexos (Moré Nevuchim) e ao longo de sua primeira parte, o Rambam (Maimônides) estabelece um princípio que governa toda leitura madura da Torá. Quando a leitura literal de um verso contradiz aquilo que a razão demonstrou ser verdadeiro, esse verso deve ser lido como metáfora. Não pode ser — deve ser.
A lógica é direta. D'us é o autor da Torá e também o autor da realidade que a razão investiga. A verdade não se contradiz. Se sabemos, por demonstração racional, que D'us não tem corpo — pois um corpo é divisível, ocupa espaço, está sujeito a mudança, e nada disso pode aplicar-se ao Criador — então um verso que parece atribuir-Lhe um corpo não pode estar dizendo isso literalmente. O literalismo, nesses casos, não é piedade: é erro.
É importante notar o limite do princípio: ele se aplica ao que a razão de fato demonstrou, não a meras opiniões, modas ou conjecturas. Não se alegoriza um verso porque ele incomoda ou porque uma teoria passageira o desafia. Alegoriza-se quando a verdade está estabelecida com certeza — e a incorporeidade de D'us é uma dessas verdades.
Os antropomorfismos: a Torá fala como os homens falam
O caso mais claro desse princípio são os antropomorfismos — as passagens que descrevem D'us em termos humanos. O Talmud já havia formulado a regra que o Rambam desenvolve filosoficamente:
A Torá foi dada para ser compreendida por seres humanos, que pensam por meio de imagens e de corpos. Para nos ensinar que D'us age no mundo, que protege, que pune, que perdoa, o texto usa o vocabulário que possuímos. Falar da "mão de D'us" é uma forma de dizer Seu poder de agir; dos "olhos de D'us", Seu conhecimento de tudo; de Seus "ouvidos", que a oração não se perde no vazio. Nenhuma dessas expressões descreve órgãos. Descrevem ações e relações, na única língua que entenderíamos.
O mesmo vale para os verbos de movimento e emoção. Quando a Torá diz que D'us "desceu" sobre o Sinai ou para ver a torre de Bavel, não se trata de deslocamento físico — D'us não está num lugar para sair dele. "Descer" exprime a manifestação de Sua providência num ponto da história humana. E quando se lê que D'us "se arrependeu" de ter feito o homem, não é que Ele tenha mudado de ideia, pois quem é perfeito não se corrige: é a linguagem da Torá para descrever uma mudança na conduta humana que altera a relação entre o homem e seu Criador.
Não foi o Rambam quem inventou essa leitura. Séculos antes, Onkelos, ao traduzir a Torá para o aramaico, já parafraseava sistematicamente os antropomorfismos para afastar qualquer ideia de corporeidade — substituindo "a mão de D'us" por "o poder de D'us", evitando dizer que D'us "desceu" e preferindo falar de Sua revelação. Saadia Gaon, na mesma tradição, ensina que a razão é uma das vias pelas quais reconhecemos a verdade, e que o texto sagrado, lido corretamente, jamais a contradiz. A própria Torá fecha a questão ao descrever o Sinai:
Se no momento mais alto da revelação o povo expressamente não viu nenhuma forma, então toda imagem corpórea que aparece depois só pode ser figura de linguagem. O texto interpreta a si mesmo.
O equilíbrio: nem literalismo ingênuo, nem alegoria que dissolve a lei
Aqui é preciso muito cuidado, porque o princípio do Rambam pode ser deformado em duas direções opostas. De um lado está o literalismo ingênuo, que insiste em ler tudo ao pé da letra e termina atribuindo a D'us um corpo, paixões e fraquezas — um erro que a Torá combate e que compromete a própria ideia de Criador. De outro lado, e não menos perigoso, está a alegorização irresponsável, que transforma toda a Torá em símbolo e, com isso, evapora a obrigação concreta das mitsvot.
A regra racionalista é firme neste ponto: a razão nos manda alegorizar apenas o que deve ser alegorizado — ou seja, aquilo cuja leitura literal contradiz uma verdade demonstrada. O pshat das mitsvot permanece integralmente obrigatório. O Shabat é um dia real, com leis reais; o tefilin é um objeto físico que se ata ao braço e à cabeça; a kashrut governa o que de fato se come. Nenhuma "interpretação profunda" tem autoridade para abolir a prática que o texto comanda. Quem alegoriza uma mitsvá para dispensar-se de cumpri-la não está lendo mais fundo — está apenas fugindo.
O critério, em todos os casos, é a verdade. Não alegorizamos por gosto, por conveniência ou por embaraço diante do texto. Alegorizamos quando, e somente quando, a verdade estabelecida o exige — e mantemos o sentido literal em tudo o mais. O antropomorfismo se lê como metáfora porque a incorporeidade de D'us é certa; a mitsvá se lê ao pé da letra porque nada na razão a contradiz.
Ler com profundidade é um ato de respeito
Há quem tema que reconhecer metáforas na Torá seja um passo rumo à descrença — como se interpretar fosse o mesmo que diminuir. A tradição racionalista ensina exatamente o contrário. Tratar cada palavra da Torá como literal, mesmo quando isso atribui a D'us um corpo, é uma forma de desrespeito disfarçada de devoção: rebaixa o Criador ao nível de Suas criaturas.
Procurar o sentido verdadeiro de cada passagem — distinguir onde o texto fala ao pé da letra e onde fala em figura — é o oposto da descrença. É o esforço de quem acredita que a Torá é palavra de D'us e que, por isso mesmo, ela não pode conter nada falso nem contraditório. Ler com profundidade é honrar o autor do texto. É supor que cada palavra foi colocada por sabedoria, e que nosso dever é compreendê-la como ela merece ser compreendida — com a mente desperta, e não adormecida.
O pshat e o drash, assim, não são caminhos rivais. São os dois olhos com que se lê a Torá: um fixo no sentido claro das palavras, o outro atento à profundidade que elas guardam. E entre os dois, governando a leitura inteira, está o critério que nunca falha — a verdade, que vem do mesmo D'us que deu a Torá e que criou a razão capaz de compreendê-la.
Texto autoral, na tradição da filosofia racionalista da Torá — a linha do Rambam (Maimônides), de Saadia Gaon e dos grandes pensadores de Israel. As fontes clássicas (Torá, Talmud, Rambam) são citadas ao longo do texto; a redação é original.