Filosofia Racionalista · Fundamentos

A Glória de D'us: Kavod e Shechiná

A Torá fala da "glória do Eterno" e da Sua "Presença" que habita entre nós. Mas D'us não tem forma nem lugar. O que, então, é visto no Sinai, o que "habita" no Templo, e o que acompanha Israel no exílio?

Ensaio na tradição racionalista da Torá Ensaio autoral · PT-BR

Poucos temas expõem com tanta força o risco do antropomorfismo quanto a linguagem da "glória" e da "Presença" divinas. A Torá descreve a glória do Eterno descendo sobre o Sinai como fogo e enchendo a Tenda; fala da Shechiná, a Presença que habita "no meio" de Israel. À primeira leitura, parece que D'us ocupa um espaço, brilha, entra e sai de um edifício. Mas o judaísmo racionalista insiste: D'us não tem forma, não tem corpo, não está em um lugar mais do que em outro. Como, então, ler esses textos sem trair o princípio mais elementar da fé?

A resposta começa por uma distinção que o Rambam (Maimônides) desenvolve ao longo da primeira parte do Guia dos Perplexos: as palavras hebraicas raramente têm um único sentido. Kavod ("glória") e Shechiná ("habitação", "presença") são termos com vários significados — e nenhum deles transforma D'us em algo visível ou localizado.

O que é o "kavod": a glória que não é D'us

No Guia I:19, o Rambam analisa a palavra kavod e mostra que ela é usada em pelo menos três sentidos. Em alguns versículos, refere-se a uma luz ou realidade criada — algo que D'us produz para manifestar Sua presença a uma testemunha humana. Saadia Gaon, gerações antes, já havia nomeado esse fenômeno: o kavod nivrá, a "glória criada". O fogo no Sinai, a nuvem que preenche a Tenda, o brilho que Moshé vê — nada disso é D'us. São coisas que D'us cria, exatamente como Ele cria qualquer outro objeto no mundo, para sinalizar à percepção humana que ali, naquele momento, ocorre uma revelação.

Em outros versículos, prossegue o Rambam, kavod não designa luz alguma, mas a própria importância, dignidade e reconhecimento de D'us — a glória no sentido em que se diz que um rei é "glorificado" por seus súditos. Quando o profeta proclama que toda a terra está cheia da glória do Eterno, não fala de uma substância luminosa espalhada pelo planeta, mas do reconhecimento devido a D'us em razão de tudo o que existe.

A consequência é decisiva. Quando lemos que "o povo viu a glória do Eterno", não devemos imaginar que olhos humanos contemplaram a essência divina — coisa impossível, pois o que não tem forma não se vê. Viram um fenômeno criado; ou compreenderam, intelectualmente, a grandeza d'Aquele que se revelava.

וּכְבוֹד יְהוָה כְּאֵשׁ אֹכֶלֶת בְּרֹאשׁ הָהָר לְעֵינֵי בְּנֵי יִשְׂרָאֵל "E a glória do Eterno era como um fogo consumidor no cume da montanha, aos olhos dos filhos de Israel." Shemot 24:17

Repare na precisão do texto: a glória era como um fogo. O versículo não diz que D'us era fogo, nem que o fogo era D'us — diz que aquilo que os olhos viram tinha a aparência de fogo. O que se vê é o sinal criado; o Criador permanece, Ele mesmo, fora do alcance de qualquer percepção sensorial.

"Toda a terra está cheia da Sua glória"

A visão de Yeshayahu no Templo é talvez o texto mais citado sobre a glória divina. Os anjos proclamam:

קָדוֹשׁ קָדוֹשׁ קָדוֹשׁ יְהוָה צְבָאוֹת מְלֹא כָל הָאָרֶץ כְּבוֹדוֹ "Santo, santo, santo é o Eterno dos Exércitos; toda a terra está cheia da Sua glória." Yeshayahu 6:3

Se "glória" fosse uma substância física, a frase seria incoerente: como uma coisa material encheria simultaneamente toda a terra? Lida à luz da distinção do Rambam, porém, a proclamação torna-se límpida. Há aqui o sentido do reconhecimento: não existe lugar no mundo cuja existência não testemunhe a sabedoria e o poder de quem o criou. E há, junto, a ideia de que o alcance de D'us — Seu poder, Seu conhecimento, Sua providência — não está confinado a ponto algum. A glória "enche a terra" porque nada escapa a Ele.

É a mesma verdade que se costuma chamar de onipresença, formulada com cuidado. D'us não está "espalhado" pelo espaço como um gás que preenche um recipiente — isso seria de novo corporificá-Lo. A relação é inversa: o espaço e tudo o que ele contém dependem d'Ele a cada instante. Dizer que Sua glória enche a terra é dizer que nenhuma parte da realidade existe à parte da Sua ação.

A glória não está num lugar porque D'us está dentro dele; o lugar existe porque depende d'Aquele cuja glória o sustenta.

