Filosofia Racionalista · Fundamentos

Os Nomes de D'us: Havayá e Elokim

Se D'us é absolutamente Um — indivisível, sem partes, sem multiplicidade —, por que a Torá O chama por tantos nomes? A resposta da tradição racionalista é precisa: os Nomes não descrevem essências diferentes, mas relações pelas quais O conhecemos.

Ensaio na tradição racionalista da Torá Ensaio autoral · PT-BR

Quem lê a Torá com atenção logo percebe que D'us é designado por uma variedade de nomes: Havayá — o Tetragrama, as quatro letras —, Elokim, E-l Shakai, Ad-nai, Ehyeh. À primeira vista isso parece um paradoxo. O princípio mais elementar do judaísmo é a unicidade absoluta de D'us: Ele é Um, não composto, sem divisões internas. Como, então, conciliar essa unidade radical com uma pluralidade de nomes?

A tradição racionalista da Torá — a linha de Saadia Gaon e do Rambam (Maimônides) — oferece uma resposta que dissolve o paradoxo sem comprometer a unidade. Os Nomes divinos não nomeiam essências múltiplas. Eles nomeiam relações, aspectos e modos de ação pelos quais o ser humano O conhece e O experimenta. A multiplicidade não está em D'us; está nas formas como Ele se relaciona com o mundo e em como nós O apreendemos.

Um único ser, muitos modos de relação

Pense em uma só pessoa que, conforme a relação, é chamada de "pai", "médico", "vizinho" e "professor". Esses quatro nomes não descrevem quatro pessoas — descrevem uma pessoa apreendida sob quatro relações diferentes. "Pai" diz respeito ao filho; "médico", ao paciente; "vizinho", a quem mora ao lado. O ser é um; os nomes refletem ângulos de relação.

De modo análogo — e guardadas todas as distâncias, pois D'us não tem partes nem atributos como as criaturas têm —, os Nomes divinos apontam para as diversas maneiras pelas quais o Único se manifesta na criação e na história. O Rambam dedica capítulos centrais do Guia dos Perplexos (I:61–64) precisamente a esclarecer que esses nomes, com uma única exceção, derivam de ações divinas ou da relação de D'us com o mundo — não de qualquer suposta composição em Sua essência.

A multiplicidade dos Nomes não está em D'us, mas nas relações pelas quais O conhecemos.

Havayá: o Nome próprio, ligado ao Ser

Entre todos os Nomes, um ocupa lugar singular: o Tetragrama, as quatro letras, que a tradição chama de Havayá. O Rambam o designa como o Shem HaMeforash e o Shem HaEtzem — o Nome próprio, o Nome que aponta para a essência. Enquanto os demais nomes derivam de ações (julgar, sustentar, criar), este é o único que não descreve uma operação: ele indica o próprio existir de D'us.

A raiz das quatro letras está ligada ao verbo haiá / hové / ihiê — ser, existir. Por isso a tradição o interpreta como "Aquele que é, que era e que será": não um existir que começou ou que depende de outro, mas a existência necessária, eterna e independente. D'us não é um ser entre outros; Ele é o Existente cuja essência é existir, do qual todo o resto recebe a existência. Esse Nome aponta — na exata medida em que algo pode ser dito da Sua essência — para o fato de que Ele simplesmente é, sem causa e sem condição.

É justamente por isso que esse Nome não se pronuncia. Por reverência, ao encontrá-lo no texto lemos "Ad-nai". A interdição da pronúncia não é superstição: ela exprime o reconhecimento de que o Nome que toca a essência divina está além da familiaridade da fala cotidiana. O que aponta para o ser absoluto não pode ser tratado como um termo ordinário.

Ehyeh asher Ehyeh: a revelação a Moshé

Esse vínculo entre o Nome e o ser aparece de forma explícita no episódio da sarça ardente. Quando Moshé pergunta qual Nome deve transmitir ao povo, a resposta é uma das frases mais densas de toda a Torá:

אֶהְיֶה אֲשֶׁר אֶהְיֶה "Serei o que Serei" — ou: "Eu Sou o que Sou." Shemot 3:14

O Rambam lê essa frase como uma definição filosófica condensada: D'us é o Ser que existe por Si mesmo, cuja existência não é condicionada por nada exterior. "Serei o que Serei" significa: a existência que é o seu próprio fundamento. Não há antes nem depois que O condicionem, não há causa que O sustente. Aquilo que para todas as criaturas é contingente — poder existir ou não existir — n'Ele é necessidade pura. O Nome Ehyeh, partilhando a mesma raiz das quatro letras, sela essa ideia: o existir absoluto, não derivado.

