Há uma pergunta que parece a mais natural de todas e que, no entanto, talvez seja a mais mal formulada que a mente humana pode propor: o que é D'us? Perguntamos "o que é" sobre uma árvore, uma estrela, uma emoção — e esperamos uma definição. Mas definir significa traçar limites, situar uma coisa dentro de uma categoria, dizer a que outras coisas ela se parece. E é precisamente isso que, quanto a D'us, jamais poderemos fazer.
O Rambam (Maimônides), no Moré Nevuchim (Guia dos Perplexos), dedica os capítulos mais densos da sua obra a um único ponto: a essência de D'us é radicalmente incognoscível. Não difícil de conhecer — incognoscível por princípio. E essa não é uma derrota da razão. É a sua conclusão mais rigorosa.
Por que a essência é inalcançável
Tudo o que a mente humana conhece, ela conhece através de comparação. Compreendemos algo relacionando-o ao que já sabemos: pela categoria a que pertence, pela causa que o produziu, pelas partes que o compõem, pelos efeitos que provoca. Toda definição é, no fundo, uma rede de relações com o resto da realidade.
Mas D'us não pertence a nenhuma categoria. Ele não tem causa, pois é a causa de tudo. Não tem partes, pois é absolutamente um. Não está dentro do universo como um objeto entre objetos. Não há, em parte alguma, nada com que Ele possa ser comparado. É exatamente isso que pergunta o profeta Yeshayahu — "A quem, pois, Me comparareis, para que Eu Lhe seja igual? — diz o Santo" (Yeshayahu 40:25). A pergunta é retórica, e a resposta é o silêncio: a ninguém.
Ora, se a única ferramenta cognitiva que possuímos é a comparação, e se não existe nada comparável a D'us, então a Sua essência está, por sua própria natureza, fora do alcance do conhecimento humano. Não por uma limitação acidental que algum dia se possa superar, mas pela estrutura mesma do que é conhecer.
O perigo oculto nos atributos positivos
Aqui o pensamento ingênuo tropeça. "Tudo bem," dirá alguém, "não consigo defini-Lo plenamente, mas ao menos posso afirmar coisas verdadeiras a Seu respeito: D'us é sábio, D'us é poderoso, D'us existe." Parece inofensivo. Não é.
Todo atributo positivo — toda afirmação da forma "D'us é X" — introduz uma de três corrupções, e cada uma delas destrói a unidade absoluta. A primeira é a corporeidade: dizer que D'us "vê", "desce", "Se assenta" sugere um corpo, e um corpo é divisível, situado, finito. A segunda é a composição: dizer que D'us "tem" sabedoria e "tem" poder, como se fossem qualidades que se acrescentam a Ele, faz d'Ele uma soma de partes — uma substância mais seus atributos. Mas o que é composto depende das suas partes, e o que depende não é o Primeiro, não é necessário, não é D'us. A terceira é a limitação: todo predicado recorta, delimita, exclui. Dizer "é isto" é sempre, implicitamente, dizer "não é aquilo".
A unidade de D'us, ensina o Rambam, não é a unidade de um exército ou de um corpo — coisas "uma" que são feitas de muitos. É uma unidade absoluta, sem nada justaposto, sem dentro e fora, sem essência e qualidade separadas. Diante dessa unidade, cada atributo positivo que lhe acrescentamos é, sem que percebamos, um ato de fragmentação.
O caminho dos atributos negativos
Qual é, então, a saída? O Rambam aponta a via negativa, a teologia dos atributos negativos. Não podemos dizer o que D'us é; podemos dizer, com verdade e segurança, o que Ele não é. E cada negação, longe de ser um empobrecimento, é um avanço real do conhecimento.
D'us não é um corpo. D'us não é múltiplo. D'us não muda — pois mudar é passar de um estado a outro, e quem é perfeito nada tem a ganhar nem a perder. D'us não está no tempo, pois o tempo é a medida da mudança, e Ele criou o tempo junto com o mundo; não há "antes" da criação no sentido em que vivemos os "antes". D'us não é impotente, não é ignorante, não é dependente de coisa alguma.