A Shechiná: presença sem localização

A palavra Shechiná deriva do verbo shachan, "habitar", "repousar". Daí a impressão imediata de que D'us se instala em um endereço — o Templo, o monte, o meio do povo. O Rambam dedica boa parte do Guia a desmontar essa leitura. Em I:25, examinando precisamente o verbo "habitar" aplicado a D'us, ele explica que, quando a Escritura diz que D'us "habita" em algum lugar, não afirma uma presença física, mas a permanência de uma relação — a constância de Sua providência e a continuidade do reconhecimento daquele lugar como espaço de encontro.

O verso fundador é o mandamento de construir o Santuário:

וְעָשׂוּ לִי מִקְדָּשׁ וְשָׁכַנְתִּי בְּתוֹכָם "E far-me-ão um Santuário, e habitarei no meio deles." Shemot 25:8

A precisão do hebraico é notável e quase nunca acidental. O texto não diz "habitarei nele" — referindo-se ao edifício — mas "habitarei no meio deles", referindo-se às pessoas. O Santuário não é uma caixa para conter o incontível; é um instrumento que organiza a vida de uma comunidade em torno do serviço, do estudo e da consciência de D'us. A "habitação" não é a presença de uma substância dentro de paredes, mas a presença de uma relação dentro de um povo. Onde há esse reconhecimento, diz-se que a Shechiná repousa; onde ele se perde, diz-se que ela se afasta — sem que nada se mova fisicamente em parte alguma.

O Rambam, no Guia I:64, reúne os fios: tanto kavod quanto Shechiná podem designar, conforme o contexto, a luz criada que sinaliza a revelação, ou o próprio reconhecimento da grandeza de D'us. Em nenhuma das acepções a essência divina se torna objeto de visão ou ocupa um ponto do espaço. A linguagem é acomodada à percepção humana — "a Torá fala na linguagem dos homens" — para que verdades sobre uma realidade não corpórea possam ser comunicadas a seres que pensam por imagens.

A Shechiná no exílio

Há uma afirmação rabínica que, lida literalmente, pareceria insustentável para uma teologia anti-antropomórfica: a de que a Shechiná acompanha Israel no exílio. O Talmud (Megilá 29a) declara que, para onde quer que Israel tenha sido exilado, a Presença divina foi com ele. Como pode "ir" o que não está em lugar nenhum?

A própria estrutura conceitual que construímos resolve a dificuldade. Se a Shechiná não é uma substância localizada, mas o nome da relação entre D'us e quem O reconhece, então dizer que ela "acompanha" o povo disperso significa que essa relação não ficou presa às ruínas de um edifício. O vínculo, a providência, a possibilidade de encontro — nada disso depende de coordenadas geográficas. O povo perdeu o Templo e a terra, mas não perdeu o acesso ao seu D'us. A Shechiná "vai com" Israel exatamente porque nunca esteve, em sentido físico, em lugar algum: o que se preserva é uma relação, e uma relação viaja com aqueles que a mantêm.

Viver diante da Presença

Resta a dimensão prática, que talvez seja o ponto inteiro. Se a glória e a Presença não são fenômenos para serem observados a distância, mas o reconhecimento de D'us que se realiza onde há quem reconheça, então cada pessoa carrega a possibilidade de tornar real, em sua própria vida, aquilo que o Templo simbolizava. O Salmo formula essa consciência de modo célebre:

שִׁוִּיתִי יְהוָה לְנֶגְדִּי תָמִיד "Coloco o Eterno diante de mim continuamente." Tehilim 16:8

"Colocar D'us diante de si" não é imaginar uma figura no campo de visão — isso seria precisamente o antropomorfismo que combatemos. É manter ativa, de modo permanente, a consciência de que se age sob a realidade de um Criador que tudo conhece. Viver "diante da Presença" é uma postura intelectual e moral: deliberar, falar e agir como quem nunca está fora do alcance d'Aquele cuja glória enche a terra.

O paradoxo aparente — D'us que "habita" sem estar em lugar algum, que "se vê" sem ter forma — dissolve-se quando entendemos que kavod e Shechiná são pontes de linguagem entre uma realidade não corpórea e mentes humanas que só pensam o invisível por meio do visível. A tarefa do estudante de filosofia da Torá é atravessar a ponte sem confundi-la com a outra margem.

Esta é a grande disciplina do pensamento judaico sobre D'us: receber a riqueza da linguagem bíblica — a glória, o fogo, a habitação, a Presença — e recusar-se a rebaixá-la a uma imagem. A glória do Eterno não é D'us tornado visível: é o sinal criado da Sua revelação e o reconhecimento devido à Sua grandeza, num mundo que, sem que Ele ocupe um único ponto, depende d'Ele em cada ponto.

Sobre este ensaio

Texto autoral, na tradição da filosofia racionalista da Torá — a linha do Rambam (Maimônides) e de Saadia Gaon. As fontes clássicas estão citadas ao longo do texto: Torá (Shemot 24:17; 25:8), Yeshayahu 6:3, Tehilim 16:8, o Talmud (Megilá 29a) e o Guia dos Perplexos (I:19 sobre o kavod; I:25 sobre a Shechiná; I:64 reunindo ambos), além da noção do kavod nivrá de Saadia Gaon. A redação é original.