Entre os Dez Mandamentos pronunciados no Sinai, há um que à primeira vista parece menor que os outros. Não fala de homicídio, nem de roubo, nem de idolatria. Fala apenas de palavras — de como usamos um Nome. E, no entanto, é o único dos Dez sobre o qual a própria Torá adverte que o transgressor "não será tido por inocente". Por que tanta gravidade em torno da linguagem?
O que é "em vão" — lashav
A palavra hebraica lashav carrega dois sentidos que se entrelaçam. O primeiro é o falso: jurar pelo Nome de D'us aquilo que se sabe não ser verdade. O segundo é o vazio, o inútil: invocar o Nome sem propósito, gratuitamente, como quem jura que uma pedra é uma pedra — um juramento sem conteúdo, que nada acrescenta e nada compromete.
O Talmud, no tratado Shevuot, distingue cuidadosamente os tipos de juramento e mostra que o shav abrange tanto o que é manifestamente falso quanto o que é manifestamente supérfluo. O Rambam (Maimônides), em suas Hilchot Shevuot, organiza essas categorias com precisão jurídica. Mas a tradição não parou no juramento formal. Por extensão lógica, o princípio alcança todo uso banal, leviano ou desnecessário do Nome — pronunciá-lo como bordão, como interjeição de espanto, como tempero de uma conversa trivial.
Ou seja: o mandamento não proíbe falar de D'us. Proíbe falar d'Ele à toa. A questão não é a frequência, mas a seriedade.
Por que é tão grave
Por que justamente este mandamento recebe a advertência de que o Eterno "não terá por inocente" o transgressor? A resposta está naquilo que a palavra representa no ser humano.
De tudo o que existe no mundo conhecido, somente o homem fala. A linguagem é o que nos distingue — é o instrumento do pensamento, o meio pelo qual formulamos verdades, fazemos promessas, construímos confiança entre as pessoas. Quando juramos, colocamos a integridade da nossa palavra como garantia. E quando juramos pelo Nome de D'us, vinculamos o que há de mais elevado — a fonte da verdade — ao que dizemos.
Tomar esse Nome em vão é, portanto, um ato de corrosão dupla. Corrói a verdade, porque trata como banal aquilo que deveria selar o verdadeiro. E corrói a reverência — a yirá —, porque ensina a alma a tratar com leviandade aquilo que é o mais sério de tudo. Não se trata de ofender um D'us suscetível. Trata-se do dano que o próprio falante inflige à sua faculdade mais nobre: rebaixar a linguagem rebaixa o pensamento, e rebaixar o pensamento sobre D'us rebaixa a relação com a realidade última.
Note-se o contraste: matar, roubar e adulterar são atos contra o próximo, cujos danos são visíveis. Tomar o Nome em vão é um ato silencioso, sem vítima aparente — e talvez por isso a Torá precise sublinhar sua gravidade. O dano é interior, invisível, e por isso mesmo mais fácil de ignorar.
A tradição da reverência
É deste princípio que nasce todo um conjunto de costumes em torno do Nome. O Tetragrama — o Nome de quatro letras — não é pronunciado como está escrito. Em seu lugar, ao orar ou ao ler a Torá, diz-se Ad-nai; e na conversa cotidiana, simplesmente Hashem — "o Nome". Não porque as sílabas tenham poder oculto, mas porque a distância na pronúncia ensina a distância devida na atitude.
O Rambam, em Hilchot Yesodei HaTorá (capítulo 6), estabelece como lei a proibição de apagar ou destruir os nomes sagrados de D'us escritos num texto. Quem apaga deliberadamente um desses nomes transgride; documentos que os contêm são guardados com cuidado e não descartados como papel comum. Desse mesmo espírito vem o costume, em português, de escrever "D'us" com a interrupção — um gesto pequeno que mantém viva, no ato cotidiano de escrever, a consciência de que ali não se trata de uma palavra qualquer.
A Torá funda a obrigação positiva que sustenta tudo isso:
E, no mesmo registro, o versículo que ordena a santificação do Nome e proíbe sua profanação:
O sentido racionalista: a linguagem molda o pensamento
Aqui o ensino atinge sua dimensão mais profunda, e mais útil para a vida da mente. Há uma verdade que os filósofos da linguagem só viriam a formular séculos depois, mas que a Torá já incorpora em sua prática: o modo como falamos molda o modo como pensamos. As palavras não são embalagens neutras de ideias prontas; elas treinam a mente, sulcam hábitos, definem o que tratamos como sério e o que tratamos como desprezível.
Saadia Gaon, ao explicar por que a Torá orienta tanto a conduta exterior quanto a disposição interior, observa que os atos repetidos formam o caráter. O mesmo vale para a fala. Quem se acostuma a invocar o Nome de D'us com cuidado — pesando quando e como falar d'Ele — está, a cada vez, exercitando a mente a colocar D'us no lugar que Lhe é próprio: o mais elevado de todos. A reverência na linguagem é um treino cognitivo.
O inverso também é verdadeiro, e mais perigoso. Quem usa o Nome como interjeição vazia, como sal de qualquer frase, embota lentamente a própria alma. A cada uso banal, a palavra perde peso; e quando ela perde peso, perde-se também a capacidade de pensar com seriedade naquilo que ela designa. O hábito da banalização não permanece nos lábios — desce até o entendimento e ali aplaina a montanha, transformando o mais alto em mais um ruído de fundo. A leviandade verbal é, no fim, uma forma de cegueira intelectual autoinfligida.
O equilíbrio: reverência sem superstição
Resta um ponto decisivo, e é aqui que a leitura racionalista se separa nitidamente da superstição. O respeito pelo Nome não é respeito por sons. Não há magia nas sílabas, nem força secreta nas letras. Quem evita pronunciar o Tetragrama não o faz por temer que a vibração das consoantes provoque algum efeito oculto.
O respeito é dirigido àquilo que o Nome representa: a verdade última, a causa de tudo o que existe, a realidade mais elevada que a mente humana pode contemplar. Reverenciar o Nome é uma forma concreta, encarnada na fala, de reverenciar essa verdade. Trate-se a palavra com cuidado, e a mente aprende a tratar com cuidado a ideia. Trate-se a palavra como amuleto, e cai-se justamente no erro que a Torá combate: confundir o símbolo com a coisa, a casca com o conteúdo.
Esta é a linha tênue que o pensamento maduro deve percorrer. De um lado, a banalização, que esvazia a reverência e embota a alma. Do outro, a superstição, que transfere para o som um poder que pertence apenas ao que o som designa. Entre os dois, a posição racionalista: a reverência consciente — saber por que se cuida da palavra, e cuidar dela precisamente por causa disso.
Falar de D'us, então, não é proibido — é convidado, e até ordenado. O que se proíbe é falar d'Ele como se Ele fosse pouca coisa. O terceiro mandamento, lido em sua profundidade, não nos cala. Ele nos ensina a falar à altura daquilo de que falamos.
Texto autoral, na tradição da filosofia racionalista da Torá — a linha do Rambam (Maimônides) e de Saadia Gaon. As fontes clássicas citadas ao longo do texto incluem a Torá (Shemot 20:7; Vayikrá 22:32; Devarim 6:13), o Talmud (tratados Shevuot e Temurá) e o Rambam (Hilchot Yesodei HaTorá, capítulo 6, e Hilchot Shevuot). A redação é original.