Observe o que cada negação faz. Quem diz "D'us não é um corpo" sabe genuinamente mais do que quem nunca pensou no assunto — afastou um erro grosseiro. Quem acrescenta "e não é uma força que reside num corpo" sabe ainda mais. A cada negação, estreita-se o cerco de equívocos e a mente se aproxima, sem jamais tocar, daquilo que é. O Rambam compara isso a alguém que, sabendo apenas que existe "uma coisa" numa casa, vai eliminando hipóteses — não é mineral, não é vegetal — e a cada exclusão conhece melhor o objeto, embora nunca chegue a vê-lo. O conhecimento de D'us cresce por subtração, não por adição.
Por isso o Rambam ensina que mesmo as palavras que a própria Torá usa — D'us "existe", D'us é "sábio", D'us "quer" — não devem ser entendidas como em nós. A existência d'Ele não é uma propriedade que Ele possui, como a nossa existência é algo que recebemos: a existência d'Ele é a Sua própria essência. A Sua sabedoria não é um saber acrescentado a um sujeito que poderia ser ignorante; é, de novo, a Sua essência única e indivisível. Dizemos essas palavras por aproximação, cientes de que apontam para uma realidade infinitamente além do seu sentido humano.
O silêncio como o mais alto louvor
Há um momento, na vida do pensamento religioso, em que a honestidade intelectual desemboca no silêncio. Não o silêncio da ignorância preguiçosa, mas o silêncio de quem chegou até a fronteira do dizível e a reconhece. O rei David já o havia formulado:
O Talmud relata o caso de alguém que, conduzindo a oração, multiplicou epítetos de grandeza diante de D'us — "o grande, o poderoso, o temível, o forte, o valente" — e foi repreendido: teria ele esgotado os louvores possíveis do Criador? Toda enumeração de qualidades, por mais sublimes, é finita, e o finito não honra o Infinito; antes o reduz à medida da nossa língua. As próprias palavras de louvor que recitamos só são permitidas porque a Torá e os profetas as fixaram — não porque captem o que D'us é. Há uma sabedoria profunda em saber que, diante d'Aquele que está além de toda fala, o louvor mais verdadeiro é, por vezes, a contenção da fala.
Essa é a humildade epistemológica que a tradição racionalista cultiva: não a humildade que se recusa a pensar, mas a que pensa até o limite e tem a integridade de reconhecer o limite. Moshé, o maior dos profetas, aquele que mais se aproximou, ouviu:
Mesmo a ele, a "face" — a essência — permanece velada. O que lhe é concedido contemplar são as "costas", uma metáfora para os efeitos e os caminhos de D'us no mundo, jamais a essência em si.
A imagem como idolatria conceitual
Chegamos ao coração ético da questão. A proibição da idolatria, no judaísmo, não se esgota nas estátuas de madeira e pedra. A imagem mais perigosa não é a que se talha com o cinzel, mas a que se forma na mente. Quando alguém pensa em D'us como um ancião sábio, como uma luz, como uma força, como uma pessoa imensa que sente raiva e se aplaca — está fabricando um ídolo. Um ídolo invisível, mas ídolo: pois substituiu o D'us real, incognoscível, por uma representação manejável e familiar.
É contra isso, em sua raiz, que se ergue o segundo dos Dez Enunciados — lo ta'asse lechá pessel, "não farás para ti imagem esculpida". O alvo último do mandamento não é apenas o artesão; é todo aquele que, em vez de purificar o seu conceito de D'us pela negação, o povoa de figuras. Toda imagem positiva que projetamos sobre o Infinito é uma forma sutil de o reduzir ao nosso tamanho — e adorar o que reduzimos é adorar uma obra das nossas próprias mãos, ainda que feita de pensamento e não de bronze.
A via negativa é, por isso, mais do que um exercício filosófico. É um trabalho contínuo de purificação: cada falsa imagem que a razão derruba é um ídolo a menos entre nós e Aquele que é. Não chegaremos nunca ao fim desse caminho — e essa é justamente a sua grandeza. O D'us que pudéssemos finalmente definir, encerrar numa frase e guardar na mente como guardamos um conceito, esse D'us seria pequeno demais para ser D'us. O verdadeiro permanece — sempre, e por necessidade — para além do que ousamos dizer.
Texto autoral, na tradição da filosofia racionalista da Torá — a linha do Rambam (Maimônides), de Saadia Gaon e dos grandes pensadores de Israel. As fontes clássicas (Torá, Talmud, Rambam) são citadas ao longo do texto; a redação é original.