Elokim: o Nome do poder e do juízo

Se Havayá aponta para o ser, Elokim aponta para a relação de D'us com o mundo enquanto poder e autoridade. É com esse Nome que a Torá abre a narrativa da criação:

בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ "No princípio, criou Elokim os céus e a terra." Bereshit 1:1

Elokim designa D'us como a fonte de todas as forças e a autoridade que governa. Não por acaso, a própria Torá emprega o mesmo termo para juízes e governantes humanos — aqueles que exercem poder e autoridade legítima. Aplicado a D'us, o Nome reúne em Si toda força e todo poder: Ele é o senhor de tudo o que age e move no universo.

A forma da palavra é gramaticalmente plural, mas seu sentido é rigorosamente singular — "criou", no versículo, está no singular. Trata-se de um plural de majestade e de abrangência: a totalidade das forças concentrada n'Aquele que é Um. O plural na forma, longe de sugerir muitos deuses, exprime que todo o poder disperso pela criação tem uma única origem.

A tradição associa ainda Elokim à midat hadin, a medida do juízo, enquanto vincula Havayá à midá da misericórdia, o rachamim. É crucial entender o que isso significa — e o que não significa. Não são dois deuses, nem duas vontades em tensão. São dois modos da única ação divina: o mesmo D'us que julga com rigor é o mesmo que age com clemência. O versículo que reúne os atributos da compaixão começa, precisamente, invocando o Nome do ser:

יְהוָה יְהוָה אֵל רַחוּם וְחַנּוּן "O Eterno, o Eterno, D'us misericordioso e clemente." Shemot 34:6

A reverência aos Nomes

Porque os Nomes apontam para D'us — e um deles toca a Sua própria essência —, a Torá cerca-os de santidade. O Rambam codifica essa exigência em Hilchot Yesodei HaTorá (capítulo 6 do Mishné Torá): não se apaga nem se destrói um Nome divino escrito, e não se o profana. Quem apaga deliberadamente um dos Nomes sagrados transgride.

Essa reverência não é um culto à palavra em si, como se as letras tivessem poder mágico. É o reconhecimento de que o Nome representa Aquele a quem aponta. Tratar o Nome com santidade é uma forma concreta de kidush Hashem — a santificação do Nome — e profaná-lo é o seu oposto. A maneira como lidamos com o sinal exprime a seriedade com que reconhecemos a realidade que ele designa.

Conhecer os Nomes é aprofundar o conhecimento de D'us

O ponto racionalista, por fim, é este: os Nomes divinos não fragmentam a unidade de D'us — eles a iluminam por diferentes ângulos. Cada Nome é uma janela para uma dimensão da nossa relação com o Único indivisível. Havayá nos ensina que Ele é o Ser necessário, eterno, independente. Elokim nos ensina que toda força e todo juízo do universo procedem d'Ele. Ehyeh sela a Sua existência incondicionada. Os atributos de misericórdia e de juízo nos mostram que a Sua única ação se manifesta de modos diversos conforme o que a justiça e a bondade pedem.

Nenhum desses nomes esgota o que D'us é — pois, como ensina o Rambam, da Sua essência sabemos sobretudo o que Ele não é. Mas, tomados em conjunto, os Nomes constituem um itinerário de conhecimento. Aprendê-los não é colecionar títulos; é aprofundar, passo a passo, a compreensão d'Aquele que se proclama Um:

שְׁמַע יִשְׂרָאֵל יְהוָה אֱלֹהֵינוּ יְהוָה אֶחָד "Ouve, Israel: o Eterno é nosso D'us, o Eterno é Um." Devarim 6:4

Não é coincidência que esse versículo — a declaração suprema da unidade — reúna Havayá e Elokim e termine na palavra Echad, "Um". Os dois grandes Nomes aparecem lado a lado justamente para afirmar que designam o mesmo e único D'us. A diversidade dos Nomes serve, ao final, à unidade: ela nos dá muitos caminhos para conhecer Aquele que é, de toda forma, indivisivelmente Um.

Sobre este ensaio

Texto autoral, na tradição da filosofia racionalista da Torá — a linha do Rambam (Maimônides) e de Saadia Gaon. Fontes clássicas consultadas: a Torá (Bereshit 1:1; Shemot 3:14–15; 6:3; 34:6; Devarim 6:4), o Talmud, o Guia dos Perplexos do Rambam (I:61–64) e o Mishné Torá (Hilchot Yesodei HaTorá, cap. 6, sobre a santidade dos Nomes). A redação é original.